segunda-feira, 27 de julho de 2015

O dia em que a orientação do profe Tim foi longe demais

XV Semana acadêmica do PPG em Filosofia. Greg apresentava seu trabalho sobre a desconstrução no Direito para em um miniauditório lotado de colegas, entre eles seu orientador, o profe Tim. O doutorando explicava calmamente suas profundidades no microfone da mesinha principal e todos davam ótimas risadas com suas anedotas contadas durante a apresentação, que poderia muito bem ser filosoficamente insignificante, porém era também bastante agradável de se ouvir.


-- Derrida, nooooossa, aquela lá lacrava demais hahaha. 

Todo mundo ria muito e se divertia. Greg não podia esperar para finalmente acabar o tempo da apresentação e começar o tempo das perguntas, só para ouvir os elogios rasgados camuflados de perguntas do seu orientador. 

Quando o mediador encerrou o tempo de apresentação e abriu para as perguntas foi dito e feito: lá estava o profe Tim com a mãozinha levantada pronto para fazer a primeira pergunta. 

-- Professor Tim irá fazer a primeira pergunta -- disse o mediador, passando o microfone de perguntas para o profe Tim. 

Greg se ajeitou na cadeira, deu um gole em seu copinho de água e pensou satisfeito: "me dei bem, elogia mais que ta pouco, profe". 

-- He he he, tudo bem, meu amigo Greg? Vejo que você está aqui hoje fazendo essa apresentação, na frente de todo o departamento...  - Tim percorreu todo o auditório com os olhos - Minha pergunta é bem simples, meu aluno: hoje depois das apresentações tu vai me levar pra jantar? 

-- Como assim, professor? Não entendi. 

-- Eu espero que tu me leve pra jantar pelo menos né, porque com uma apresentação dessas tu só pode ta querendo me foder. 

Os organizadores do evento lançam olhares desesperados um para o outro e Greg tenta se defender, sem jeito:

-- Pois é, professor, é que eu não sabia que o senhor estaria assistindo, senão teria preparado algo melhor...

O doutorando nem conseguiu terminar a sua resposta e o profe Tim já estava de pé na sua frente e, com um sorriso, apertava seu mamilo com um pouco de força e retrucando:

-- Me fala uma coisa aqui, seu merdinha. Só me explica uma coisa aqui, seu saco de bosta, seu liquidificador de porra. Me diz por que esse monte de estrume que tu chama de texto de filosofia não tem referência a Levinas e não tem nenhuma citação minha comentando Levinas? 

O espanto já tomava conta do auditório. Greg congelou. Seu texto de fato não tratava de Levinas e não citava o profe Tim uma única vez. Ouviu o auditório todo silenciar-se. Todos sabiam o que viria a seguir. Todos eram cúmplices das insanidades do profe Tim. 

-- Sabe o que, professor... É que nesse texto queria focar em Derrida sem misturar com Levinas... E eu não citei o senhor porque... porque... -- Nessa altura o mamilo de Greg já estava escuro como uma azeitona preta. 

Profe Tim largou o mamilo do seu orientando e começou a andar em círculos diante da platéia do auditório:  

-- Não tem Levinas então? Tu me faz sair da minha casa sete da manhã nesse frio pra chegar aqui e não escutar um ai sobre Levinas? É isso mesmo, seu estojo de pica? Tu quer que eu baixe a calça pra me fuder mais fácil? -- disse o profe fazendo de conta que iria tirar a cinta e baixar as calças. 

--Sabe o que é, professor, deixa te explicar...

-- Sabe qual é o problema, Greg? - interrompeu o professor com um grito -- O problema é que tu ta me fodendo ai e ainda nem me beijou na boca. 

O profe Tim pegou o copo de água do palestrante, afastou-se da mesa, deu um gole e atirou-o contra a parede, fazendo surgir uma chuva de cacos de vidro. Na platéia todos se abraçavam com medo. As orientações do professor Tim estava indo longe demais. 

-- Professor, hã.....

-- Cala a boca, seu arrombado. Me dá aqui esse texto, me dá aqui essa bosta de texto, Greg. Nenhuma linha sobre Levinas. NENHUMA LINHA SOBRE LEVINAS, CARALHO. Tu já botou o pau pra fora? Porque tu deve ta querendo comer meu cu né, só pode ta querendo me foder. Passa uma vaselina antes pelo menos né, irmão, Não mete no meu cu a seco assim que dói. PUTA QUE PARIU NENHUMA CITAÇÃO MINHA? NENHUMA?  

