domingo, 27 de abril de 2014

É como se eu tivesse perdido a confiança em praticamente todas as coisas. É como se eu tivesse perdido a capacidade de controlar o meu próprio destino. É como se uma entidade tomasse posse de mim. Ela me faz sorrir, me estimula a agir, me faz dizer coisas e ter esperanças, e depois me atira contra a parede. Eu me sinto com um personagem de uma narrativa de Onetti cujo desfecho eu não posso alterar. Você fez com que eu me arrependesse de em algum momento ter acreditado no livre-arbítrio. 

Eu acho que em algum lugar na psicanálise, está dito que certos tipos neuróticos quando tentam gostar de uma mulher, inconscientemente fazem de tudo para afastá-la. Então é sempre uma escolha que é escolhida porque necessariamente vai fracassar. Eu acho que essa maldição psicanalista caiu sobre mim. 

O problema das maldições é que ser consciente delas não ajuda em nada na hora de evitá-las. Édipo foi avisado pelo Oráculo de que mataria o seu pai e casaria com sua mãe. No entanto, esses avisos não serviram de propósito algum. Édipo sai de casa para evitar a maldição prevista pelo Oráculo. Mas acaba, mesmo assim, casando com sua mãe e matando o seu pai. Ele já sabia dos resultados, conhecia os perigos, mas nada deveria mudar: a maldição é sempre mais forte que a consciência 

Minha maldição psicanalista me impede de preferir relacionamentos que podem ser felizes. Eu só sou capaz de querer quem deve necessariamente se afastar de mim. Vagando assim pela terra até o dia da minha morte. Só que saber disso não mudar nada para mim, e isso porque: a maldição é sempre mais forte que a consciência. 

sábado, 12 de abril de 2014

Josso Aires entrevista um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira

Programa do Josso Aires. No palco, Josso Aires entrevista o escritor Chico de Jesus. Banda do programa toca o tema de abertura. Josso Aires interrompe a banda e começa a entrevista. 

Josso Aires: Uooooou. Hoje no Programa do Josso Aires vamos conversar com Chico de Jesus, um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Isso é correto, Chico?

Chico de Jesus: É verdade, Josso. Eu sou absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Realmente é notável que uma pessoa tão jovem quanto eu já seja tão insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. 

Josso Aires: Por exemplo, em qual área da literatura brasileira você é absolutamente insignificante? 

Chico de Jesus: Poesia. O meu trabalho na poesia é absolutamente insignificante para a poesia brasileira. 

Josso Aires: Ora, então você é poeta, Chico? 

Chico de Jesus: Claro que sou, Josso. Tenho um bigode e cabelo bagunçado. 

Josso Aires: Mas para ser poeta basta ter um bigode e cabelo bagunçado? 

Chico de Jesus: Não, claro que não. Essa é uma visão bastante reducionista do que é ser poeta. Além do bigode e do cabelo bagunçado é preciso descuidar sistematicamente da higiene pessoal. E essa é outra característica que eu tenho. 

Josso Aires (fazendo cara de nojo): Eu já tinha reparado. Então tenho que te perguntar: que diabos de cheiro é esse, Chico?  Como é que se consegue esse fedor tão singular? 

Chico de Jesus: Ora, Josso, imagine que você jogou uma hora de bola sem parar. Há suores que escorrem pelo peito e ficam alojados na zona pélvica, e assim convivem um pouco com o fedor do saco (é fundamental trocar poucas vezes de cueca). Por outro lado há suores que escorrem pelas costas, alimenta-se com o fedor do cu e se juntam com o outro suor, formando um cheiro só. Então o meu fedor é justamente uma junção desses dois suores. 

Josso Aires: Portanto, recapitulando: há dois suores, há saco e há o cu. 

Chico de Jesus: Perfeitamente. 

Josso Aires: Mas permita-me dizer, Chico, que eu noto aí também um pouquinho de chulé. 

Chico de Jesus: Esse é o meu diferencial. Todos os poetas têm um diferencial e esse é o meu. É impressionante que eu tão novo já feda dessa maneira. 

Josso Aires: É impressionante mesmo. Mas, Chico, como foi a recepção de seu primeiro livro de poemas? 

Chico de Jesus: Alguém já escreveu, Josso, que se trata do melhor livro de poemas brasileiro de todos os tempos. 

Josso Aires:  É mesmo? E quem escreveu isso? 

Chico de Jesus: Fui eu mesmo, ontem. Ontem eu postei isso no meu facebook e ainda terminei com um emoticon sorrindo, para ficar mais simpático. 

Josso Aires: Chico, você se importa de declamar um dos seus poemas para a gente aqui no palco? 

Chico de Jesus: De forma alguma, seu Josso. 

