segunda-feira, 31 de agosto de 2020

o riso dos enzos

 o que mais tem me interessado, desde que comecei a dar aula para crianças, é perceber o jeito que crianças costumam rir. vocês já repararam como uma criança ri quando algo está fora do lugar? quando uma coisa acontece de maneira inesperada? quando trocamos uma palavra? crianças morrem de rir quando alguém tropeça, ou anda de maneira esquisita, ou ainda quando alguém aparece com um chapéu extravagante, ou conversa com uma voz incomun. crianças adoram os tipos atrapalhados. uma vez, numa turma de segundo aninho, eu troquei o nome de um aluno, e isso foi suficiente para a turma morrer rindo até o final da aula. mas por que? por que criança ri de coisas que a gente não presta muita atenção? 

parece que crianças riem quando rola uma falha, um fracasso no mecanismo do mundo adulto. o riso dos enzos surge quando as coisas estão fora de ordem, estranhas, desfamiliarizadas, privados, por um momento, da função que ocupam na organização geral das coisas. crianças riem quando as coisas saem dos trilhos, quando algo aparece fora do lugar. não é por acaso que o som de uma criança rindo é tão excessivo, parecendo incontrolável, como se fosse uma hemorragia de sentido. uma de minhas alunas, durante a aula, colou uma figurinha na própria testa e mostrou, apontando com o dedo, para a coleguinha. eu nunca vi alguém rir tanto e com tanta vontade quanto essa aluna. por causa de uma figurinha da frozen colada na testa da amiga. 

para o adulto que observa, esse riso pode significar uma pausa na ordem tirânica da vida adulta. o riso infantil pode perturbar o equilíbrio de nosso universo. a gente é bom em fingir que as coisas estão seguras e bem encaixadas. as crianças só podem mesmo rir de nosso desejo idiota de acreditar que nossos significados gratuitos e valores frágeis são tão estáveis e firmes quanta a confianças daqueles trinta por cento que ainda insistem em apoiar o presidente. 

crianças são derridianos naturais. seu riso denuncia a contingência e fragilidade de nosso mundo adulto. é difícil ver uma criança rir e não pensar na incerteza e falta de fundamento da nossa existência. eles mostram, para ser heideggeriano, o elemento encoberto na aparente funcionalidade cotidiana de nossa vida. o riso das crianças mostra a precariedade e incerteza fundamentais de nosso próprio modo de ser. o que fracassa é nossa ideia de cosmos, a ideia de sentido do mundo visto como um todo virtuoso, racional e bem ordenado.

toda a nossa metafísica ocidental não sobrevive a uma gargalhada de criança. 



segunda-feira, 30 de março de 2020

uma das frustrações que tenho como professor de filosofia é não conseguir mostrar para meus alunos como a filosofia é realmente engraçada. grandes temas filosóficos e boas piadas têm muita coisa em comum. por isso que tanto textos filosóficos quanto piadas evocam um efeito persuasivo, que parece repentino, como se tivesse sido aberta uma janela que estava há muito tempo fechada. o que um texto filosofia faz, assim como uma piada bem contada, é aumentar uma pressão até que seja impossível suportar. é por essa razão que muita gente diz que nunca saímos o mesmo de um texto filosófico.

a gente sabe também que nada estraga mais uma piada do que ter que explicá-la. sentimos como se a graça tivesse sido traída, profanada. é um pouco parecida a situação de um professor que precisa moer e decodificar um texto de kant ou heidegger diante de uma classe de alunos. é simplesmente chato. 

eu acho que uma das razões para que os jovens não consigam entender a graça da filosofia é que hoje a gente se acostumou a ver o humor como entretenimento confortável ou um tipo de fuga. a principal função do humor que consumimos hoje é escapar: gostamos de piadas com fantasia, adrenalina, violência, sexo -- qualquer coisa para escaparmos de nós mesmos, qualquer coisa que dê alívio, para fingir por alguns momentos que não estamos perdidos. não é à toa que boa parte dos jovens e adultos se dediquem tão seriamente hoje a foder, beber até cair e buscar todo tipo de confusão e folia. estamos todos apavorados, e lidamos com esse terror de uma forma genuinamente contemporânea. é compreensível, então, que a maioria de nós só considere a história da filosofia monótona e sem graça.  