Com um chute fortíssimo o garoto-propaganda de Levinas no Brasil arremessou o texto do seu orientando para o outro lado do auditório. O professor Tim ainda começou a derrubar todos os equipamentos que estavam sobre a mesa, o que deixou todo mundo ainda mais assustado. 

--NÃO TEM ROSENZWEIG TAMBÉM NÉ, SEU CUSÃO? CLARO QUE NÃO TEM ROSENZWEIG! CLARO QUE UM FILHO DE UMA CADELA GORDA FEITO TU NÃO IA CITAR ROZENZWEIG. 

Enfurecido, o profe Tim partiu uma das cadeiras do auditório ao meio com uma joelhada. Soando muito, o levinaseano continuou:

-- "Olha só o profe Tim lá lá lá, ele só sabe elogiar, vou fazer qualquer merda aqui que ele aceita lá lá lá lá" foi isso que tu pensou né, seu bafo de pica? Me diz uma coisa, por que tu não larga a Filosofia e vai chupar um canavial cheio de rola? Custava me citar, Greg, custava? O que foi que eu te disse na nossa última orientação?

-- Pois, professor, eu pensei em citar o senhor...

-- Mas não citou né, seu bosta. Minha vontade é sair daqui agora e passar meu pau na maçaneta da porta do teu corra, seu filha da puta. 

-- No final acabei não citando...

-- PUTA QUE ME PARIU, GRAG. TU FEZ MERDA. TU CAGOU NO PAU, TU CAGOU BONITO NO PAU, TU ARRIOU AS CALCAS, SENTOU NO PAU E CAGOU BONITAÇO NELE. TU É UM MERDA. TU É UM CAGA PAU. O QUE EU FAÇO COM UM ORIENTANDO DESSES? ME DIZ, SEU FILHO DE UMA QUENGA. EU VOU CAGAR NA TUA GAVETA DE MEIAS, SEU MERDINHA. OLHA O QUE FAÇO COM UM BOSTA FEITO VOCÊ...

Profe Tim se projetava para cima de seu orientando para resolver tudo na porrada, porém foi interrompido pelo coordenador Agemir, que se colocou, como bom cristão, entre os dois; 

-- Escuta aqui, professor Tim. A gente é só colega, eu quase nem te conheço. Não batizei teu filho, nunca fui na tua casa, mas quero teu bem. Então me escuta: esse evento tu não vai estragar com tua vaidade fora do normal. Vai pra casa, Tim. Vai que é melhor. 

Observando seu colega nos olhos, Professor Tim deu algumas bufadas, caminhou de um lado para outro, e deu um soco certeiro na cara do coordenador Agemir, deixando-o desacordado na hora. Então Tim saiu do auditório mandando todo mundo se foder. Na platéia, professor Nytha abraçava professor Lipe, que já se derramava em lágrimas:

-- Calma, professor, ele foi embora. Acabou. O pesadelo acabou. 

Nisso entrou mais uma vez pela porta o profe Tim, dessa vez três vezes mais furioso e armado com um taco de beisebol. Ele apontou sua arma branca para Greg e disse:

-- Olha bem pra mim, Greg. Ta olhando, porra? Acho bom. Agora me diz com sinceridade: Que autorzinho o senhor vai citar no próximo trabalho? 

-- Hã...

-- RESPONDE, PORRA, TO MANDANDO!

-- Levinas....

-- LEVINAS E QUEM MAIS? QUEM?

-- Levinas e o senhor... 

Professor Tim juntou o texto do doutorando, balançou o papel  e disse:

-- E com esse texto aqui tu sabe o que vai fazer com ele? Tu vai enfiar ele no cu. Eu vou te botar de quatro e enfiar ele no teu rabo, página por página.

-- Professor, por favor, não precisa disso. Eu juro que vou cavar um buraco bem fundo lá na graminha e enterrar ele bem fundo. Ninguém nunca vai ler essa merda de novo. 

-- Isso mesmo, Greg -- disse Tim voltando a ficar calmo -- tu vai pegar uma pá e enterrar essa merda, mas não vai ser aqui, vai ser bem longe, que é pra garantir que nunca mais vou ver essa merda na minha vida.

-- Eu prometo, professor...