Chico de Jesus vai até o centro do palco, A iluminação diminui e toca uma música calma de fundo. 

Chico de Jesus: Esse poema eu escrevi em razão da trágica morte de minha mãe em um acidente de trânsito. Ele se chama "Minha mãe". E é assim: 
Oh, 
Minha mãe. 

Chico de Jesus volta a sentar no banco de entrevistados. Josso Aires faz cara de quem não entendeu. Alguém tenta puxar uma salva de palmas da platéia, mas que ninguém acompanha. 

Josso Aires: Este é seu poema? Ele consiste em duas palavras? 

Chico de Jesus: Bem, Josso, se a gente contar a declamação "oh" no começo são três palavras. É impressionante que uma pessoa tão nova possa escolher tão bem as palavras. 

Josso Aires: Você poderia declamar outros de seus poemas?

Chico de Jesus: Mas é claro! Tem um que eu particularmente gosto muito e se chama "Meu tio". 

Chico de Jesus vai novamente para o centro do palco. A luz baixa e começa a música de fundo. 

Chico de Jesus: 
Oh, 
Meu tio. 

Josso Aires: Tenta mais um, eu quero ver até onde isso vai. 

Chico de Jesus: Certo, Josso. Agora vou declamar meu poema que se chama "Meu primo que eu nunca vejo mas que mesmo assim aparece sem ser convidado no Natal e bebe e come de graça a noite toda". 

Oh
Meu primo
que eu nunca vejo mas que mesmo assim aparece no Natal sem ser convidado e bebe e come de graça a noite toda.

Chico de Jesus volta para seu lugar. 

Josso Aires: Realmente é muito tocante o seu dom com as palavras. Mas vamos falar de outra área da literatura brasileira em que você é absolutamente insignificante. Você também é jornalista, certo? 

Chico de Jesus: Não só sou jornalista como sou o jornalista mais premiado entre aqueles que nasceram em setembro de 85. 

Josso Aires: Como? 

Chico de Jesus: Eu sou o jornalista mais premiado entre aqueles que nasceram em setembro de 85. Tenho dois prêmios para as reportagens que fazia para o jornalzinho da escola e um segundo lugar em uma competição de comer tortas. Ainda tenho uma menção honrosa em um campeonato de construir castelinhos na areia da praia. É realmente impressionante que alguém tão jovem quanto eu já tenha sido tão premiado.

Josso Aires: Como jornalista, qual a sua opinião sobre o seu trabalho como poeta? 

Chico de Jesus: Eu, como o jornalista mais premiado nascido em setembro de 85, acho o meu trabalho como poeta uma bosta. 

Josso Aires: Certo, Chico. Mas além de poesia e jornalismo, qual outra área da literatura brasileira você é absolutamente insignificante? 

Chico de Jesus: Bem, Josso, eu creio que posso afirmar com certa segurança que eu também sou absolutamente insignificante para o romance. Quando eu escrever meu terceiro romance, minha consagração... 

Josso Aires (interrompendo): Sem querer interromper mas já interrompendo: não sabia que você já escreveu dois romances. 

Chico de Jesus: Não, não. Nunca escrevi nenhum. No entanto isso não me impede de afirmar que o terceiro será a minha consagração. Esse enunciado possui condição de verdade. Meu primeiro romance fará um relativo sucesso entre o público, mas será massacrado pela crítica (que vai me julgar superficial demais). Já o segundo será adorado pela crítica mas ignorado pelo público (que irá me achar pretensioso demais). Já o terceiro irá agradar tanto a crítica quanto o público e assim irá me consagrar. Mas você pode ter certeza que apesar disso tudo serão livros absolutamente insignificantes para a literatura brasileira. 

Josso Aires: E no que mais você é absolutamente insignificante para a literatura brasileira? 


Chico de Jesus: Sem nenhuma dúvida eu sou absolutamente insignificante também para a escrita humorística brasileira. 

Josso Aires: Fale mais sobre isso. 

Chico de Jesus: Olha, Josso, eu criei um estilo completamente novo para a escrita humorística que é a escrita humorística que não é engraçada de forma alguma. Antigamente a gente lia um conto de humor e ria. Mas nos meus contos isso não acontece. Eu mesmo já estive em velórios bem mais engraçados do que os meus contos, incluindo o da minha mãe. O que eu escrevo realmente não tem graça nenhuma, nenhuma mesmo. 

Josso Aires: Chico, o papo tá muito bom, mas eu tenho tempo apenas para mais uma questão. Destaca-se muito essa sua expressão facial. Você poderia explicar o que ela significa? 

