terça-feira, 26 de novembro de 2013

A propósito da semana acadêmica

Escobar entrou no ônibus que vai da Ipiranga até a João Pessoa. Passou pela catraca com um movimento maquinal e respirou o ar quente do ônibus lotado. Na calçada, o vai-e-vem das pessoas, contornos indecisos que se transformavam a cada instante. Essa é a vida, todo o resto é mentira. Grandes mentiras da civilização ocidental, a falsa e sórdida civilização dos filósofos. Tão evidente a mentira que bastava, por um segundo, encher os pulmões e o cérebro com o ar de um ônibus lotado para perceber. É mentira Hegel e sua dialética do senhor e do escravo. É mentira Derrida e seus sonhos malucos de multiplicidade. É mentira Agamben e o estado de exceção. É mentira Honneth e o capitalismo tardio. É mentira a moral provisória em Descartes. É mentira a noção de sabedoria prática em Epicuro. É mentira a dicotomia entre fato e valor em Putnam. É mentira Gadamer e o círculo hermenêutico. É mentira Kant e sua dignidade humana.  É tudo mentira. É mentira o jogo estúpido das semanas acadêmicas. É mentira as publicações miseráveis nos periódicos científicos, como seus grosseiros títulos acadêmicos. É mentira a multiplicidade de problemas, de linhas de pesquisa, de teses e dissertações. É mentira os eventos acadêmicos organizados por estudantes de fala mansa e discursos da moda. Tudo uma grotesca mentira, habilmente dirigida. Professores, estudantes, bolsistas, orientadores, mestrandos, doutorandos, honestidade intelectual, homens e mulheres honestas... Escobar riu sem maldade nem ódio, enquanto olhava pela janela do T1 o céu luminoso. 

O vento entrava pela janela aberta a acariciava seus cabelos como uma mão carinhosa. Sim, meu amigo, na filosofia não se vive. Se produz artigos, se ganha bolsas de pesquisa, se compra, se vende, mas não se vive. A verdade estava ali, naquele ônibus lotado. Escobar queria ter forças para fugir daquela vida, romper com ela para sempre. Reintegrando-se ao ônibus lotado, ao dia quente, ao céu azul. Ir arrancando-se aos poucos, dia a dia, jogando fora as coisas que a filosofia havia plantado em sua alma. E assim acordar em uma certa manhã intacto, puro e forte. Poder ser ele novamente. Recordar o Escobar da infância, sem metafísicas, sem falsos conceitos bonitos, sem influência, sem bibliografia. Limpa a cabeça e feliz o coração. 

Isso era partir, ter a coragem de ir-se, romper com a vida estúpida e sem calor da acadêmia. As pessoas do ônibus, tão seguras, tão espontâneas, tão pessoas. E seus colegas apresentando trabalhos na PUC, aquelas gentes são animais melancólicos e covardes. Animais cansados e vencidos. Como cachorros castrados. E Escobar, que já começava a odiá-los, ria sem malícia. Por que não lhe ocorria mais do que palavras tristes para dizer o que queria?  Seguiu junto a janela, com os braços cruzados, junto ao corpo. Desceu logo em seguida. Seguiu olhando as pessoas na rua, caminhando entre as sombras da tarde que caia. E não ouvia mais as mentiras. Nada. Só a suavidade do silêncio. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A angústia da influência

Deitado na cama, Escobar encarava um pedaço da parede branca. Aquela parede tão branca, tão fria e indiferente como um cadáver. Depois ele pensou na parede branca da biblioteca de seu orientador. Mais humana, menos parede. Com pinturas, fotografias e imagens. Na primeira vez que entrou ali, Escobar viu aquilo com um pouco de desgosto, mas logo foi se acostumando. Em pé, no quarto, Renata sem roupa se via no espelho. Pura e simples como um animal. "O que ela quer?" - chegou a se perguntar Escobar - "que bobagem, ela quer o que todos querem". 

