domingo, 12 de janeiro de 2014

A contradição da linguagem - parte II

"Filho de uma cadela", gritou Ramiro cuspindo ao ver que o cliente da mesa nove havia saído da cantina sem pagar pela coxinha de frango que havia consumido. O grito pode ter sido um pouco exagerado, mas o sentimento era merecido, afinal Ramiro dedicava toda a sua atenção e fazia de tudo para que a Cantina Dois fosse a mais acolhedora de todo o campus. Ramiro também mimava tanto os clientes que só faltava se despedir deles com um abraço depois que as contas eram pagas. Era assim que Ramiro era: um boa praça, um sujeito legal. Um tipo que se vê cada vez menos hoje em dia e que chegará um tempo em que não veremos mais, dada a a situação cada vez mais dominante hoje que faz o jovem incapaz de expressar simpatia, de dar calorosos e verdadeiros abraços, de olhar com ternura nos olhos e de sorrir aberto e sem receios, seja esse jovem comunista engajado, direitista reacionário, hippie bissexual pós-estruturalista ou analítico de shopping. 

Já Ramiro, o bom sujeito, fazia questão de sempre ser certinho. Terminava a missa de domingo e ele, ao estilo de um vereador em passeata, saia saudando todo mundo, até as imagens santas, sem nunca perder o sorriso do rosto, sua marca registrada. "Tudo joia?" "E a família como vai?" "A vó tá bem?". Ramiro era um cara tão gente boa, mas tão gente boa, que uma vez foi convidado para comer uma pizza na casa de um amigo, e, na pressa ao morder a pizza, acabou comendo um pedaço do guardanapo, o que todos viram. Ramiro passou o resto da noite elogiando e dizendo que aquele tinha sido o melhor guardanapo que ele já comera. Ramiro era tão gente boa que sempre que podia contribuía com a sua simpatia e seu sorriso no rosto em qualquer recepção. O cara era tão gente boa que atendia bem os clientes até quando eram clientes de outro estabelecimento e não de sua cantina universitária, como da vez que, na praça de alimentação do shopping, passou de mesa em mesa cumprimentando os cliente e perguntando se eles estavam bem servidos ou se desejavam algo mais; "Qualquer coisa que não esteja do seu agrado, pode falar diretamente comigo, tá bom? E a vó melhorou?". 

Por tudo isso havia como que um contrato social vigente em Ijuí e que definia que ninguém nunca deveria tentar prejudicar a Cantina Dois do boa-praça Ramiro. Talvez o universitário caloteiro da coxinha de frango não conhecesse o homem e sua fama e, por isso, cometeu o erro que muitos acabam cometendo: o de julgar pela aparência. De fato, a aparência de Ramiro não combinava com sua personalidade. Ele era gordinho, de pele clara e reluzente, sobrancelhas grandes e destacadas, bigode fino e um pouco de cavanhaque embaixo do queixo. Em suma, parecia o próprio diabo - só que loiro, bem loiro. Mas essa possibilidade só irritou Ramiro ainda mais. Primeiro porque ele sempre fez questão de, apesar de sua aparência, ser durante toda a sua vida um homem fino e delicado, quase uma menina. E, segundo, mesmo não sabendo quem era o cliente da coxinha de frango (são tantos estudantes indo e vindo numa noite de aula no campus), tinha certeza que havia tratado esse universitário feito uma princesa.  Tinha até perguntado, já que o universitário estava lendo, se ele não queria que o volume da televisão fosse diminuído, aumentando assim o aconchego de sua leitura. Depois de ir, sem sucesso, até a saída da cantina atrás do estudante, Ramiro estava agora no caixa, puto da vida, vermelho de indignação (o que se destacava muito em seu rosto tão branco) e tentava obter da garçonete Rúbia pistas do paradeiro do pilantra. 

- Seu Ramiro, limpa o cavanhaque, tá com babinha. 

- O pano, por favor, Rúbia, 

- Toma aqui. O pessoal da mesa oito disse que ele estava lendo um livro grande, grosso e que parecia estar em alemão. Cante, Canti, Conte, algo assim era o autor. Deve ser coisa das ciências humanas, aquela turma de maconheiros. 

- Tinha que ser alemão! Tudo de ruim que acontece no mundo, se a gente for ver, tem alemão metido. Tudo! 

- Mas ninguém sabe o nome dele, não, seu Ramiro. 

Uma rápida pesquisa na internet fez Ramiro descobrir que o ladão de coxinhas de frango estava lendo a  versão original em alemão da Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant. Já era um começo e o dono Cantina Dois da Unijuí não iria descansar até colocar as mãos no vagabundo. 