Abaixando o taco de beisebol, o professor caminhou lentamente até a saída do auditório. Diante da porta de saída, ficou em silêncio por alguns segundos para se acalmar. Após respirar fundo, virou-se novamente para a platéia e disse: 

-- O próximo orientadando que pegar hoje sem me citar, eu mato. Juro que mato.






quinta-feira, 28 de maio de 2015

quando não sei

quando não sei 
se é amor ou se é pena 
sei que é amor

imagino você aos sete anos no quintal:
da dó 
pensar no copo de coca ou suco 
que nunca dividimos 

suas fotos no face no último ano:
quantidade considerável de pena
seus sonhos de sucesso e popularidade: 
mais dó 

seus hábitos e gostos já surrados pelo tempo:
mais pena 
e um pouquinho de nojo 
seus romances anteriores: dó 

foto de festa na casa da amiga
quando você ainda estava no colégio: 
um resultado é um pouco de pena
de você com seu jeito esquisito 
sem saber se enturmar
e de mim que não me chamei rogério ou renata 
pra naquele dia te conhecer

quando não sei 
se é amor ou se é pena
sei que é amor

quinta-feira, 14 de maio de 2015

depois 
quando já não existir depois 
não existe 
só existe o agora que continua
insistente
se eu fosse um menino ou uma menina de olhos grandes 
o agora telefonaria para mim ou 
pelo menos mandaria um
whats
pra que assim a gente se gostasse no primeiro
instante 
e viveríamos dias inteiros estragados 
por detalhes e aparelhos com 
defeitos 
e despencando dos cabides
como um gênero errado de filme ou um amigo
inconveniente 

sábado, 9 de maio de 2015

O cara que andava errado

Trilha sonora do post, tasca o dedo aí no play, irmãozinho: 



"Eu andei errado", era o pensamento que tomou a cabeça de Carlos. E ele nem estava sendo metafórico, ou pessimista, ou coisa do tipo, embora volta e meia questionasse seu estilo de vida e suas escolhas. Carlos literalmente andava errada. Clinicamente diagnosticado. "Eu andei errado a minha vida toda". 

-- Você está andando errado -- foram estas as palavras do médico. 

Carlos bem que desconfiava que havia alguma coisa errada com ele, afora o vazio e o desconforto existencial com a própria figura e uma tristeza generalizada. E justamente naquela manhã em que estava determinado a mudar (o cabelo, a roupa ou pelo menos a música que escutava no ônibus ao caminho do trabalho), ele notou um estranho buraco no calcanhar do pé esquerdo do seu sapato. E não era apenas neste sapato. Uma rápida investigação em seu guarda-roupa mostrou que todos os pares esquerdo dos tênis e sapatos de Carlos tinham a mesma marca. Aparentemente, Carlos andava errado. Resolveu no mesmo dia procurar um médico. 

"Eu andei errado", era ao mesmo tempo a resposta para o mistério e o início de novas inquietações. Até então andar sempre pareceu uma coisa que Carlos fazia sem maiores problemas. Na verdade, de todas as coisas da vida, andar era uma das poucas que ele tinha alguma segurança em não decepcionar. Porém, agora, veja você, ele descobriu que anda errado. Fracassara numa das tarefas mais básicas para todo ser humano. Nesse exato momento em que você lê esse texto, provavelmente alguma mãe orgulhosa em algum lugar do mundo está contente porque seu bebê de onze meses aprendeu a andar. 

No entanto, a Seinsvertändnis trabalha de formas misteriosas. Durante o assombro ali mesmo diante do médico, não demorou muito para que Carlos começasse a ver as coisas por um novo viés e passasse a ter uma visão otimista do seu fracasso fundamental -- e ele sabia muito bem colocar seus próprios erros na conta dos outros. Tomou conta de seu espírito a ideia de que foi justamente isso o que ele buscou a vida toda. 

"Ora, se eu fracasso numa tarefa tão simples quanto andar, então ninguém deve esperar nada de mim e qualquer pequena conquista já uma grande realização". É com esse pensamento que Carlos pretendia relativizar todos os seus fracassos. Demorou nove anos para se formar em administração numa particular? "Cara, eu nem sei andar direito, ter entrado numa faculdade já foi uma grande coisa". Nunca conseguiu ter um relacionamento duradouro com uma mulher? "Bicho, nóis não consegue nem ir até a esquina sem cagar tudo". Reprova em todas as provas ou concursos que presta? "Nem andar direito eu sei". Está cada dia mais sozinho e infeliz? "Nada mal para um cara que nem andar direito sabe". 