Renata quer o que todos querem. Todos menos aquela parede branca, morta e impessoal. Renata olhava para si no espelho e suspirava balançando negativamente a cabeça. Escobar pensava em seu orientador. Aquele rosto velho que expressava sempre uma sensação de cansaço, mas ainda assim alegre. Uma alegria que não se alcança pela reflexão, que não se chega pelas conclusões do pensamento. É preciso atirar-se de cabeça na fé.  Aquele velho caminhava com passos lentos e cansados. Seu corpo expressava tanta entrega, tanto renunciamento, tanta vida que se perdeu. Seria aquele o seu futuro? É possível que ele se converta naquilo? Escobar sempre pensou que poderia modelar sua vida como bem quisesse. Mas e se ele estiver terrivelmente equivocado? Sendo razoável, essa é, sim, uma possibilidade. Agora mesmo, sem saber a razão, ele se encontrava cansado e abatido na cama. "Então é isso?".

Sim, é isso. Um professor dando lições de filosofia alemã, sabendo passagens de livros passo a passo, fingindo conformidade e satisfação. Escobar, dominado por um frio desespero, se viu tendo que pensar a sua vida nesse cenário, buscando, até com certa perversidade, a imagem que mais doía, a mais humilhante e ridícula no fantasma que é o homem em que ele se converteria. Lembrou dos anéis nos dedos, das pernas cruzadas, do relógio de ouro e do jeito de falar. Tudo isso teria ele? E também dos gestos repetitivos, quase mecânicos, da audácia nos olhos e, na boca, uma fala cheia de resignação. E esse era seu possível destino. Pensava na vida e não via mais do que fatalidade, como se seu cérebro tivesse apodrecido antes do corpo, como se uma força cega o obrigasse a continuar, a ler, a escrever, a envelhecer, a ir acumulando essas coisas, a sofrer, a gozar, a sentir tantas e tantas coisas distintas, algumas que nem o interessavam.

Se deteve um instante, fechando os olhos. Renata. Renata nua em pé em frente ao espelho, como se estivesse na coxia do teatro, enquanto ele na cama encarava a parede branca. Ele sabia que um dia iria enjoar-se dela. Mas ela era tão bonita, tão bonita. Sim, também era estúpida, um pouco vulgar, com uma maneira de se ver no espelho que dava nos nervos. Mas, no entanto, ainda assim, apesar de tudo, bonita. Sim, ele também sabia, estava sendo um idiota. Mas com ela, nada de dúvidas ou problemas filosóficos.

Levantou-se da cama e foi até a janela. O anoitecer escuro e frio. Sentiu a noite fresca e calma. E ouviu renata falar:

- Às vezes, durante a noite, eu me lembro de coisas de quando eu era menina.

Escobar estremeceu, pois sabia que qualquer coisa que ela dissesse não cairia bem em seu estado de ânimo.

- Não é nada demais. Só queria sentir aquilo de novo. O medo da noite e o mistério da noite. Isso a gente perde quando cresce. Hoje a noite não me dá mais medo. Mas quando anoitece e eu estou sozinha, me vem um desalento. Uma coisa que eu não sei o que é. É como se gelasse todo o meu sangue.

Escobar se deteve um instante na janela. "É como se gelasse o meu sangue". Idêntico desalento às vezes toma conta do seu corpo. Aos poucos, livre da influência das angústias de Renata, Escobar voltou a ver seu futuro como professor de filosofia, entrando em uma sala de aula cheio de livros embaixo dos braços. Renata estava ali, no quarto, com os olhos amáveis e a boca sorridente. Tentava sentir o parentesco humano que o unia aquela mulher e só sentia que eram pessoas distintas, sem mais em comum do que sentir o sangue gelar às vezes. Às vezes eles sentiam coisas parecidas, mas ela nunca seria capaz de entender nada de seus medos, de seus sonhos, de seus ódios, de sua vontade brutal de ser ele mesmo e não uma cópia de seu orientador, de sua busca apaixonada por um espaço no qual ele poderia se expressar completamente. Pensou em como seria fácil estrangular ela ali mesmo, ou lhe dar uma bofetada, mas sentiu nojo de si mesmo por considerar machucar aquele rosto tão bonito.