Chico de Jesus: É uma boa pergunta, Josso. Primeiro eu gostaria de dizer que eu sou a pessoa mais jovem a ter essa expressão facial. E ela significa (câmera foca no rosto do escritor) : aqui nos olhos, um pouco de preocupação, em razão da futilidade da vida humana nas grandes cidades; aqui no canto da boca tem um toque de ironia e cinismo, em razão do meu pessimismo em relação ao futuro humano; e aqui na zona do maxilar é tudo zoeira mesmo porque eu to pouco me fodendo para o mundo e para as pessoas. Isso para que, quando eu fizer uma piada em alguma mesa de bar, quando largar um trocadilho espirituoso, como quem não quer nada, eu mostrar uma ironia, mas ponderado pela preocupação. E isso por que o escritor sabe que o mundo está cheio de problemas, no entanto ele não pode perder seu jeito espirituoso 

Josso Aires: Hum, talvez eu consiga também ter esse semblante. Vou tentar, diga como me saio. 

Câmera foca agora no rosto de Josso Aires, que começa a fazer caretas bizarras. 

Chico de Jesus: O segredo está no franzir da testa, Josso. 

Josso Aires: Não sei se estou conseguindo. Estou expressando angústia? 

Chico de Jesus: Apenas um pouco, Josso. 

Josso Aires: Sabe o que está me acontecendo? Eu realmente sinto aqui nos olhos preocupação porque o mundo está difícil, mas por outro lado eu não consigo ficar ao mesmo tempo espirituoso. 

Chico de Jesus: Pois é, precisa da ironia, só preocupação não basta. 

Josso Aires: De qualquer forma não temos mais tempo. Eu conversei hoje com Chico de Jesus, um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. 

Platéia interrompe fazendo "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah" 

Josso Aires: Eu também gostei, ele realmente é insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Depos do intervalo iremos conversar com Jan Santiago, o doutarando em filosofia brasileiro que decorou mais termos fenomenológicos desnecessários em alemão. Até mais e um beijo do gordo, uooooooooou. 

Banda volta a tocar. Sobe a vinheta. Final do bloco. 






domingo, 6 de abril de 2014

se todas as meninas do mundo
tivessem o mesmo corte de cabelo 
o teu ainda seria 
o mais bonito. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Um conto de fadas sobre uma princesa amaldiçoada que lê Oscar Wilde, uma rainha malvada, um espírito zombeteiro da floresta e um príncipe corajoso porém não muito esperto

Princesa Uno era a bela e pura princesa do reino Lebenswelt. Seu principal passatempo era passear pela floresta, conversar com os animais, fazer amigos no bosque, abraçar uma ou outra árvore e citar Oscar Wilde em momentos inesperados. Então ela abraçava um tronco, respirava fundo o ar puro do bosque e exclamava: huuuuuuumm pelos deuses, que cheirinho bom de natureza! 

O que a doce princesa Uno não sabia é que a rainha Sylvia, sua madrasta, já estava de saco cheio de sua beleza e de sua mania de citar Oscar Wilde no meio do jantar para mostrar ironia e erudição, e por isso fez um acordo com um assustador espírito da floresta para matar a jovem princesa. Assim, um belo dia, Uno estava saltitando e cantando pelo bosque com seus amigos animais quando viu que, encostado sob a sombra de um salgueiro, estava sentando um mendigo todo maltrapilho. Ouvindo os passos e a cantoria da jovem, o mendigo dá um salto, parando em pé, na frente da princesa. 

-- Olá, bela princesa, como você está? -- disse o mendigo se curvando em reverência.

-- O que quereis comigo, ó seu mendigo? Todo o reino já sabe muito bem que eu não suporto mendigos. Tenho ojeriza à plebe e só no ato de senti-lo à tão perto assim de mim já posso sentir o cheiro insuportável desse seu saco que não deve ser lavado há décadas! Pois então diga logo, mendigo, o que quereis com a vossa princesa. Quero logo me afastar desse seu semblante escroto para o resto de minha vida. 

-- Primeiramente, minha princesa, gostaria de dizer que não sou um mendigo e sim um cidadão legítimo do reino em condição de morador de rua. Depois gostaria de dizer que sinto orgulho em não ser um nobre e em pertencer à plebe, pois assim não sou um escravo do dinheiro. 

-- Ora, senhor mendigo, eu, assim como o Wilde, quando jovem pensava que dinheiro era tudo o que importava. Hoje, tenho certeza. 

O mendigo se espantou um pouco pela citação forçada de Oscar Wilde feita pela princesa, mas seguiu a conversa: 

-- Ó que os deuses me abençoaram com a oportunidade de presenciar a princesa realizando suas famosas e espirituosas citações de Oscar Wilde! Sinto que mais nada posso lhe pedir, nobre princesa, mas gostaria tanto de uma moeda de ouro para comprar uma pedra de crack. 