- Então, Rúbia, tudo que a gente tem é o nome de um livro: Crítica da Razão Pura. 

- Ai que bom, seu Ramiro! Então a gente pode, ao invés de fazer um retrato falado e colar nos postes, sair pelo campus perguntando quem já leu a Crítica da Razão Pira. Facilita

- Pura! Crítica da Razão Pura! 

- Aie, tá bom. 

- Querida, vá até a biblioteca central e veja quantos exemplares desse livros temos disponível aqui pelo campus. E depois espalhe pelo campus que eu darei mil reais de recompensa para quem me der pistas do dono do livro. 

- Mas, seu Ramiro, e se for um livro famoso e tiver muitos exemplares pelo campus? 

- Te vira, porra! 

Irritado, como nuca havia ficado, Ramiro tirou um lenço de papel do bolso e secou o suor que escorria pela sua testa, mas estava com tanta raiva que amaçou o lenço numa bolinha e jogou no chão. Lastimava que houvesse no mundo um ser humano capaz de enganá-lo, ele que era tão bom e puro feito uma criança. Depois do final da noite de trabalho e enquanto jantavam na cantina vazia, Ramiro e a garçonete Rúbia já haviam feito todas as conexões que eram capazes de fazer e não pareciam sair do lugar. Ele, enquanto comia sua sobremesa, só pensava em dar seguimento ao seu elaborado plano de vingança. Logo concluíram que o caso era complicado e necessitava de trabalho profissional. Foi então que Rúbia lembrou que no mural do Prédio F havia colado um folder com o telefone de um detetive particular; "Detetive Paulo Rudi, se não me engano". 

A garçonete correu e logo voltou com o número do telefone do tal de detetive. Com o número em mãos, Ramiro fez a ligação que mudaria para sempre a história do curso de graduação em filosofia da pequena Unijuí: 

- Alô. Detetive Paulo Rudi? Ramiro, da Cantina Dois da Unijuí. Tudo bem? Que bom. A família como tá? Maravilha. É o seguinte, meu amigo: um estudantezinho aqui da universidade saiu sem pagar a coxinha de frango e eu quero contratar os seus serviços, pode ser? Era homem. Endereço dele? Não temos. Na verdade só temos o nome de um livro: Crítica da Razão Pura. O senhor vai ter que começar por aí. Não, não faço ideia do paradeiro dele. O senhor consegue encontrá-lo? Hã? Contradição do que? Contradição da linguagem? A contradição da linguagem vai levar até o bandido? Se o senhor tá falando, né... Mas assim, detetive Rudi, eu não quero que o canalha seja preso. Veja bem, cadeia é pouco para quem usufrui de nossa hospitalidade e sai sem pagar. Meu plano é o seguinte, caro detetive Rudi: eu tenho um sobrinho meio mala, terceiro semestre de sociologia, e meu plano é descobrir quem é o caloteiro para mandar esse meu sobrinho, de mala e cuia, jantar uma noite na casa dele, que é pra ele sentir na própria pele a humilhação que eu tô sentindo, sabe? Você sabe como chegar no campus? Hum, terá que vir disfarçado? O senhor é bom mesmo, detetive Paulo Rudi. Mas vem cá, essa tal contradição da linguagem funciona mesmo? Ela vai explicar o meu caso da coxinha de frango? 

Do outro lado da linha, vinha a voz fria e confiante do detetive Paulo Rudi:

- Meu amigo, a contradição da linguagem explica tudo. TU-DO. 

CONTINUA...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Loide O Arrombador ou sobre a arte de xingar no interior

Se eu fizesse uma lista das coisas que mais amo e que mais sinto falta do interior, certamente que ocuparia o topo desta lista os xingamentos. Ninguém xinga com tanto estilo quanto um jovem adulto do interior. Em Porto Alegre os xingamentos são sempre politizados, são sempre para mostrar que você é mais culto e sábio (e mongo) que seu adversário. São xingamentos do tipo: reaça, esquerdopata, feminazi, coxinha. Sem graça. Falta a manha, falta ousadia e a malandragem do xingamento do interior. Permitam-me dar um exemplo. Tinha acabado de chegar de viagem, quando um amigo veio me visitar e disse bem empolgado: foi pra capital e esqueceu dos amigos, seu arrombado. ARROMBADO. De todas as palavras possíveis para me chamar, ele utilizou essa: arrombado. Não se escuta um xingamento tão bonito como esse pelas ruas de Porto Alegre. Claro que aquilo foi o jeito do meu amigo dizer que estava com saudades de mim (a amizade masculina é realmente tocante). O cenário muda completamente quando a ofensa é dita a um estranho. 