Depois voltou para a cama. Renata. Será que ele suportaria duas semanas sem vê-la? Escobar voltou a encarar o pedaço da parede branca. 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

CHAT FILOSOFIA - SALA: FILOSOFIA BRASILEIRA

SALA: FILOSOFIA BRASILEIRA (1)

Luiz Felipe Pondé entra na sala.

Márcia Tiburi entra na sala.

Paulo Ghiraldelli Jr entra na sala. 

Olavo de Carvalho entra sala. 

Ernildo Stein entra na sala. 

Ernildo Stein fala com todos : Olá pessoal alguém quer conversar sobre a possibilidade de se traduzir o on aristotélico por ser ao invés de ente?

Luiz Felipe Pondé fala Ernildo Stein: Esse tema é muito chato. Não rende muito. 

Márcia Tiburi fala com todos: Concordo. Vamos falar sobre o aborto. O aborto é um dos temas mais populares na nossa sociedade patriarcal e no entanto a filosofia muito pouco fala sobre ele. 

Ernildo Stein sai da sala. 

Marilena Chauí entra na sala.

Luiz Felipe Pondé fala com todos: Sou contra o aborto. Na dúvida de saber quando se começa a vida, prefiro não correr o risco de matar ninguém. 

Márcia Tiburi fala irritada com Luiz Felipe Podé: Se o homem ficasse grávido, o aborto não seria ilegal!!!!

Marilena Chauí grita para todos: Sem útero, sem opinião!!!!

Luiz Felipe Pondé fala com Marilena Chauí: Vale lembrar que a mulher não faz o filho sozinha, então não vejo razão para o homem não poder participar do debate.

Márcia Tiburi: fala com Luiz Felipe Pondé: Porque o corpo não é dele, porque ele não tem cólica menstrual, porque ele não carrega a criança noves meses na barriga. São bons motivos para você, querido?

Olavo de Carvalho fala para todos: Quer dizer que só porque eu tenho um cacete e não uma buceta não posso opinar, ora porra????

Olavete entra na sala.

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Pelo jeito não é preciso diploma pra logar nesse chat kkkkkkkkkkkk

Olavete fala para Paulo Ghiraldelli Jr: Ainda bem que não precisa, pois se precisasse coitados de Sócrates, Platão, Aristóteles...

Vladimir Saflate entra na sala.

Vladimir Saflate fala para todos: Oiiiiiiiii algm qr tc????

Márcia Tiburi fala para Vladimir Saflate: O tema é o aborto na sociedade falocêntrica. 

Vladimir Saflate fala para todos: E quem se diz contra o aborto e defende a pena de morte???? rsrsrsrsrssrs

Olavete fala para Vladimir Saflate: Essa indireta foi pra mim???

Vladimir Saflate fala para Olavete: Se a carapuça serviu...

Mario Sérgio Cortella entra na sala. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Pessoal, eu não sou a favor do aborto. Ninguém é a favor do aborto. A questão não é essa. A questão é a descriminalização do aborto. 

Mario Sérgio Cortella fala para todos: Eu penso que a mãe tem um vínculo afetivo com o filho desde a concepção. Então interromper a gravidez (e aqui podemos pensar em Sócrates que se dizia um parteiro de ideias) deixa um trauma que mãe terá que carregar para sempre. 

Márcia Tiburi fala para todos: Fica difícil discutir com quem tenta impor seus dogmas aos outrxs

Leandro Konder entra na sala.

Leandro Konder fala para todos: Galera, passei aqui apenas para falar a real. Aborto é uma questão de saúde pública. #Fuuuuuuuui

Leandro Konder sai da sala. 