Depois o mendigo estendeu a mão suja de modo que a princesa pudesse depositar nela uma moeda de ouro. 

-- Ah, então é ouro que queres? Pois vá carpir um lote, recolher um lixo, vá trabalhar, velho insolente. Apenas não esqueça, pobre mendigo: deve-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência -- disse a princesa Uno antes de seguir com seu passeio pelo bosque. 

Enquanto a princesa se afastava, aos poucos o mendigo foi sendo envolvido por uma fumaça negra e revelando-se um ser horrível e cruel, cuja face exibia um sinistro sorriso de intensões malignas. "Preciso avisar a rainha que o trabalho foi feito" -- pensou a sombria criatura. 

Chegando ao castelo, a princesa Uno estava muito pálida e começou a passar muito mal, sentiu forte dores de barriga, revertérios e tremeliques por todo o corpo. Minutos depois já estava deitada na cama, toda coberta de suor, pronta para o pior e matando o rei Ziles de preocupação. 

-- Você vai sair dessa minha filha, você vai viver -- disse o rei de joelhos ao pé da cama.

-- Viver é a coisa mais rara que existe, papai, pois a maioria das pessoas apenas existe. 

-- Minha filha está doente e pode morrer, pelos deuses. Guardas, chamem o curandeiro Silas, o mais sábio médico e padeiro do reino. Só ele poderá salvar a minha Uno. 

Chegando nos aposentos da princesa, o curandeiro Silas bateu o olho na moça doente e logo exclamou: 

-- Pelos Deuses, meu amado rei! Estamos diante de uma maldição de algum espírito zombeteiro da floresta. Queridão, sua filha está sob encantamento de um poderoso espírito que viva na parte negra da floresta. 

-- Vixe, então já era. 

-- Calma, meu adorado e bom rei! Eu tenho a solução. Precisamos apenas encontrar o espírito zombeteiro. E depois precisamos colher a espiga do milho verde plantado por virgens cegas no alto da Colina da Morte, para descascar o milho e tecer uma corda com a palha. Depois devemos enforcar o espírito na palha do milho verde plantado pelas virgens cegas da alto da Colina da Morte. Assim o feitiço será desfeito. Mas temos que ser rápidos, amigo rei, pois temo que vossa filha tenha apenas mais 24 horas de vida. 

-- Uai, se é só isso, então é fácil. Mandem chamar o matador de dragões Aramis e digam que se ele encontrar o espírito da floresta, a espiga de milho e salvar minha filha, ele irá casar com ela e será o novo príncipe.

Com a velocidade de um raio, o valente Aramis chegou ao castelo e já foi logo falando para o rei: 

-- Majestade, não tenho dúvidas de que se trata de um feitiço do perigoso espírito zombeteiro Botumba. Pegarei o milho, farei a corda, enforcarei Botumba e casarei com sua doce filha. 

O problema era que Botumba era apenas um velho maluco que nunca tinha feito mal a ninguém, mas que gostava de exibir o seu pênis para as donzelas do reino em dias de festa e de morder as coxas das prostitutas dos bordéis. Isso irritava profundamente Aramis, que há um bom tempo procurava uma desculpa para dar um corretivo no velho Botumba. 

As 24 horas restantes de vida da princesa Uno já estavam esgotando quando Aramis entra no castelo segurando uma corda feita de palha de milho e com o velho Botumba como prisioneiro. Sem pestanejar, o rei enforcou o velho ali mesmo no corredor e correu ver como se filha estava recuperada. Nadica de nada. A princesa seguia suando frio em seu leito de flores, a um passo da morte.

-- Maldito Aramis, saia daqui agora e só me volte quando estiver encontrado o verdadeiro espírito da floresta, ou o enforcado será você. 

Aramis, desesperado, saiu pelas ruas do reino enforcando todos os velhos que encontrava (ele não curtia velhos) e todas as outras pessoas com cara de espírito da floresta, pois não dava tempo de perguntar para cada pessoa se ela era uma pessoa normal ou um espírito zombeteiro da floresta. Ao cair a noite, o corajoso Aramis voltou ao castelo, desiludido por ter dizimado quase que toda a população do reino e necas da princesa ter qualquer melhora. Vendo que a doce princesa estava virada num sabugo estropiado de doente, toda ferrada e quase sem chances, Aramis reparou como o rei Ziles já era um homem velho. Sem pensar duas vezes, pegou a corda mágica feita com a palha do milho verde plantado pelas virgens cegas do alto da Colina da Morte e enforcou o rei. 

Novamente a princesa não deu nenhum sinal de melhora. Tomado pelo desespero, Aramis olhou para o lado e viu que só ele e a princesa estavam no quarto. Foi então que pensou "bem, entre eu e ela, eu tenho mais cara de espírito zombeteiro da floresta", ajeitou a forca no teto e se suicidou ao lado do corpo do rei. 