Em toda a nossa gramática, nós podemos encontrar pouquíssimos xingamentos tão ofensivos quanto "arrombado". Ele está quase no final da escalada do pico da pior ofensa. Quando proferido a sério, desfaz qualquer sinal de sorriso e transforma qualquer estranhamento naquele clima quente pré-briga. Aqui no interior, o "arrombado" funciona como um pré-soco na cara e substitui aquilo que vocês aí da capital utilizam com frequência: o empurrão que antecede a porradaria. Aqui a palavra tem uma função quase interjectiva. Assim como "pare" faz alguém interromper sua ação e "pega" faz com que o cão inicie a perseguição, o "arrombado" funciona como um estimulo elétrico aplicado direto nos nervos dos braços e das pernas, fazendo-as se mover rapidamente, em forma de socos e pontapés, em direção ao corpo do ofensor. Trata-se de uma daquelas ofensas sem volta que podemos encontrar na língua portuguesa. Ninguém pode ponderar depois de ser chamado de arrombado. Você não pode parar e pensar "hum, talvez ele não quis dizer isso que disse". Assim como você não pode se desculpar depois de chamar alguém de arrombado ("desculpa, cara, eu não quis dizer que sua mãe é arrombada"). Depois que o "arrombado" é proferido, estamos diante de uma daquelas situações kafkianas que não permitem volta. O arrombado só deixa uma alternativa ao ofensor e ao ofendido: a briga, que só terminará quando uma das partes envolvidas estiver inconsciente.

É por isso que, aqui no interior, não existe prova maior de amizade do que chamar o amigo de arrombado, sabendo que tudo vai ficar bem porque os dois são amigos e nunca um atacaria o outro. E é por isso também que chamar um desconhecido de arrombado e escapar das consequências é realizar uma façanha tão incrível quanto botar a cabeça dentro da boca de um leão ou saltar com uma moto por dentro de um círculo de fogo. E isso me faz lembrar do antigo mecânico que trabalhava para o meu pai na sua loja de peças agrícolas. Seu nome era Loide.  

O fato é que o mecânico Loide, no auge da genialidade de quem passou a vida todo no interior, inventou um método que permitiu que ele fosse capaz de xingar seus chefes (no caso, meu pai e seu sócio) de arrombados sem sofrer qualquer retaliação. Eu nunca entendi porque o mecânico Loide fazia tal coisa. Talvez ele quisesse se vingar secretamente de imposições e menosprezos que sofria sistematicamente no trabalho. Ou talvez fosse apenas pelo lindo vandalismo puro. De qualquer forma, Loide tinha um engenhoso esquema. Vou explicar. 

Durante uma época, a simpática loja do meu pai estava sofrendo uma série de arrombamentos, em que se concluiu que o ladrão agia ou por loucura ou por esporte, já que nenhuma das vezes roubou alguma coisa. Ele só violava fechaduras, trincos, travas e fechos. O guardinha da rua que se chamava Diógenes, um sujeito que vivia bêbado e que me ensinou, quando eu era criança, a atirar (sério), criou para o ladrão a identidade secreta de O Arrombador. 

Com o tempo, todos os prejudicados pelas ações do bandido concordaram em chamá-lo de O Arrombador. O mecânico Loide era sempre o primeiro a se oferecer a ajudar a investigar, responder perguntas e a encontrar o responsável. Foi observando seu comportamento numa dessas ocasiões que eu descobri que ele na verdade estava por de trás do Arrombador e me dei conta de seu genial método para chamar seus chefes de arrombados. Um desses diálogos aconteceu quando eu e meu pai entramos na loja logo depois de um dos arrombamentos. Meu pai estava desesperado pensando que algo de valor tinha sido roubado:

- Meu Deus do céu Loide, espero que nada tenha sido danificado. 

Eis a resposta do mecânico:

- O cofre foi, arrombado. 

Meu pai ficava sem entender:

-Oi?

E o mecânico completava magistralmente: 

- O cofre foi arrombado, chefe. 

Meu pai corria logo para o cofre para conferir e encontrava o cofre arrombado, mas nada de dentro dele havia sumido. É dessa forma que o mecânico Loide, o maior gênio do mal que eu já tive a honra de conhecer nessa minha vidinha, utilizava a sutil diferença provocada pela pausa de vocativo para impor ao seus chefes essas pequenas humilhações secretas. O plano não seria tão fácil de ser realizado se Loide não trabalhasse no local, tendo, dessa forma, acesso fácil a todas as chaves, lugares e senhas. Nunca nada de valor era roubado e ninguém sofria consequência material alguma, além do medo de todos os empregados que pensavam que estavam lidando com alguma força superior, algum tipo de punição divina ou como se o próprio diabo habitasse aquela pequena loja de peças agrícolas. 