Olavo de Carvalho fala para todos: É fácil ser contra o aborto quando não serão vocês que serão abortados, ora porra. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: kkkkkkkkkkkk o cara quer que a gente debata com um feto. Depois não sabe por que não passou no vestibular da USP

Olavete fala para Paulo Ghiraldelli Jr: Vai tomar no cu, otário!!!

Olavete foi banido pelo moderador. 

fEtO entra sala.

Vladimir Saflate fala para todos: ???????????????

Márcia Tiburi fala para todos: ?????????????

fEtO fala para todos: Algma gata afim d tc no reservado com cam com um novinho?????

Olavo de Carvalho fala reservadamente para fEtO : Mais tarde, como combinamos. 

fEtO fala reservadamente para Olavo de Carvalho: AFFFFFFFFF primeiro tc com as minas e depois debate com os abortistas #xatiado

Olavo de Carvalho fala reservadamente para fEtO : As minas estão em outra sala. Depois eu vou para lá também. Agora vamos debater com os abortistas. 

 fEtO fala para todos: algm qr tc comigo sobre aborto?????

Marilena Chauí  fala para fEtO  : Eu 

Vladimir Saflate fala para fEtO: Eu 

 Paulo Ghiraldelli Jr fala para fEtO: Eu 

fEtO fala para Marilena Chauí: primeiro vc gata. 

Marilena Chauí fala para fEtO: Qntos anos???

fEtO fala para Marilena Chauí: Seis meses gata.... e vc?

Márcia Tiburi fala para fEtO: E você se lembra alguma coisa de antes de ter dois meses. 

fEtO fala para Márcia Tiburi: Vixi, p falar a vdd naum lembro nada naum. 

Márcia Tiburi fala para todos: RÁÁÁ como eu desconfiava: até os dois meses ele era apenas um amontoado de células e, então, não se tratava de uma pessoa. 

fEtO fala para todos: :(

Luiz Felipe Pondé fala para todos: Bom, creio que isso coloca fim ao debate.

Marilena Chauí fala para todos: Isso é evidente. 

Paulo Ghiraldelli Jr fala para todos: Não restam dúvidas. 

Mario Sérgio Cortella fala para todos: Se é assim, boa noite para quem fica.

Amontoado de Células entra na sala.

Olavo de Carvalho fala para todos: PUTA QUE PARIU!!!!!!!














sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Cássia II

Eu sou o buraco na sua cabeça e sou a dor no seu pescoço. Eu sou o nó na sua garganta e sou o aperto no seu coração. Eu sou o arrepio na sua espinha e sou o cisco no seu olho. Eu estou no lamber de seus lábios e estou na ponta de sua língua. Eu sou o pesadelos de seus sonhos, sou aquela sensação de queda. Eu sou a doença e sou a agulha e seus remédios. Eu sou a bebida e sou sua ressaca pela manhã. Eu sou a sua sorte e sou o seu azar. Eu sou o seu amor e sou o seu ódio. Eu sou Cássia. 

Eu sou ao motivo de você faltar ao trabalho e passar a tarde num quarto sujo de motel com as paredes transpirando. Eu sou a pessoa com quem você rola na cama e que mata uma fome que parece ser de dias. Eu sou o cheiro que nessas horas vira o seu cheiro e eu sou o gesto que nessas horas vira o seu gesto. Tudo isso em meio a gritos, promessas e juras de amor enquanto suamos e transpiramos embaçando o vidro da janela. Eu sou a pessoa com quem você cai na cama, encharcado de suor. É por mim que você vai abandonar sua mulher e seus filhos. Eu sou Cássia.  