Dois dias depois outro médico foi consultado e foi descoberto que a princesa Uno estava apenas com um resfriado. O curandeiro Ziles foi condenado à forca e, duas semanas depois, a princesa Uno cortou os pulsos de tanto remorso e morreu. Todos os demais foram felizes para sempre. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Esta chuva de final de carnaval, esta chuva de arrepios, aqui tão perto deste apartamento quase vazio. Escuto os pingos na lata dos carros estacionados lá fora. Não há nitidez, nada é uma certeza. Me sinto mais cansado do que um velho. Não devemos querer segurar para sempre os segundos. Que passem. Eternidade é o que vai e some. No agora, eu esqueço. Esquecer é o jeito benjaminiano de guardar. Esses dias, no caminho do mercado, eu pensei comigo que todas as pessoas da rua tinham um sorriso no canto dos lábios, tipo um deboche coletivo. Amanhece, é dia. Pessoas, nas ruas, com os olhos abertos. Lanternas que procuram na escuridão. Quem anda por essas ruas? Quem já andou por essas ruas antes dessas ruas serem essas ruas? Imagine que bonito é vender assim suas certezas à filosofia de uma mosca verdejando vermes sobre uma carniça podre. Imagine que bonito, imagine que triste. Eu tenho um amigo monstro morando comigo no apartamento quase vazio. Ela anda agitado e fazendo barulho. Acredito que alguém levou as correntes por engano. Ou era você o tempo todo que o segurava com as duas mãos. Não sei bem o que aconteceu, mas agora ele está solto aqui dentro. E eu estou fraco. Outro dia eu fiquei com raiva só por sentir o cheiro da cidade no final da tarde. Era uma mistura de fumaça, terra e chuva. Eu não sei como o monstro veio parar aqui. Eu às vezes fico tão cheio de tudo de todos e de mim. Da cordialidade das pessoas na rua, dos livros chatos e das conversas vazias. Estou de mãos dadas com meu amigo monstro. Lutar seria uma luta inglória. Vou queimar todos os meus passaportes falsos de fuga. Vou ser detido na alfandega por tentar fugir do país sem os meus olhos. E com o coração numa maleta preta. Porque hoje eu sinto nojo de cada um dos seus charmes. E escrevi esse post para você. Para você cortar os pulsos.  

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Planeta dos Olavos -- parte I

Débora acordou naquela quarta-feira surpresa por seu marido, Sérgio, não estar na cama. Não é que ela tivesse perdido o horário ou algo assim, afinal era a hora que ela sempre acordava nos dias de semana, mas justamente aquela manhã -- a manhã em que tudo começou -- foi uma das raras manhãs em que seu marido acordava primeiro, fazia o café e preparava o filho para a escola. 

-- Caiu da cama, é, Sérgio? -- perguntou com ironia sentando na mesa para o café. 

-- Haha, não foi isso. Tive um sonho estranho e acabei perdendo o sono. 

-- Hum, que tipo de sonho? 

-- Ah, nem lembro direito. Dá uma provada nesse suco de laranja que eu fiz, tá muito bom. 

-- Hoje acordei com vontade de refrigerante, Sérgio. Ainda tem aquela Pepsi na geladeira? 

Ao terminar de falar, Débora sentiu o suco de laranja de Sérgio escorrendo pelos seus cabelos, escorrendo na sua cara, lambuzando todo o seu rosto. 

--Sérgio, que merda é essa? Você virou suco de laranja em mim? 

-- Puta que pariu, Débora? Pepsi? Você sabia que a Pepsi utiliza células de fetos abortados para adocicar seus refrigerantes? Ora, porra, virou abortista agora, sua chupadora de pica da Dilma? Eu deveria pegar esse suco de laranja e enfiar no meio desse teu cu. 

Não foi a primeira vez que Débora discutia com seu marido e terminava com um suco de fruta na cara. Na verdade, foi a segunda: os dois haviam se conhecido quando Débora ainda trabalhava como garçonete em um restaurante para pagar a faculdade, e foi nesse cenário que ela teve pela primeira e única vez suco de fruta jogado na cara pelo seu marido. O novo eram todos aqueles palavrões, pois Sérgio, até então, era um cara bastante educado e cordial. "Essa cara endoidou? Bateu a cabeça na cama e ficou retardado? Só pode. E esse papo de abortista?" -- pensou Débora enquanto subia a escada para se arrumar para o trabalho. Depois de voltar, ela viu que Sérgio estava usando óculos daqueles tipo de vôzinho, o que nunca tinha acontecido até aquele dia. Decidiu cutucar o marido e perguntar se ele não achava que alguma coisa estava diferente. Sem jeito, Sérgio não soube explicar a razão dos óculos e apenas tentou convencer a esposa de que isso era normal. 