assim, é muito difícil fazer um aluno perceber o humor que está implicado na filosofia. isso porque eles foram ensinamos a entender o humor como algo que alivia -- assim como aprenderam que conhecimento é algo que simplesmente se conquista. não é estranho que eles não sejam capaz de entender a piada fundamental que atravessa toda a história da filosofia: a de que a busca interminável e impossível pela sabedoria é, justamente, a nossa sabedoria. e isso é engraçado pra cacete. mas, acreditem, é quase impossível colocar isso em palavras quando tu está diante do quadro-negro. 

quinta-feira, 26 de março de 2020

escritório na sacadinha

devido ao tamanho do meu novo apê, tive que improvisar um escritório na sacadinha. e essa foi a melhor ideia que já tive. um escritório na sacadinha, que quando acordo me olha assim, apontando para mil possibilidade lá fora: caminhos, trilhas, passantes, cores. 

um escritório na sacadinha é um bom começo de dia, e isso, por si só, é um sinal. ninguém se sente só tendo um escritório na sacadinha, podendo trabalhar olhando para o mundo imenso e convidativo lá fora. é como se fosse possível, por breves momentos, algum domínio sobre a vida.  todo mundo precisa de um espaço assim, que faça o tempo prender a respiração para que a vida possa respirar um pouquinho. a vida pode seguir difícil e pesada, mas lugares como este criam uma bolha, enorme e cor de rosa, que suspende essa marcha monótona. 

mas ninguém tem um escritório na sacadinha à toa. há de possuir também um gato tigrado chamado dasein. ter livros sublinhados, caixas com bugigangas e uma almofada de rinoceronte. 

e quando, lá embaixo, estiver chegando em casa, há de olhar para cima e ver de relance no escritório da sacadinha a própria imagem sozinha e feliz sorrindo de volta. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Gabri (lógica)

tu não precisa ficar distante, pode se aproximar. dê mais uns passos, ande mais uns metros até mais próximo. por que ficar na margem, se tu pode tirar os tênis apertados e molhar os pés na primeira onda? sentir a água gelada nas canelas, nos joelhos, batendo na cintura. por que ficar me observando de longe, me vendo apenas azul e calmo, se tu pode sentir que minha água, no fundo, também pode ser suja e grossa? por que ficar me olhando distante quando tu pode mergulhar? por que não descobrir, de uma vez por todas, que de perto o meu cheiro é outro? 

na verdade, é tudo simples, bastante simples. como num princípio aristotélico: ou tu pertence ou tu não pertence. 

a gente pertence. 

é lógica. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

eu só acredito
no contorno da vida
só na vida
e no bater do coração

sei que é verdadeiro
o ar que entra nos pulmões
e o sangue quente
que impulsiona 

eu só coloco fé no espanto da gata dasein
quando me olha

o resto
é tudo especulação

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

sobre o verão de poa

em porto alegre, o vento ainda não se decidiu se é de chuva ou de friagem. mas o cinza introduz possibilidades no verão portoalegrense, aquele que contrária os meteorologistas. e, como a filosofia raramente sobrevive ao calor de mais de trinta graus, aumentam as chances do indizível acabar em silêncio. até ontem era dia de ocupar as praias e os clubes, essa gente toda, nós mesmo, tagarelando feito doidos. 

se ao menos não tivesse esse mormaço, esse vento seco e esse céu de um um cinza tão escuro, talvez as palavras servissem como embalagem para coisas mais alegres e sólidas, coisas bonitas que impusessem sua existência inevitável. mas o princípio do verão de porto alegre é uma tristeza muda, como se deus, descalço, caminhasse pelas folhas. 