Eu sou a pessoa pra quem você vai buscar uma garrafinha de água depois. Eu sou a sede que vira a sua sede. Eu sou quem, na volta, você encontra na cama ofegante. Eu sou quem dá três ou quatro goles de água sem se preocupar se ela escorre ou não pela pele, se ela cai ou não nos lençóis ainda quentes. Eu sou com quem você vai recomeçar mesmo sem nunca ter chegado ao fim. Eu sou a boca que você ainda sente gelada da água no beijo. Eu sou quem vai evaporar até desaparecer com o vento gritando dentro da sua cabeça "para sempre". Eu sou quem você nunca vai ter para sempre. Eu sou livre. Eu sou assim: Cássia

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O espetacular debate entre o filósofo Tim e uma pedra

O filósofo Tim está longe de ser um grande pensador. Na realidade, ele é um intelectual bastante medíocre e burocrático, só que o filósofo Tim foi abençoado com o dom de ser bem interpretado pelas pessoas. Por exemplo, numa de suas aulas, mês passado, um aluno esforçado apresentou um comovente trabalho sobre o conceito de hospitalidade em Derrida. O filósofo Tim chorou durante toda a apresentação. Muitas pessoas - incluindo o rapaz que apresentou o trabalho - acharam o filósofo Tim um cara muito legal e sensível, um pouco exagerado, mas ainda assim muito legal por se ter se deixado emocionar. Porém, o que realmente aconteceu foi que Tim estava achando tudo aquilo um saco e, quando pensou na sua produção intelectual dos últimos quinze anos, não aguentou e chorou. O filósofo Tim estava muito abalado principalmente depois que saiu a programação da semana acadêmica de sua universidade e ele se viu escalado para compor uma mesa de debates junto com uma pedra. 

Sim, uma pedra. Toda aquela preocupação com a alteridade e com a hospitalidade infinita, então por que não dialogar com uma pedra? - foi isso que os organizadores do evento argumentaram. Tim não sabia se era sério ou se estava sendo alvo de uma chacota de estudantes de pós-graduação. De qualquer forma - pensava o filósofo para se consolar - existem correntes de pensamentos místicas que dizem que as pedras sentem e pensam. Quem somos nós para limitar, não é mesmo? A alteridade deve ser aceita em toda a sua plenitude. Derrida mesmo disse que na aceitação da alteridade sempre há um pouco de loucura. Talvez muitas pedras sejam mais inteligentes que alguns seres humanos. Nós não vemos pedras matando, roubando, poluindo ou tentando impor sua fria lógica analítica - que na verdade imita o funcionamento do mercado liberal norte-americano - às outras formas de discursos. Não, nunca ninguém viu uma pedra fazendo isso. Isso explica por que as pedras nunca tiveram interesse em dialogar conosco. Em sua sabedoria superior, as pedras não entendem as nossas motivações mesquinhas e então preferem o silêncio. Ou talvez elas não conversem com a gente porque nunca leram Kant. Alguns sociólogos dizem que as pedras são tediosas e por isso não têm interesse de estudá-las. Mas, na realidade, esses sociólogos são apenas uns ressentidos. 

Tudo isso o filósofo Tim repetia para si mesmo para se convencer. Ele inclusive foi pesquisar sobre a vida e a história das pedras. Então ele se deparou com uma série de artigos publicados num grande livro chamado Fenomenologia das Pedras. Segundo alguns estudiosos que publicaram neste livro, as pedras são, sim, capazes de se mover, mas, no entanto, não o fazem. As pedras preferem ficar paradas porque não possuem nada de melhor para fazer em outro lugar e seria apenas um desperdício inútil de energia ficar indo de um canto para outro. Para o filósofo Tim isso pareceu fazer muito sentido. Ele até arriscou a hipótese de que esse modo de (não) mover das pedras é a chave para entender o seu pensamento tão superior ao nosso. 

Outra coisa interessante Tim encontrou em um livro de história que estava na estante de obrar raras da sua universidade. Lá ele leu que na Idade Média os boatos de que as pedras pensavam se espalhou fortemente e preocupou muito algumas pessoas religiosas muito importantes, inclusive o Papa. Isso nunca foi muito divulgado, mas, durante o período de caça às bruxas, houve uma atividade muito parecida de caça às pedras. Isso não durou muito porque os sacerdotes logo viram que perseguir pedras não era tão desafiador quanto perseguir bruxas, e jogá-las na fogueira também se mostrou muito decepcionante. 