-- Ué, eu sempre reclamei de problemas na visão. Você que não presta atenção no que eu digo. 

"Acordou retardado, só pode", pensou ela, "na certa teve um sonho tarado com alguma das estagiárias e tá com vergonha de me encarar, só pode estar escondendo algo. Ah, mas eu vou descobrir, ah se vou".

No carro, o trajeto dos três (Sérgio, Débora e o filho Felipe) era sempre o mesmo: Felipe era deixado na porta do colégio, Débora ficava na agência de publicidade na qual trabalhava e Sérgio seguia para o escritório. Entretanto, naquela confusa manhã, um menino de rua fazia malabarismo com bolinhas e atrapalhava a movimentação do trânsito em que estava o carro da família. Os demais motoristas presos na rua parada já buzinavam quando Sérgio, bastante nervoso, botou a cabeça para fora da janela e começou a xingar. 

-- Puta que me pariu, só que me faltava um zé buceta desses estragar o meu dia. Esquerdista do caralho, libera logo essa rua. Tá com pena, Débora? Adota pra ti e leva pra casa, ora porra. 

O casal sempre evitou usar palavrões na frente do filho pequeno e a cena deixou Débora bastante assustada. Agora ela estava de fato preocupada com o comportamento do seu marido.  Foi quando Sérgio, sem parar de dirigir, tirou um cigarro do bolso, acendeu e começou a fumar. Débora não entendia mais nada, parecia que seu marido tinha acordado outra pessoa. 

-- Desde quanto tu fuma, Sérgio? 

-- Deu vontade e comecei, não posso? Ou vai dizer que tu acredita nessas informações aí que dizem que o cigarro faz um tremendo mal à saúde? Isso aí é papinho de comunistinha de merda que tem o monopólio dos meios de comunicação em massa e os utiliza para criar as condições políticas para se perpetuar no poder e impedir um espaço de ação da oposição de direita. 

-- Sei, Sérgio, sei bem o tipo de oposição de direita que tu é. 

-- Anda logo seu cagão de merda, libera logo essa rua, petista de bosta -- Sérgio voltou a gritar com o malabarista de rua, enquanto apertava a buzina repetidamente. 

Débora resolveu puxar o marido pelo braço, para olhar em seus olhos e pedir que ele se controlasse, pois o menino Felipe estava vendo todo o escândalo do pai. Pouca não foi a sua surpresa ao ver que Sérgio havia ficado com o cabelo todo grisalho de uma hora para a outra. 

-- Pai, por que seu cabelo ficou igual ao do vovô? 

-- Sérgio, você não está bem. Vira a esquerda agora e vamos direto para o hospital. 

-- Para, Débora, nunca me senti melhor. Na verdade até gostei da nova cor dos meus cabelos, passa mais credibilidade e combina com meus óculos. 

-- Você tá bem mesmo, Sérgio? 

-- Tô ótimo, amor, ótimo. Débora, você sabia que o Obama na verdade é um agente comunista muçulmano infiltrado para destruir a democracia dos Estado Unidos e o todo da cultura ocidental? 

-- Só dirige, Sérgio, só dirige. 

Sérgio voltou a gritar palavrões para o menino malabarista. A expressão de Felipe era de visível pavor, e Débora não podia acreditar no que via: seu marido, com quem ela era casada há quase dez anos, estava se transformando, diante dos seus olhos, em um Olavo de Carvalho. 

-- Sérgio, por favor, olhe seu rosto, você está diferente. Vamos para o hospital, estou pedindo. 

Sérgio acabou concordando. 

xxx

No hospital, Débora explicava para a recepcionista, que anotava tudo em um computadorzinho velho, a súbita mudança de comportamento e de aparência do marido. Depois o casal foi finalmente chamado para a salinha em que o médico de plantão atende seus pacientes.

-- Ai doutor, socorro... -- disse Débora logo que pôs os pés na sala. 

-- Ora porra, o senhor não é cubano, né, seu estojo de pica? Eu não apoio trabalho escravo, que ajuda a financiar a ditadura sanguinária dos irmãos Castros, mesmo nesse circo que é o Brasil -- disse Sérgio logo depois.

Ao ouvir a negativa do médico, Sérgio começou a gargalhar de uma forma histérica. Débora, morrendo de vergonha, tinha vontade de se esconder embaixo da caminha em que deitam os pacientes. O doutor, que ao ler a ficha médica do paciente tinha ficado descrente, começou a ficar preocupado com a situação de Sérgio. 