Um dia uma janela que sempre era trancada no final do expediente de trabalho amanheceu estranhamente aberta. O guarda Diógenes bateu na porta da minha casa, que era ao lado da lojinha, para avisar do ocorrido. Como meu pai estava viajando, minha mãe foi ver se tudo estava bem na loja que garantia o pão em nossa mesa. E eu fui junto porque não podia perder essa oportunidade de ver a genialidade do mecânico Loide em ação. 

Dito e feito. Loide já estava por lá. Minha mãe já foi logo perguntando:

- Graças a Deus, parece que nada foi roubado ou quebrado de novo.

- Só a janela, arrombada. 

- Como?

- Só a janela foi arrombada, senhora. 

- Ah, sim, ainda bem que foi só a janela mesmo. 

Por alguma razão, esses xingamentos subliminares parece que se alojaram de alguma forma na alma dos meus pais, que passaram a cada vez mais tratar o mecânico Loide com mais respeito e afeto. Chegaram até a convidá-lo a passar uma ceia de Natal conosco. Loide apareceu completamente bêbado e com uma puta gorda que fedia muito, mas essa já é outra história. Durante esse tempo, era sempre assim que se começa um dia de trabalho normal na antiga lojinha do meu pai:

- Arrombado! 

- Como é que é? 

- Cofre arrombado de novo, chefe.

- Merda! 

Essa é a história do mecânico Loide, o arrombador de loja que ao invés de roubar valores materiais, roubava, sem ser percebido, a dignidade de seus superiores. Meu pai sempre ficava ali parado, sem reação, sem nada entender, perplexo na sua lojinha arrombada e iluminada pela primeira luz da manhã. E é por tudo isso que para todo o sempre o mecânico Loide será o meu gênio maligno, o meu supervilão, preferido. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A contradição da linguagem - parte I

Como todo mundo na pequena Ijuí está cansado de saber, há duas formas socialmente aceitas de se tirar um esparadrapo de um machucado: a maneira feminina, que lembra a depilação com cera quente e que aposta na longa duração, diminuindo a intensidade da dor; e a maneira masculina, que segue o método de retirar adesivos, focando na baixa intensidade, apesar da alta duração da dor. Claro que essa divisão binária poderia ser dividida em mais umas dezenas de partes, mas isso não é aqui necessário. O fato de conter apenas duas partes não torna o fenômeno simplista, já que não há nada de errado com o número dois e, de fato, aqui o caso se divide em dois. Para uma realidade simples devemos utilizar uma linguagem igualmente simples. É claro que não é fácil -- se é que é possível -- usar esse tipo de informação para categorizar pessoas, como se quem optasse por uma maneira de retirar o esparadrapo fosse necessariamente, em todos os mundos possíveis, optar por essa maneira, e quem optasse pela outra, escolhesse sempre a outra. As próprias definições de masculino e de feminino - nas quais se apoiam as noções de depilar e de descolar - já não são tão fixas como já foram. 

No entanto, o detetive Paulo Rudi acreditava que sim, acreditava que podia determinar, apenas pela maneira que alguém tira um esparadrapo de um machucado, tipos de pessoas diferentes. Se no meio de uma investigação, ele visse um suspeito retirando um curativo ou um band-aid com todo o cuidado do mundo, aquele ato era visto como um reflexo da psicologia do suspeito e logo era interpretado como uma pista: o sujeito era frio, minucioso e suportava horas de interrogatório sem entregar nada. Não se tratava de uma pista quente, definitiva, mas era um detalhe que podia revelar o todo, um detalhe que se filtrado por uma mente aguda poderia ser muito útil. E o detetive Rudi se sentia muito esperto e especial com esses pequenos raciocínios. Era evidente que o verdadeiro trabalho investigativo, aquele que realmente soluciona casos, estava muito longe desses joguinhos mentais. Na verdade, as grandes evidências não precisam de nenhuma operação mental sofisticada, era só deitar o olhar, coisa que qualquer estudante de epistemologia social seria capaz de fazer. Mesmo assim, o que ocupava 90% do tempo do detetive eram esses experimentos mentais quase inúteis, que preenchiam quase que totalmente seu caderninho de informações. Não era isso que fazia Paulo Rudi ser um detive, mas era isso que o fazia sentir-se um detetive, e para ele era isso o que importava, tanto que usava uma capa bege, um óculos pendurado com fio no pescoço, um chapéu parecido com o do Chaves e fumava sempre um cachimbo, o que o fazia parecer uma criança brincando de detetive. 