De qualquer forma, era a tarefa de nosso querido filósofo debater com uma pedra na semana acadêmica. No dia do evento, uma pequena pedra, do tamanho da palma de uma mão, foi colocada sobre a mesa, em frente ao microfone. Tim sentou-se ao seu lado e começou com o debate: 

- A filosofia, em grande parte, sempre foi crítica da razão. Então eu proponho que comecemos por aqui. Tudo bem para você? 

- ...

- Bem, como dizem, quem cala consente hehe. Eu costumo colocar, quando se trata da ideia de razão, minha crítica ao que chamo de razão ardilosa. Minha crítica se dirige ao núcleo da ideia de razão, a partir da racionalidade calibrada pelo Outro da razão. Você está de acordo? 

- ...

- Seguindo. Trata-se do modelo de razão hegemônico na acadêmica, principalmente onde se tem maior influência do pensamento obtuso americano. Ela é surda ao grito silencioso do Outro e apenas re-projeta no mundo, só que de modo altamente formalizado, os pré-conceitos que dele recebe. Aqui eu toco no nervo da questão. O colega tem algo para contribuir? 

- ...

Nesse momento Tim afasta o microfone, se aproxima da pedra e cochicha para ela: 

- Olha, vai ser muito constrangedor se você não falar nada.

- ...

- Você não entende. Preciso de sua ajuda. Minha carreira acadêmica é uma piada. Escrevo sobre as mesmas coisas há 15 anos e até hoje não publiquei um livro relevante. Colabora aí, dona pedra.

- ...

- Tudo bem, eu até te entendo. Quem vai querer dialogar com um filósofo como eu? Sou um fracasso intelectual mesmo. 

- ...

- Curiosamente, você não é o primeiro corpo sem vida com o qual eu debato. Esses dias mesmo eu debati com o professor Agemir. 

- ... 

- Aposto que você está pensando que foi um debate muito interessante, mas não foi.  Hegelianos são um tipo estranho. Com muito tempo de sobra e nada para fazer. Tipo você. É um pouco triste, na verdade. 

- ...

- Nossa, eu estou passando muita vergonha aqui. Não sei por que concordei com isto. Onde já se viu, pedras pensarem? Por que eu me deixei levar por essa ideia? Todos do departamento vão rir de mim. Queria sumir, afundar na água igual uma pedra e desaparecer da vista de todos. 

- ...

- Falando nisso, por que vocês dão aqueles pulinhos quando são arremessadas na água? 

- Que pulinhos? Aquilo é física básica, seu imbecil. 

- Oi? 

-...

- Bem - voltando a falar no microfone - eu estava dizendo como o choque com a Alteridade deve nos levar à uma nova noção de razão, uma razão da ética...



domingo, 13 de outubro de 2013

Cássia I

Enquanto o Fantástico passa sem volume na televisão, Cássia busca no quarto um pouco de silêncio. Carros indo e vindo na rua e o tic tac enquanto ela digita qualquer coisa no skype para os meninos que batem punheta pensando nela. Raros momentos de tamanha tranquilidade. Ela gosta quando já é fim do dia e ela pode ficar só de blusa e calcinha, deitada na cama, não fazendo nada assim. Gosta de ver só a luz do abajur iluminando de forma delicada e sútil o quarto bagunçado. Gosta do toque do lençol nas suas pernas e do cheirinho bom do spray de casa cheirosa que ela joga no ar. E gosta dos meninos no skype dizendo que ela é gostosa. Nessas horas Cássia é quase feliz. 