-- Ele está assim desde que acordou, doutor. Eu não sei mais o que fazer. Ela tá virando, meu deus do céu, um Olavo de Carvalho: fala palavrões, diz que tem um golpe comunista acontecendo no Brasil, fala coisas terríveis da USP, diz que ninguém pode debater com ele porque ninguém leu tudo o que ele leu. Eu tenho certeza que ele está virando um Olavo de Carvalho, certeza. 

-- Calma, moça, é cedo para afirmar qualquer coisas e eu nunca ouvi falar de gente virando Olavo de Carvalho da noite para o dia dessa forma. Não creio que haja no mundo uma doença que faça isso com as pessoas. Tem certeza que ele não faz isso por conta própria? 

-- Impossível, doutor, quem em sã consciência agiria assim, feito um completo idiota? 

Sérgio havia se deitado na cama e roncava alto. Débora não acreditou que seu marido havia caído no sono assim tão rapidamente em um hospital e deu um grito, chacoalhando-lhe pelos ombros. Sérgio saltou da cama com um pulo e começou a gritar: 

-- Puta que me pariu, já começou o golpe, começou? Maldita estratégia gransciana para tomar conta da cultura do país, bando de filhos de uma cadela!

-- Ele está pior do que eu imaginei -- comentou o médico, enquanto pegava alguma coisa em sua maleta -- Desculpe, senhora, mas terei que sedá-lo e depois darei alguns telefonemas. Provavelmente passará a noite aqui para observação. 

Sérgio foi colocado sedado em uma cama, enquanto Débora tentava descansar no sofá apertado de quartinho de hospital. Após algumas horas de silêncio, Sérgio se levantou para usar o banheiro. Débora se ajeitou no sofá e ficou esperando o marido voltar. Quando o marido saiu do banheiro estava irreconhecível: seu rosto estava completamente mudado, suas roupas estavam transformadas e sua voz havia mudado drasticamente. Sérgio tinha se transformado completamente em um Olavo de Carvalho. 

-- Meu deus do céu, Sérgio...

-- Sérgio, não. Meu nome é Olavo. Olavão, o terror dos comunas hehe. Adeus. 

Essas foram as últimas palavras de Sérgio que depois saltou pela janela do quarto, quebrando o vidro e xingando sua esposa e dizendo que ela não havia lido toda a sua obra filosófica. Atônica, Débora correu pelos corredores do hospital atrás do médico responsável, mas quando entrou na sua salinha sem bater na porta, viu que no lugar do médico estava um outro Olavo de Carvalho. Débora fecha a porta, completamente desesperada, e, ao se virar, choca-se com a enfermeira, que estava segurando uma folha de papel cheia de anotações e que jurava ter refutado a lei da gravitação universal de Newton.

"Deus do céu, é o começo do fim" -- pensou Débora antes de sair correndo do hospital que já começava a ficar cheio de Olavos de Carvalho. 






segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Fenomenologia da Nega-maluca

Enquanto coisinhas vivas dotadas de afetos e racionalidade, nós humanos somos abençoados com o desejo da criar. Das diversas criações humanas, podemos dizer que umas expressam o nosso fracasso e, outras, o nosso sucesso. O fracasso e o sucesso observáveis nas coisas que criamos no mundo dizem muito sobre nosso modo de ser mais mongolóide e sobre o que temos de melhor enquanto humanos, na medida em que escancaram tanto as nossas mocoronguices quanto o que temos de mais bonito. Esse infindável jogo de erros e acertos resulta em coisas bonitas, coisas feias, coisas profundas, coisas toscas, coisas ruins e, às vezes, coisas gostosas. 

Das criações-fracassos podemos citar como exemplos as filas para banheiro, as guerras, a epistemologia social, os bigodes fakes, o processo de locar um apartamento em Porto Alegre e os ventiladores de teto. Das criações-sucessos, podemos mencionar a cidade de Ijuí, a novela Kubancan, o volante camisa 5 que sabe sair jogando sem descuidar da marcação, as cartas de amor, o conceito de "ser" e, por fim, o bolo  de chocolate Nega-maluca. 

É importante destacarmos que o sucesso ou fracasso de uma criação humana não dependem de sua popularidade, mas sim do grau de disposição para o avanço da experiência humana que ela pode propiciar. Por isso, um fracasso pode resultar num sucesso e um sucesso pode se mostrar, com o tempo, um fracasso. Dessa forma, algumas criações são fracasso-fracasso, enquanto outras são fracasso-sucesso, e o contrário também vale. A novela Kubanacan, por exemplo, é um sucesso-sucesso porque além de fascinante e cheia de pessoas bonitas e talentosas, ela nos instigou muitas reflexões em busca de nós mesmos e do que somos capazes de fazer depois dessa suposta tomada de consciência. Kubanacan nos colocou as questões fundamentais: Quem realmente somos? O que fazemos com isto que somos? Estamos vivendo a melhor vida que podemos viver? Estamos tornando o mundo um lugar melhor ou pior ou tanto faz? 