Foi assim que a vaidade a necessidade de viver para impressionar aos outros deu lugar a um niilismo e uma liberdade que ele nunca havia experimentado antes: a tranquilidade e a paz de se saber que não havia mais nada para se perder. 

E Carlos saiu do consultório médico. Andando errado. E sorrindo. 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

As fantásticas aventuras do maratonista Clodoaldo

Quem é de Palmeirinha provavelmente conhece ou já ouviu alguma história envolvendo o maratonista Clodoaldo. Matemático e corredor, tem o dom da palavra, é um notável contador de causos -- que muitos invejosos chamam maldosamente de inverdades. Clodoaldo exagera, carrega nas interpretações, aumenta aqui ou ali, mas, creio eu, sempre baseia suas narrativas em alguma situação cotidiana que de fato aconteceu. 

Sentado confortavelmente no Bar do Maninho, uma instituição boêmia sagrada da região, Clodoaldo repentinamente começa a descrever situações fantásticas. Ali ele se popularizou por uma proeza sobre-humana: da porta do boteco, jura que consegue enxergar sua mulher assistindo televisão na sala da sua casa, que fica num bairro bem mais distante, mais de 1 quilometro de distância da entrada do bar. É assim que Clodoaldo sempre saberia a hora exata de sair do bar e voltar para casa sem preocupar sua amada esposa. 

A história é realmente essa: o sujeito jura que, ao fixar bem o olhar, sua visão atravessa paredes, muros, casas, barrancos e entra em sua casa pela porta da frente e dá uma manjada na patroa que, despreocupada, assiste a novela. "Dá tempo de tomar a saideira", dizia, sempre sorrindo.  

Isso é apenas uma das histórias fantásticas sobre Clodoaldo que circulam pela Palmeirinha. O cara é um baú de causos, como da vez que enganou a mulher e tirou o cheiro de perfume barato de cabarezinho com bergamota, do seu método de beber água de cano estourado para não desperdiçar, do seu filho que com problemas graves de visão usava um tapa olho para "forçar o olho bom" e, talvez a mais clássica, de quando foi pagar uma promessa para Nossa Senhora e voltou com um tatu pronto para ser cozinhado. 

Durantes anos, centenas e centenas de pessoas já contribuíram para as histórias dessa figura. São causos que já fazem parte do folclore de Palmeirinha. As histórias vão passando de pai para filho, muitas vezes sendo alteradas. Outras originalmente não envolviam Clodoaldo, mas a ele foram atribuídas. Tarde demais. 

Hoje gostaria de lembrar de um causo da época em que Clodoaldo era maratonista do exército brasileiro, lá pela década de 70, e viajou com outros atletas-soldados para uma corrida em São Paulo. Era a primeira vez que nosso corredor disputava uma corrida na Terra da Garoa, onde depois iria fixar residência.

Utilizando sua liderança e sua capacidade de argumentação, Clodoaldo convenceu os chefes de sua equipe que o melhor era hospedar todo o time em um hotel 5 estrelas no coração da cidade. Agora passo a palavra para o próprio maratonista: 

"Meu amigo, cheguei lá e o hotel tinha mais de 30 andares. Rapaz, nem sabia o que fazer com tanto andar. Então chegamos no quarto do hotel e, meu amigo, era gigante. Aquilo era coisa boa. E tava ainda cheio de bebida naquela geladeirinha. Cheguei com sede né, e já me atraquei na bebida. Foi pá puf e deu. Depois que acabou eu mandei vir mais e depois mais ainda. Pessoal de São Paulo sabe tratar bem as visitas, eu pensava. 

Lá pelas tantas já tava meio baleado e fui dormir. Aquela cama maravilhosa me esperando, No que eu pisei no tapete, Deus do céu, que coisa mais macia, o pé afundava naquela coisa fofinha. Aquilo era coisa boa. Já tava mais pra lá do que pra cá e como o cansaço da viagem era grande, acabei não tendo forças para chegar até a cama e dormi no tapete mesmo, que era tão fundo e macio. 

No outro dia, depois da corrida, fiquei sabendo que a bebida não era de graça e que muitas dela eram importadas. Tudo seria cobrado da minha equipe. A conta ficou caríssima pra gente e a solução foi vender todo o armamento de nosso pelotão para dar conta das despesas. Essa tatuagem do Super Homem que eu tenho aqui no peito fiz depois disso, Era pra lembrar que como a gente não tinha mais arma, caso desse guerra eu ia ter que enfrentar as balas no peito mesmo, tipo o Super Homem, manja? 