Enquanto isso a vida vai passando. dois mil e vinte. um dias as pessoas vão embora. quem fica, fala pouco sobre esse assunto, que, por incômodo, não se demora. no entanto, conversam sobre como o verão deste ano promete ser mais quente do que o anterior. isso significa que há diferenças entre viver agora e em outro tempo, o que deve implicar em algum tipo de responsabilidade. e não se trata de uma decisão pessoal. há um vento, uma vocação, um chamado cuja origem não sabemos identificar, mas que nos dá confiança para navegar nessa incerteza. porém, por mais que queiramos ser impessoais, a responsabilidade é sempre nossa. o que quer que seja, não está lá fora. é dentro da gente. 

o inventário do tédio registra: vizinha varrendo o quintal, cachorros correndo e latindo, crianças brincando, o ônibus que passa, o martelo de alguém que conserta um móvel. alguma música acidental num apartamento distante. mais coisas, talvez. se ao mesmo a gente tivesse tempo para ouvir. ver, ouvir e calar. é o que resta. como o tigre de benjamin, reunir toda a força ao redor de um único ponto do solo antes de saltar. nesse momento, tudo é. 

respirar fica difícil e penoso. atrapalha até o pensamento. o tempo mofa, por debaixo das folhas. nesse tempo abafado, só o esquecimento permanece. tudo cheira a dia tristes. a beleza, se existe, fica encoberta. numa tarde nublada do verão de porto alegre. o tempo dará o tom e a melodia, pois o tempo muda e desmuda tudo. o esforço para pensá-lo é que parece ser muito grande - pela filosofia ou pelo tédio - tanto no frio quanto no calor. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

uma analítica existencial do primeiro encontro ou jéssica e uma beleza fenomenológica

a tua forma de ser no mundo é certa impressão de fugacidade, um caráter improvável, fugitivo, como se estivesse sempre prestes a voar. é por isso que você impele para cima, por isso que você não está inteiramente presente: você não pesa de todo sobre o chão, tem os pés leves, frequentemente parece assustada, como se fosse sair fugindo ao menor som nas folhagens -- não que seja covarde, pelo contrário, é que se atreve a ir longe, sempre longe demais. dessa forma, teu ser, ao invés de manifestar-se abertamente, está oculto, escondido, negado, fechado em um tipo de interioridade. essa é a consequência mais radical de seu modo de ser: não ser coisa definida, ser um fenômeno que está sempre acontecendo, que consiste em um dinamismo e fugacidade. descrever esse modo de ser vai além da companhia no sentido de sairmos juntos: é uma constante interpretação.  

as linhas delicadas do teu rosto desenham uma ruptura: tu está sempre um pouco atrás de teu próprio rosto.  é o que mais propriamente chamo de um rosto bonito: não o que de imediado agrada por suas formas e que se consegue ver integralmente de uma única vez, mas o que se precisa continuar olhando, interminavelmente. é um tipo de beleza que se dilata e se afasta, elástica, para o futuro, e eu sentia que precisava estar olhando para esse rosto, indefinidamente, a noite inteira. 

terça-feira, 5 de novembro de 2019

estava olhando pela janela a rua lá fora e pensando no meu gosto por autores marginais. naqueles outsiders, deslocados, que pouco se fala numa aula de história da filosofia. naqueles que quando falamos a voz sai com dificuldade. que quando tentamos escrever sobre, as letrinhas caem como bolinhas de vidro e se quebram no chão. naqueles consumidos pela aporia mesmo. nos que não se encaixam no cânone, porque a vida não permite. não há tempo e um sistema filosófico é nada. 

lembro da melancolia de benjamin. nas frases quase no limite do sentido de derrida. de kierkegaard, cuja filosofia se confunde irremediavelmente com sua biografia de revolta e desespero. heidegger disse uma vez para sua mulher, falando sobre si mesmo: a vocação para uma tarefa é também uma condenação à solidão. todos queimaram a vida. todos consumidos pela aflição e pela angústia. 