Todos esses acontecimentos não seriam possíveis sem a frágil presença da figura humana. Tudo o que não surge espontaneamente em florestas, galáxias, mares e ares depende forçosamente da interferência do ser humano, essa espécie dúbia, esse animal não-catalogado ancorado entre o mistério fantasioso do que ainda não se sabe e a superfície burocrática das coisas nomeadas. O homem é no mundo, mas ele não se contenta em apenas estar no mundo, ele quer fazer o mundo -- e o foda é que ele faz. Às vezes isso é legal, divertido e até emocionante, outras vezes é só sem-noção, vergonhoso e meio deprimente. 

Pelo menos nessa porrinha azul que nós chamamos de "Planeta Terra" é a humanidade que investiga, pesquisa e cria. Fazer o mundo: grande poder. Olhamos, compreendemos e superamos nosso mundo-circundante. Foi a humanidade que observou as montanhas mais bonitas espalhadas pelo mundo e resolveu superá-las de um jeito muito mais divertido, dando sabor e doçura à criação: criou-se assim o que viria a ser o bolo, outro exemplo de sucesso-sucesso. 

Assim como vários outros exemplares da espécie humana detentores da coceira do conhecimento já se debruçaram sobre a questão de o que faz uma coisa X ser uma coisa X e não uma coisa Y, é possível elaborar uma investigação fenomenológica do melhor tipo de bolo que existe: a Nega-maluca. Por que existe a Nega-maluca? De onde ela veio? Para onde ela vai? Quem ela é? Quem a criou e o que pensou ao criá-la? Será que foi tudo um acidente? Como explicar seu sabor? Quais e como são suas moléculas? Como se agrupam e como se dissolvem? Por que fazem assim e não de outro jeito? Como se deu a trajetória da primeira Nega-maluca até a atual proliferação de docerias, padarias e tortarias? 

Meu empenho mais recente, enquanto Dasein explorador daquilo que emerge da fenda da existência sobre a qual flutuamos com angústia e inquietação, tem sido a investigação sobre os modos de ser da Nega-maluca. Em minhas pesquisas de campo, tenho encontrado tipos diversos e genuínos. É claro que não são todos que se enveredam pelo caminho do bolo de chocolate. Tipos diferentes de bolos não faltam: bolo de morango, bolo de cenoura, cupcake, bolo de banana, bolo de milho, bolo gelado de abacaxi. Justifico minha preferência pelo bolo de chocolate, o tipo mais artificial que existe, pelo fato de que os bolos de fruta ainda se manterem entre aquilo que explode no mundo como acontecimento não-humano (as frutas) e o que a nossa criatividade humana é capaz de forjar (o bolo). Os bolos de frutas ainda são fortemente um retrato de nosso modo de ser preso ao mundo, em que nos relacionamos apenas com o que nos é dado de forma imediata, faltando-lhes a transcendência metafísica do bolo de chocolate. Por outro lado, a Nega-maluca é a Torre Eiffel das experiências bolísticas (e se eu quisesse o sabor de uma fruta eu iria lá e comia a própria fruta). É dessa forma que a Nega-maluca nos coloca em um jogo fenomenológico de longe-perto, velar-desvelar. Podemos colocar da seguinte forma: quem não gosta de bolo não tem mundo, quem gosta de bolo de banana é pobre de mundo, quem gosta de Nega-maluca é formador de mundo. 

Temos ainda que destacar o "estado de ânimo" vinculado à experiência da Nega-maluca.  Não há e nem é possível que haja um pessimista capaz de manter-se enquanto tal ao consumir uma autêntica Nega-maluca. Comer esse bolo de chocolate paralisa nosso cérebro e descansa nosso corpo da habitual ênfase no fracasso da experiência humana em todos os tempos e lugares -- o que abarca desde o esquecimento do ser nos dispositivos tecnológicos da civilização moderna até mesmo as experiências traumáticas de relacionamento, derrotas do time de futebol e a incapacidade imponderável de comunicação que nos isola em solidões incontornáveis. Tendo à mão uma Nega-maluca, ninguém consegue ser absolutamente fatalista. Simplesmente paramos de questionar pela razão do que há de errado no mundo e pela origem da culpa  na eterna expulsão de nosso Paraíso natal que é a vida humana. 

Por isso, é indispensável que, enquanto Dasein, avancemos no fortalecimento da Nega-maluca. Precisamos pensar na criação de um mundo feito de Nega-maluca como um rumo belo, mas sem linha de chegada, porque é sem limite. Avancemos, humanos, avancemos.