Para não parecer um maluco, para fundamentar esses seus pequenos juízos o detetive Rudi criou várias teorias em sua cabeçona de moranga. Dessa forma, o que surgia como uma dedução ad hoc, se se mostrasse frequente e de alguma forma útil, entrava para um rol de traços psicológicos das pessoas em geral, que possibilitava a construção de arquétipos humanos a partir de características psíquicas básicas. A totalidade destes arquétipos Paulo Rudi chamava de Contradição da Linguagem. No caso do esparadrapo, Rudi jogava com duas tendências do pensamento humano frequentemente opostas: o ver fenomenológico continental e a racionalidade dedutiva analítica. Essa divisão entre Continental e Analítico pode até ser confusa. Rudi sabia disso. No entanto, o detetive conseguia inclusive unir os dois lados no fenômeno universal que é a monguice. 

O caso do esparadrapo não era o único, mas foi ele que fez Rudi ganhar fama e virar motivo de piada entre os colegas da Associação de Detetives do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, que passaram a se referir aos palpites meio malucos do detetive como "combos", numa alusão aos combos de lanches ruins que as senhorinhas vendiam pelas ruas de Ijuí e que a vida corrida de detetive obrigava todos a comerem: o sanduíche natural sempre acompanhava o suco de laranja, o dogão sempre vinha com aquela Coca quente. Mas para sermos justos aqui com os combos do detetive Rudi, temos que dizer que hoje em dia cada vez mais os hábitos e as preferências das pessoas estão se agrupando em blocos inseparáveis, como se estivessem coladas umas às outras, de tal forma que a partir de um único dos inúmeros itens componentes de um gosto pessoal é possível intuir quase todos os outros, como se fossem estrelas um pouco afastadas na pior constelação do universo. Vendo por esse lado, o detetive Rudi não era de todo ridículo. Provavelmente o detetive estava certo no espírito do seus combos, mas talvez errasse em sua aplicação em razão do seu critério interno de organização: a contradição da linguagem. 

De qualquer forma, Rudi estava agora diante do seu mais importante caso. Um caso que, se resolvido, acabaria com todas as chacotas feitas pelos colegas da Associação. Para começar a investigar tal caso, o detetive Paulo Rudi teve que lançar mão do seu mais impressionante disfarce: o de professor universitário de filosofia benjaminiano. 

CONTINUA...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A propósito da semana acadêmica

Escobar entrou no ônibus que vai da Ipiranga até a João Pessoa. Passou pela catraca com um movimento maquinal e respirou o ar quente do ônibus lotado. Na calçada, o vai-e-vem das pessoas, contornos indecisos que se transformavam a cada instante. Essa é a vida, todo o resto é mentira. Grandes mentiras da civilização ocidental, a falsa e sórdida civilização dos filósofos. Tão evidente a mentira que bastava, por um segundo, encher os pulmões e o cérebro com o ar de um ônibus lotado para perceber. É mentira Hegel e sua dialética do senhor e do escravo. É mentira Derrida e seus sonhos malucos de multiplicidade. É mentira Agamben e o estado de exceção. É mentira Honneth e o capitalismo tardio. É mentira a moral provisória em Descartes. É mentira a noção de sabedoria prática em Epicuro. É mentira a dicotomia entre fato e valor em Putnam. É mentira Gadamer e o círculo hermenêutico. É mentira Kant e sua dignidade humana.  É tudo mentira. É mentira o jogo estúpido das semanas acadêmicas. É mentira as publicações miseráveis nos periódicos científicos, como seus grosseiros títulos acadêmicos. É mentira a multiplicidade de problemas, de linhas de pesquisa, de teses e dissertações. É mentira os eventos acadêmicos organizados por estudantes de fala mansa e discursos da moda. Tudo uma grotesca mentira, habilmente dirigida. Professores, estudantes, bolsistas, orientadores, mestrandos, doutorandos, honestidade intelectual, homens e mulheres honestas... Escobar riu sem maldade nem ódio, enquanto olhava pela janela do T1 o céu luminoso. 

O vento entrava pela janela aberta a acariciava seus cabelos como uma mão carinhosa. Sim, meu amigo, na filosofia não se vive. Se produz artigos, se ganha bolsas de pesquisa, se compra, se vende, mas não se vive. A verdade estava ali, naquele ônibus lotado. Escobar queria ter forças para fugir daquela vida, romper com ela para sempre. Reintegrando-se ao ônibus lotado, ao dia quente, ao céu azul. Ir arrancando-se aos poucos, dia a dia, jogando fora as coisas que a filosofia havia plantado em sua alma. E assim acordar em uma certa manhã intacto, puro e forte. Poder ser ele novamente. Recordar o Escobar da infância, sem metafísicas, sem falsos conceitos bonitos, sem influência, sem bibliografia. Limpa a cabeça e feliz o coração. 