defendi em minha tese de que há laços de família entre esses filósofos que escreveram à margem da história da filosofia. e deve haver, pois de certa forma se parecem. há laços entre aqueles que observam de longe o jogo da filosofia oficial. que espreitam pelas frestas das janelas tentando entender o mundo lá fora. os que olham as pessoas passando, os carros parados nos sinais fechados e enxergam muito mais.

o tecido da história, assim nos ensinam, foi composto fio por fio de forma ordenada. mas as filosofias propostas por esses autores são feitas de pedaços informes, tão movediças quanto a areia das dunas. foi preciso quebrar o ser. fragmentá-lo. e mesmo assim não sobrou nada. nem um pedaço sequer. o que se buscava era tão profundo que ninguém, nem mesmo eles, ousarem chegar perto. a única coisa que pode aproximar desse mistério, e talvez consolar ou suavizar, é um jeito (novo) de escrever. só assim se tem alguma fé ou confiança. porque torna um pouco claro e luminoso o que era ambíguo e obscuro. 

há sim laços entre aqueles que tentam vislumbrar o fundo dos abismos. como se todos viessem da mesma noite em que o silêncio preenche todos os espaços, deixando submersas em tristezas a aporias todas as coisas em sua volta. 

há laços. 

e apesar disso, são sempre tão sozinhos. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

para uma passante (da cb)

uma mulher fuma. não consigo compreender seu estilo. tem uma certa obscuridade, como um atraso no tempo. como se tivesse saído de algum bar punk do final dos anos oitenta. tem o cabelo pintado de laranja. seu penteado é tão artificial que parece ser uma peruca. não me olha. somente fuma e de uma maneira muito lenta. há algo em sua energia que me captura. transmite uma distância, um descompromisso com o cotidiano, como se estivesse buscando um compromisso maior com outras dimensões da existência. 

a mulher seguiu sem falar e seguiu fumando olhando para a rua. até que lentamente começou a desviar seus olhos para mim. sinto seu olhar em mim. creio que pela primeira vez na noite me dou conta que tenho um corpo. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

longe

não há o que se fazer quando longe não é um lugar. não há como chamar um uber, pegar um táxi, comprar uma passagem. nada pode ser feito quando o longe é por dentro, um não ser, uma coisa qualquer que nunca chega. por mais que se siga em frente a vida toda, longe é uma brecha que não se fecha. às vezes é um escuro que assusta, outras é uma claridade que cega. 

longe é quando as coisas vão morrendo, diante dos nossos olhos, sem que possamos salvá-las. longe é quando as coisas partem, quando se vão lentamente, sem como, sem quê. longe é quando não perdermos, mas as coisas que perdem a nós. 

nessa mônada que somos, cada um sabe o que arrasta por dentro. longe, às vezes, é bem onde a gente tá. 

gato

o gato que me olha
é um gato que tem olhos
e que me percebe
como eu o perceberia

é assim que eu olho
para o gato que me olha

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

sapatos (ari)

ali, por debaixo da mesa do restaurante, fiquei olhando os sapatos soltos do pé como se estivessem no chão da sala de casa. a roupa que ela vestia. a camisa lisa de manga longa, tão a cara dela, tão bem ajeitadinha. a bolsa, imitando o coro de crocodilo, com o fecho dourado, como se ela tivesse ficado em dúvida, na noite anterior, se ela combinava bem com a roupa. mas os sapatos, especialmente eles. pequenos, sem salto, baixos, escuros. ali, um do lado do outro, fora dos pés. isso me fez pensar como tudo aquilo que eu via era ela viva, e em como eu me sentia também vivo próximo daqueles sapatos tirados daquela forma e de como sempre vê-los ali, atirados, e nunca guardados dentro de algum armário.  