Dai pra acabar, depois que pagamos, perguntei para a moça como que fazia para chegar até o rodoviária e ela me disse que era fácil, só pegar o ônibus 4767. Meu amigo, tu acredita que já eram seis da tarde do outro dia e eu tava no ponto de ônibus ainda, e só tinha contado 4007 ônibus que tinham passado por ali? Desiste de esperar pelo 4767 e chamei um táxi mesmo" 

Pode ser que o maratonista Clodoaldo não seja o herói que a Palmeirinha merece, mas com certeza ele é o que ela precisa. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Agente da paranoia V

Olá, tudo bem? Meu nome é Alana e eu estou morta. Até aí tudo bem. A ruim de estar morta é que ninguém conversa com você e quando você tenta falar com alguém, nem olham na sua cara porque, tipo, você é um fantasma. É por isso que eu inventei um método para poder conversar com as pessoas. Um método que, modéstia à parte, o que tem de simples tem de engenhoso. Vamos chamá-lo de O método de como conversar com pessoas da Fantasma Alana. Trata-se do seguinte: sempre que eu me sinto sozinha e preciso conversar com alguém. procuro até encontrar alguém que esteja catatônico, daquele jeito meio apelermado que algumas pessoas ficam às vezes, quase um piripaque do Chaves, olhando para o nada com os olhos arregalados e a cabeça vazia. Tento me posicionar na frente da pessoa que tá tendo um ruim e fico ali paradinha, olhando para ela e falando sobre qualquer coisa. Contanto que a pessoa continue travada e eu continue ali falando, do meu ponto de vista é como se fossemos best friends e ela estivesse prestando maior atenção no que falo. E se a pessoa não mudar a expressão, não desviar o olhar e nem sequer piscar é como se ela não quisesse me interromper. É como se eu estivesse viva novamente. Na verdade, ganho até mais atenção do que quando estava viva. É o maior nível de atenção que já consegui ter em uma conversa.

Dois eventos sociais são os mais fácies de encontrar pessoas perdidonas assim: reuniões de condomínio e aulas de filosofia. Nas reuniões de condomínios é melhor porque as pessoas tentam disfarçar a catatonia olhando para o chão e então eu preciso apenas sentar no chão, em posição de índio, e conversar com a pessoa sobre meus medos ou meus sonhos. Já nas aulas de filosofia é diferente. Os alunos são mais discretos, geralmente eles paralisam olhando para cima e aí para conversar com eles olhando nos olhos eu preciso flutuar. Só que assim não gosto muito, me sinto muito fantasmona e não consigo focar na conversa. Também tem o professor né. Por um lado ele pode parecer a escolha mais óbvia: é só a aula terminar que ele tem um treco e fica com os olhos fixos numa direção só. Eu não gosto. Olha, não me levem a mal, moços, mas não quero ficar falando das minhas coisas pessoas para uma pessoa -- e digo isso com todo o respeito, falo assim jurando levantado o dedinho -- uma pessoa que tá menos viva do que eu. Dá uma coisa ruim. E se eu quero que meu teatrinho dê certo, preciso de alguém bastante vivo na minha frente, porque são assim que as fantasias funcionam, não é?

Eu reconheço que no momento que me posiciono diante da pessoa, tudo aquilo parece, sim, um pouco artificial. Mas assim que começo a falar, me sinto imersa numa conversa real: sorria se digo coisas alegres, fico um pouco irritada quando lembro das desgraças da vida, dou uma piscadinha se conto um segredo e fico mexendo no cabelo quando estou interessada na pessoa. Ruim é quando a pessoa sai da catatonia dela antes de eu terminar minha história. Grito, abano os braços, fico pulando e implorando que me deixe pelo menos terminar o pensamento, a história já está no final, por favor, gostei tanto de você, não me deixe aqui sozinha... Mais um que vai embora. Paciência. Assim com a mesma facilidade com que a pessoa desperta da catatonia, eu desperto da minha ilusão de conversa com os vivos. No final, acabo sempre ficando zomza e sem rumo certo, como um gato recém descido de uma cadeira gira-gira (sério, não tentem isso com os gatos de vocês). 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Agente da paranoia IV

"Pensamentos como esse fazem um homem meter uma bala na cabeça" -- a frase passou como uma lâmina pela mente de Jorge muitas vezes até que ele se desse conta da hora. Sozinho no apartamento, no meio da madrugada, depois de misturar alguns comprimidos com bebida, ele notou o quanto se tem a perder quando se trata do incompreensível. Na rua fazia um frio que não chegava a incomodar dentro do apartamento aquecido. O vento soprava na rua só de vez em quando. Sendo assim, nada no mundo teria força suficiente para fazer Jorge levantar e parar com as divagações. 