Isso era partir, ter a coragem de ir-se, romper com a vida estúpida e sem calor da acadêmia. As pessoas do ônibus, tão seguras, tão espontâneas, tão pessoas. E seus colegas apresentando trabalhos na PUC, aquelas gentes são animais melancólicos e covardes. Animais cansados e vencidos. Como cachorros castrados. E Escobar, que já começava a odiá-los, ria sem malícia. Por que não lhe ocorria mais do que palavras tristes para dizer o que queria?  Seguiu junto a janela, com os braços cruzados, junto ao corpo. Desceu logo em seguida. Seguiu olhando as pessoas na rua, caminhando entre as sombras da tarde que caia. E não ouvia mais as mentiras. Nada. Só a suavidade do silêncio. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A angústia da influência

Deitado na cama, Escobar encarava um pedaço da parede branca. Aquela parede tão branca, tão fria e indiferente como um cadáver. Depois ele pensou na parede branca da biblioteca de seu orientador. Mais humana, menos parede. Com pinturas, fotografias e imagens. Na primeira vez que entrou ali, Escobar viu aquilo com um pouco de desgosto, mas logo foi se acostumando. Em pé, no quarto, Renata sem roupa se via no espelho. Pura e simples como um animal. "O que ela quer?" - chegou a se perguntar Escobar - "que bobagem, ela quer o que todos querem". 

Renata quer o que todos querem. Todos menos aquela parede branca, morta e impessoal. Renata olhava para si no espelho e suspirava balançando negativamente a cabeça. Escobar pensava em seu orientador. Aquele rosto velho que expressava sempre uma sensação de cansaço, mas ainda assim alegre. Uma alegria que não se alcança pela reflexão, que não se chega pelas conclusões do pensamento. É preciso atirar-se de cabeça na fé.  Aquele velho caminhava com passos lentos e cansados. Seu corpo expressava tanta entrega, tanto renunciamento, tanta vida que se perdeu. Seria aquele o seu futuro? É possível que ele se converta naquilo? Escobar sempre pensou que poderia modelar sua vida como bem quisesse. Mas e se ele estiver terrivelmente equivocado? Sendo razoável, essa é, sim, uma possibilidade. Agora mesmo, sem saber a razão, ele se encontrava cansado e abatido na cama. "Então é isso?".

Sim, é isso. Um professor dando lições de filosofia alemã, sabendo passagens de livros passo a passo, fingindo conformidade e satisfação. Escobar, dominado por um frio desespero, se viu tendo que pensar a sua vida nesse cenário, buscando, até com certa perversidade, a imagem que mais doía, a mais humilhante e ridícula no fantasma que é o homem em que ele se converteria. Lembrou dos anéis nos dedos, das pernas cruzadas, do relógio de ouro e do jeito de falar. Tudo isso teria ele? E também dos gestos repetitivos, quase mecânicos, da audácia nos olhos e, na boca, uma fala cheia de resignação. E esse era seu possível destino. Pensava na vida e não via mais do que fatalidade, como se seu cérebro tivesse apodrecido antes do corpo, como se uma força cega o obrigasse a continuar, a ler, a escrever, a envelhecer, a ir acumulando essas coisas, a sofrer, a gozar, a sentir tantas e tantas coisas distintas, algumas que nem o interessavam.

Se deteve um instante, fechando os olhos. Renata. Renata nua em pé em frente ao espelho, como se estivesse na coxia do teatro, enquanto ele na cama encarava a parede branca. Ele sabia que um dia iria enjoar-se dela. Mas ela era tão bonita, tão bonita. Sim, também era estúpida, um pouco vulgar, com uma maneira de se ver no espelho que dava nos nervos. Mas, no entanto, ainda assim, apesar de tudo, bonita. Sim, ele também sabia, estava sendo um idiota. Mas com ela, nada de dúvidas ou problemas filosóficos.

Levantou-se da cama e foi até a janela. O anoitecer escuro e frio. Sentiu a noite fresca e calma. E ouviu renata falar:

- Às vezes, durante a noite, eu me lembro de coisas de quando eu era menina.

Escobar estremeceu, pois sabia que qualquer coisa que ela dissesse não cairia bem em seu estado de ânimo.