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

estranho

o que te desassossega?
o que te perturba até a alma?
o que bate a tua porta?
o que atravessa teus dias atravessa a chuva atravessa a tua vida
sem nenhum traço nenhuma sombra?
o estranho que te diz pare de sonhar menino
o mundo é perigoso é cego é surdo?
quem é que grita teu nome da rua
e não entra mesmo com a porta aberta?

não é aquele que tu também desassossega?
aquele que tu perturba até a alma?
aquele por quem tu bate a porta?
não é aquele cujos dias tu atravessa
sem deixar traço sem deixar sombra?
o estranho ao qual tu diz
pare de sonhar menino?
o nome que tu grita da rua
sem entrar pela porta aberta?

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

janaina

ela é um labirinto escuro. o caos que se mostra é mais ou menos como um desenho perdido de um mapa -- de um lugar inencontrável. mapa. no mapa, nada de bairros ruas estradas rotas e caminhos. nada. nem qualquer sinal para sair do labirinto. no mapa apenas brilham faróis. um emaranhado de luzes intermitentes e um intricado de pétalas de uma rosa -- murcha. é um mapa do tempo. o tempo.  a escuridão.

apesar de tudo, no fundo dos seus olhos se vê as ondas do mar e as nuvens do céu. e a tristeza que faz com que ela seja ainda mais linda. 

terça-feira, 25 de junho de 2019

terça-feira

em heidegger o tempo não é pensando numa linearidade. a temporalidade é mais o horizonte de sentido do próprio ser. de tarde, a manhã pode parecer distante, mas nem por isso menos triste. a terça-feria deveria ser considerada o dia mais triste da semana, como são tristes as histórias de amor que acabam quando o amor ainda vive. nenhuma passagem de tempo pode mudar isso. a tristeza. a distância. o tempo. a terça-feira. que nada mude. que tudo se repita. que mesmo o amor mergulhe numa melancolia de terça-feira, até sumir na escuridão. 

há dias em que é noite sempre e sempre uma cortina dança ao vento. entre bebidas, palavras e cuidados. há um homem que escreve sobre o momento em que desentendeu o mundo. que se sente um pequeno barco à deriva. há alguma coisa que eu vejo quando a tristeza me toma. quando estendo as mãos no ar morno da noite escura. uma noite que me abre com punhaladas na pele. e alguma coisa me diz que há algo que não estou vendo. cegueira minha. a noite também é minha. serei quem mata, serei quem morre. não importa. algo me diz: mantenha os pés no chão. e retroceda apenas quando for a hora. quando é a hora? não se perca. a noite não é de ninguém. não há noite. e as coisas que vejo sem vê-las? 

cada pessoa deve carregar em si o sonho de poder fugir do tempo. carrega o desejo de existir como quem guarda velhos livros num baú. como quem esconde fotos, anotações e pequenas joias. onde tudo permanece. mas nem sempre é possível se esconder. não há mais casa dos pais para voltar, nem lua sobre as árvores. nada de lareiras. nem fogão a lenha para se comer bem. nem crianças correndo brincando rindo. nem banhos no começo da noite. nada daquele lugar de pequenas e grandes cumplicidades. 

minha primeira lembrança foi ter me visto sozinho. a segunda, humano. tempos depois entendi porque a boca queima durante alguns beijos. já era tarde. a noite escura sem lua. beija-se com tudo nesse mundo. com os olhos, com as mãos, com as narinas. inclusive com a boca.  no entanto, sobra sempre isto: a solidão que não somos capazes de romper. 