Seguiu com seus pensamento e acendeu mais um cigarro, o primeiro do segundo maço -- e ainda havia mais um. Normalmente ele pararia com o final do primeiro maço, mas nos últimos dias sentiu que o mínimo não lhe bastaria mais. Cadeira encostada na parede. Pés para o alto. Cabeça voltada para o teto. O pensamento voava longe. Voltou a si quando ouviu o interfone tocar. Era apenas a comida que havia pedido para entrega, 

O sabor da comida não era tão bom quanto sua aparência. De volta, novamente sozinho, rapidamente sua alma se transporta para um lugar distante dali. Parecia ser no outro lado da cidade. Numa casa que ele nunca viu. Um quarto que nunca conheceu. Que lugar era aquele? Como ele poderia estar ali agora? Uma cama que ele nunca deitou, sobre a qual havia alguém que já tinha sido emprestada a ele, mesmo que por alguns segundos, mas nunca havia lhe pertencido. Era Alana. A morta Alana. Nada daquilo era tangível, ele apenas imaginava. Enquanto isso o corpo nu da mulher, que antes era o que mais havia de concreto, parecia agora apenas mais um devaneio. Uma ilusão. Talvez fosse um sonho, talvez estivesse dormindo. 

Passou um mês desde que ele havia conhecido Alana, ou melhor: o fantasma de Alana. Meu Deus, obcecado por uma assombração, isso não pode fazer sentido -- dizia para si mesmo. Ele ainda não sabia nada sobre ela. Só que ela tinha fixação por um rosto masculino e que o desenhava várias vezes com caneta vermelha em folhas de papel. Foi quando pensou que a realidade não tão transparente assim como dizem. Poderia ser fácil para ele ir buscar o que queria de verdade. Era só terminar com os comprimidos. Mas não. Estava ali agora, sentado na cadeira e encarando um pedaço do teto. Corpo e alma separados. Apaixonado por uma assombração, por Deus, estou louco -- pensava. 

Um mês atrás, no meio da rua em um domingo movimentado, essa assombração foi algo real e puro. E durante alguns dias ele jurou poder vê-la às vezes na rua, no meio da multidão, dentro do ônibus que passava. E então ela sumiu. Sumiu de vez. Sumiu para sempre. Para ele o tempo perdeu o sentido e tornou-se relativo. Ficava aflito o dia todo, e assim poderia ficar semanas ou até um ano, se não soubesse algo sobre a moça morta. 

Hoje, ao final de 30 dias, está irreconhecível, com o coração pesado e indiferente a tudo ao seu redor. Era como se sua mente tivesse desistido do seu corpo. Até que recebeu uma ligação. Não era ela, e nem poderia ser: os mortos não telefonam. Era, no entanto, o detetive que havia contratado para saber mais da moça. De súbito, enquanto ouvia o relato do detetive pelo telefone, pôde ver novamente aquele casa, aquele quarto, aquela cama, aquela mulher. Uma imagem que ainda provocaria muitas noites intermináveis de fumo e comprimidos. 

A voz que saia do outro lado da linha passou a ecoar na mente dele. Ela contou tudo o que acontecera com a moça nos seus últimos dias de sua vida e o pensamento de Jorge ia sendo construído como um prédio que era levantado concreto a concreto. Alana fugiu, tempos antes do domingo que foi atropelada e que como assombração encontrou com Jorge. Fugiu depois de descobrir que estava com pneumonia. Os médicos estavam relativamente confiantes: a tendência era que a doença regredisse com o tratamento adequado. No entanto, uma infecção hospitalar tornou o caso de Alana irrecuperável. Prevendo o pior, a moça fugiu. Até que, naquele domingo, jogou-se em frente a um carro que passava veloz pela rua. 

-- Que triste final para uma pessoa. Isso é tudo? 

-- Não, a moça era casada.