- Não é nada demais. Só queria sentir aquilo de novo. O medo da noite e o mistério da noite. Isso a gente perde quando cresce. Hoje a noite não me dá mais medo. Mas quando anoitece e eu estou sozinha, me vem um desalento. Uma coisa que eu não sei o que é. É como se gelasse todo o meu sangue.

Escobar se deteve um instante na janela. "É como se gelasse o meu sangue". Idêntico desalento às vezes toma conta do seu corpo. Aos poucos, livre da influência das angústias de Renata, Escobar voltou a ver seu futuro como professor de filosofia, entrando em uma sala de aula cheio de livros embaixo dos braços. Renata estava ali, no quarto, com os olhos amáveis e a boca sorridente. Tentava sentir o parentesco humano que o unia aquela mulher e só sentia que eram pessoas distintas, sem mais em comum do que sentir o sangue gelar às vezes. Às vezes eles sentiam coisas parecidas, mas ela nunca seria capaz de entender nada de seus medos, de seus sonhos, de seus ódios, de sua vontade brutal de ser ele mesmo e não uma cópia de seu orientador, de sua busca apaixonada por um espaço no qual ele poderia se expressar completamente. Pensou em como seria fácil estrangular ela ali mesmo, ou lhe dar uma bofetada, mas sentiu nojo de si mesmo por considerar machucar aquele rosto tão bonito.

Depois voltou para a cama. Renata. Será que ele suportaria duas semanas sem vê-la? Escobar voltou a encarar o pedaço da parede branca. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CHAT FILOSOFIA - SALA: FILOSOFIA BRASILEIRA

SALA: FILOSOFIA BRASILEIRA (1)

Luiz Felipe Pondé entra na sala.

Márcia Tiburi entra na sala.

Paulo Ghiraldelli Jr entra na sala. 

Olavo de Carvalho entra sala. 

Ernildo Stein entra na sala. 

Ernildo Stein fala com todos : Olá pessoal alguém quer conversar sobre a possibilidade de se traduzir o on aristotélico por ser ao invés de ente?

Luiz Felipe Pondé fala Ernildo Stein: Esse tema é muito chato. Não rende muito. 

Márcia Tiburi fala com todos: Concordo. Vamos falar sobre o aborto. O aborto é um dos temas mais populares na nossa sociedade patriarcal e no entanto a filosofia muito pouco fala sobre ele. 

Ernildo Stein sai da sala. 

Marilena Chauí entra na sala.

Luiz Felipe Pondé fala com todos: Sou contra o aborto. Na dúvida de saber quando se começa a vida, prefiro não correr o risco de matar ninguém. 

Márcia Tiburi fala irritada com Luiz Felipe Podé: Se o homem ficasse grávido, o aborto não seria ilegal!!!!

Marilena Chauí grita para todos: Sem útero, sem opinião!!!!

Luiz Felipe Pondé fala com Marilena Chauí: Vale lembrar que a mulher não faz o filho sozinha, então não vejo razão para o homem não poder participar do debate.

Márcia Tiburi: fala com Luiz Felipe Pondé: Porque o corpo não é dele, porque ele não tem cólica menstrual, porque ele não carrega a criança noves meses na barriga. São bons motivos para você, querido?

Olavo de Carvalho fala para todos: Quer dizer que só porque eu tenho um cacete e não uma buceta não posso opinar, ora porra????

Olavete entra na sala.

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Pelo jeito não é preciso diploma pra logar nesse chat kkkkkkkkkkkk

Olavete fala para Paulo Ghiraldelli Jr: Ainda bem que não precisa, pois se precisasse coitados de Sócrates, Platão, Aristóteles...

Vladimir Saflate entra na sala.

Vladimir Saflate fala para todos: Oiiiiiiiii algm qr tc????

Márcia Tiburi fala para Vladimir Saflate: O tema é o aborto na sociedade falocêntrica. 

Vladimir Saflate fala para todos: E quem se diz contra o aborto e defende a pena de morte???? rsrsrsrsrssrs

Olavete fala para Vladimir Saflate: Essa indireta foi pra mim???

Vladimir Saflate fala para Olavete: Se a carapuça serviu...

Mario Sérgio Cortella entra na sala. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Pessoal, eu não sou a favor do aborto. Ninguém é a favor do aborto. A questão não é essa. A questão é a descriminalização do aborto. 

Mario Sérgio Cortella fala para todos: Eu penso que a mãe tem um vínculo afetivo com o filho desde a concepção. Então interromper a gravidez (e aqui podemos pensar em Sócrates que se dizia um parteiro de ideias) deixa um trauma que mãe terá que carregar para sempre. 