é pelas coisas que perdi que sei aonde estou. minha filosofia tem sido apenas isso: perdas. e até onde elas me levaram. 


sábado, 22 de junho de 2019

cinco anos

era uma noite na cb. uma conversa num banco da olaria. era uma vida tão doída, tão sozinhas, as nossas. um beijo não dado numa noite na cb. as pessoas e os carros em volta. os muros, os bares. a pele, os cabelos, o medo. a culpa. 

cinco anos não é muito quando se tem quase sessenta ou setenta. cinco anos é uma eternidade quando se ainda é jovem. foram cinco anos de eternidade, toda a eternidade dentro de mim. no desejo que não se concretiza, no abraço que não se permite ir até o fim. o olho no olho. o espelho. a espera. é sempre uma espera. ela vinha, ela ia, ou eu ia, eu voltava. a gente sempre volta. cinco anos. nos últimos cinco anos cada texto meu tem uma pequena dedicatória a essa garota. 

cada texto teu tem uma pequena dedicatória a essa garota. 

tudo preso numa lembrança nebulosa de dor. numa lembrança nebulosa de desejo e cinza. tudo tudo tudo adormecido. e em cinco anos passou uma eternidade. 

na olaria eu passei os braços por sobre os seus ombros. num abraço antigo. ali eu era o mesmo cara de cinco anos atrás. e ela a mesma garota. e só então eu soube que ela tinha muito, muito mais medo da vida do que eu. 

se eu pudesse, diria: não chore. 
e depois: olhe para a multidão. também somos pés sobre a mesma terra. 
pense no que somos. somos apenas canos de fazer bosta. 
quando o gato mia, e seus olhos amarelos nos olham de perto, tudo se dilui. 
e eu diria: não chore, não chore agora.
nem chore depois. 
e eu também diria: estarei sempre aqui. 
como nos últimos cinco anos. 

terça-feira, 11 de junho de 2019

belo

para mim -- pelo menos da forma que eu a compreendo -- uma das passagens mais bonitas da história da filosofia é aquela de são tomás de aquino sobre a beleza. ele distinguiu três características básicas da beleza: integridade, harmonia e esplendor. 

a integridade quer dizer que é belo algo quando nada lhe falta. mas isso não quer dizer que o ente precise estar completo em si mesmo. fala mais sobre a relação de cada existente com a totalidade do mundo. a beleza não deve afastar do mundo, pois, ao contrário, deve transformá-lo. um ser belo ilumina o mundo que o rodeia. uma árvore no meio de uma cidade cinza, por exemplo, transfigura o cenário geralmente feio que a cerca, podendo estar até sem algumas folhas e galhos. sua beleza vem justamente dessa abertura à totalidade do mundo que lhe rodeia e de sua capacidade de lhe dar uma nova forma. é uma beleza que se manifesta "fora de si", a beleza de algo cobre e integra o mundo, para lhe dar uma forma e uma vida nova. 

a harmonia se refere a ordem das partes dentro de um todo. porém, sem que o princípio dessa ordem seja evidente. a harmonia guia o olhar fora do marco de sua presença, entrega ao imprevisto. a harmonia convida a buscar um sentido mais profundo. dificilmente  a beleza aparece a um olhar distraído. quantas vezes não encontramos no rosto de alguém um detalhe, que por si só não é bonito, mas se torna bonito ao fazer parte daquele rosto específico? 

o esplendor implica que a beleza sempre se manisfesta no ocultamento de sua origem. o esplendor expressa sua retirada, sua liberdade, seu ocultamento. a transfiguração misteriosa de algo que contemplamos, que nos fascina, nos atrai, mas nos escapa. não podemos encontrar sempre novos detalhes num rosto que julgamos bonito? a beleza revela o que não se esgota numa presença visível: o invisível que não se faz evidente. nosso mundo tem uma profundidade que se revela aos pouquinhos e que pode nos maravilhar. 

a gente olha o mundo todo dia, mas quase sempre só vê o que está acostumado a ver, vê o que pensa já saber. mas a cada manhã, o mundo pode ser outro. isso é muito claro para quem mora diante de uma árvore, observado-a cada dia. são muitos lugares num lugar só. basta aprender a ver.