Márcia Tiburi fala para todos: Fica difícil discutir com quem tenta impor seus dogmas aos outrxs

Leandro Konder entra na sala.

Leandro Konder fala para todos: Galera, passei aqui apenas para falar a real. Aborto é uma questão de saúde pública. #Fuuuuuuuui

Leandro Konder sai da sala. 

Olavo de Carvalho fala para todos: É fácil ser contra o aborto quando não serão vocês que serão abortados, ora porra. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: kkkkkkkkkkkk o cara quer que a gente debata com um feto. Depois não sabe por que não passou no vestibular da USP

Olavete fala para Paulo Ghiraldelli Jr: Vai tomar no cu, otário!!!

Olavete foi banido pelo moderador. 

fEtO entra sala.

Vladimir Saflate fala para todos: ???????????????

Márcia Tiburi fala para todos: ?????????????

fEtO fala para todos: Algma gata afim d tc no reservado com cam com um novinho?????

Olavo de Carvalho fala reservadamente para fEtO : Mais tarde, como combinamos. 

fEtO fala reservadamente para Olavo de Carvalho: AFFFFFFFFF primeiro tc com as minas e depois debate com os abortistas #xatiado

Olavo de Carvalho fala reservadamente para fEtO : As minas estão em outra sala. Depois eu vou para lá também. Agora vamos debater com os abortistas. 

 fEtO fala para todos: algm qr tc comigo sobre aborto?????

Marilena Chauí  fala para fEtO  : Eu 

Vladimir Saflate fala para fEtO: Eu 

 Paulo Ghiraldelli Jr fala para fEtO: Eu 

fEtO fala para Marilena Chauí: primeiro vc gata. 

Marilena Chauí fala para fEtO: Qntos anos???

fEtO fala para Marilena Chauí: Seis meses gata.... e vc?

Márcia Tiburi fala para fEtO: E você se lembra alguma coisa de antes de ter dois meses. 

fEtO fala para Márcia Tiburi: Vixi, p falar a vdd naum lembro nada naum. 

Márcia Tiburi fala para todos: RÁÁÁ como eu desconfiava: até os dois meses ele era apenas um amontoado de células e, então, não se tratava de uma pessoa. 

fEtO fala para todos: :(

Luiz Felipe Pondé fala para todos: Bom, creio que isso coloca fim ao debate.

Marilena Chauí fala para todos: Isso é evidente. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Não restam dúvidas. 

Mario Sérgio Cortella fala para todos: Se é assim, boa noite para quem fica.

Amontoado de Células entra na sala.

Olavo de Carvalho fala para todos: PUTA QUE PARIU!!!!!!!














sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Cássia II

Eu sou o buraco na sua cabeça e sou a dor no seu pescoço. Eu sou o nó na sua garganta e sou o aperto no seu coração. Eu sou o arrepio na sua espinha e sou o cisco no seu olho. Eu estou no lamber de seus lábios e estou na ponta de sua língua. Eu sou o pesadelos de seus sonhos, sou aquela sensação de queda. Eu sou a doença e sou a agulha e seus remédios. Eu sou a bebida e sou sua ressaca pela manhã. Eu sou a sua sorte e sou o seu azar. Eu sou o seu amor e sou o seu ódio. Eu sou Cássia. 

Eu sou ao motivo de você faltar ao trabalho e passar a tarde num quarto sujo de motel com as paredes transpirando. Eu sou a pessoa com quem você rola na cama e que mata uma fome que parece ser de dias. Eu sou o cheiro que nessas horas vira o seu cheiro e eu sou o gesto que nessas horas vira o seu gesto. Tudo isso em meio a gritos, promessas e juras de amor enquanto suamos e transpiramos embaçando o vidro da janela. Eu sou a pessoa com quem você cai na cama, encharcado de suor. É por mim que você vai abandonar sua mulher e seus filhos. Eu sou Cássia.  

Eu sou a pessoa pra quem você vai buscar uma garrafinha de água depois. Eu sou a sede que vira a sua sede. Eu sou quem, na volta, você encontra na cama ofegante. Eu sou quem dá três ou quatro goles de água sem se preocupar se ela escorre ou não pela pele, se ela cai ou não nos lençóis ainda quentes. Eu sou com quem você vai recomeçar mesmo sem nunca ter chegado ao fim. Eu sou a boca que você ainda sente gelada da água no beijo. Eu sou quem vai evaporar até desaparecer com o vento gritando dentro da sua cabeça "para sempre". Eu sou quem você nunca vai ter para sempre. Eu sou livre. Eu sou assim: Cássia