para vocês verem que metafísica pode tornar o mundo um lugar menos sem graça. 
hoje, depois de tanto tempo, sonhei com você. era madrugada, me levanto da mesa no escritório para passar café. me viro e, ali, você está. eu me assusto. você não poderia estar ali. eu não sei o que dizer. você não me ajuda. mostro pela janela uma varanda iluminada na casa vizinha. ao olhar a claridade, esperava ter alguma coisa para dizer. mas não consigo. pergunto sobre teus pais e conto um pouco sobre os meus, como se alguma ancestralidade nos socorresse nesse momento. tua boca segue fechada. 

quando ouço tua voz, ela se esparrama por dentro de minha pele, atravessa os músculos, os ossos, e ali ecoa. é como se fosse a primeira voz depois da criação do mundo, por sobre as águas, anunciando a luz. noticiando um novo universo, intangível e coberto pelo véu do desejo. de novo ouço tua voz, e uma engrenagem se movimenta, como se no mais antigo de mim, ali, em cada dia, cada noite, a sua voz viesse me chamar. e você vai embora. e mais nada. nada consigo falar enquanto você se afasta.

e já não te vejo. volto a olhar a janela, e agora a luz está apagada, estive em pedaços. talvez ainda esteja. quando tudo se desfez não ficou de nós, e em nós, nem uma luz acesa na varanda. 

segunda-feira, 3 de junho de 2019

tem dias que, por mais que a gente tente, é impossível produzir. o café se perde servido na caneca, a roupa venta no varal, no livro somem as letras. faz frio. o mundo vai silenciando, como num final de festa. todas as vidas se parecem. o que antes era ponte entre uma vida e outra, agora é cerca de arame farpado, um fosso. a gente se sente cansado e entediado, imagina-se estrangeiro. não reconhece a língua, as roupas, as placas na rua, a comida, os jeitos de ser. 

nesses dias, a maquiagem do mundo é desfeita, acaba a farsa. o ar entre e sai. nessas horas, parece que até o ar que gente respira é falso. trabalhar e escrever vai ter que ficar para outro dia. nada nos inspira. temos ideias e nada se sustenta. toda palavra sobra, e sentimos que nenhuma palavra basta.  toda palavra é insuficiente, como se as coisas, os lugares e os sentimentos tivessem um nome desde sempre, e ninguém nunca sabe -- a gente diz muitos nomes para o ser, mas o nome dele mesmo, qual é? esse nome absoluto, essa palavra, é o que buscamos? 

talvez, perder o chão seja parte da vida, como as águas do rio que precisam estar em movimento para não apodrecer. nestes dias, desisto de trabalhar. me levanto discretamente, vou até a porta da casa e me despeço do gato com um carinho. olho o céu sem nuvens e sinto o ar do inverno ficar mais leve. chamo algum amigo para beber no mesmo bar de sempre, alguém que também se deixou desproteger. a gente bebe pra tirar esse gosto amargo da boca. mas o amargo é por dentro da boca, por dentro de nós mesmos. quando mais bebemos para tirar o amargo da boca, mais em amargo nos tornamos. 

sexta-feira, 31 de maio de 2019

escrever é mais ou menos isso: a gente se veste para que outro posso nos despir. é construir pontes com as pedras do rio. depois a gente se pergunta quanto tempo levará para que as palavras envelheçam, para que as frases se cubram com poeira, e os fungos e as rachaduras tornem todo o sentido incompreensível. quanto tempo nossa língua morta demora pra secar? quanto até nossas palavras não nos vestirem mais e ninguém puder nos despir? quando a gente não saberá quanto do que dizemos flor é flor nem saberá quanto da noite é noite quando dizermos. 

eu lembro da história de um guerreiro corajoso que vivia sem medo de nada porque seu coração estava em outro lugar. não estava ali, no seu peito. estava no fundo do mar, dentro de um baú de pedra. o escrever é o oposto dessa vida do guerreiro com o coração oculto. 

escrever é estar com o coração exposto o tempo todo.