Ela gostaria que seus pensamentos se aquietassem, para que ela realmente conseguisse descansar. Gostaria de ter um namorado, de levar uma vida certa e direita, ser mulher de um homem só, ser de família, como dizem. Gostaria que seu coração não ficasse acelerando e desacelerando trazendo essa pequena afobação gostosa cada vez que um desconhecido mostra pra ela seu pau duro na cam do skype. Que seu estômago não se revirasse de ansiedade cada vez que ele conhece um cara novo. Gostaria de não ficar imaginando como é na cama um colega ao qual acabou de ser apresentada. Gostaria que suas olheiras, resultado de noites seguidas sem dormir, não estivessem tão grandes num rosto tão branco e bonito.  Mas Cássia sabe que não pode mudar. Ela sabe que isso a mataria."Eu sou o que sou", ela diz pra si mesma. 

Ela gostaria que o sexo sem compromisso fosse capaz de curar essa qualquer coisa, esse incômodo ou sentimento amargo, essa coisa que não se sabe o nome ou a procedência, isso que desde que ela se viu moça quer sair mas não encontra a forma, isso que lhe tira a paz nos momentos de tranquilidade. Ela gostaria que saísse. Que saísse de algum jeito. Só que nunca saí. Deve estar perdido ou grudado em algum pedaço do seu corpo. Nos seus peitos ou nas pernas. Ou na suas células sanguíneas ou na sua respiração, ou no piscar dos olhos cansados. Ou no rímel melecado que sai com algodão junto com o removedor de maquiagem. Na pelinha do canto da unha do dedão arrancada ao dente. Mas continua lá. Nela. No corpo dela. No corpo que ela é. 

Enquanto o silêncio do quarto briga com a gritaria das ruas, Cássia sobrevive mais um dia. Enfrentando o que consegue e fugindo do que pode, encontrando no barulho do centro da cidade o silêncio inquieto que precisa para a sua quase sobrevivência. Somos todos Cássia.  
Fui fazer café (pensei em você), assim como quando abri o chuveiro à tarde (pensei em você) e quando estive caminhando ontem pelas ruas e vi os bares lotados (pensei em você). Eu prometi para mim mesmo não contribuir ainda mais para o acúmulo de lixo na internet com mais tristeza, mas você está na minha cabeça e não quer sair. De vez em quando as imagens mentais sobre você formam algumas palavras; nuvens de frases que vão se acumulando pelos cantos do apartamento sujo. Disso eu não consigo escapar. Eu queria nunca mais escrever. Não existe mais nada que deva ser dito por ninguém. Isso tá cada dia mais óbvio e isso eu vou repetir até me convencer. Só que não sei que destino dar às palavras mais simples, assim como não sei o que fazer com o café que esfria na mesa além de bebê-lo. No apartamento que eu moro não cabe mais nada, mas cabe minha cabeça teimosa. Cheia cheia cheia cheia de palavras. Abro um livro ou a geladeira ou um pacote de Cebolitos. Nada muda nada. Só a sujeira segue se acumulando pelos cantos do apartamento. Penso em você e você me vem à mente como um artigo que há semanas tento acabar e não consigo. Um artigo sobre o conceito de mundo em Heidegger. Sobre um mundo que é o seu e é o meu também. Não consigo acabar o artigo porque ele é ruim e ele é ruim porque é um artigo: porque diz alguma coisa que não precisa ser dito. Que diferença ele pode fazer? Prometo apenas escrever para contar piadas. Prometo ter equilíbrio mental suficiente para ser um idiota. Os grandes textos filosóficos do século XX falaram do fracasso da experiência humana. Os grandes textos filosóficos do século XXI falarão da aceitação desse fracasso. De minha parte, sei que não colocarei mais nada de ruim no mundo. Só vou escrever de coisa boa. Como quem fala por necessidade, como quem conversa com um cão. Não faz sentido defender, reclamar ou condenar. Seríamos mais coerentes se só usássemos a linguagem para falar de coisas sem importância. Nos casos em que queremos brigar, discutir, opinar, analisar a arquitetura das galáxias ou dissecar as estruturas do ser primordial ou criticar o complexo cenário político que inventamos para enfeitar a nossa cabeça - nestes casos deveríamos ter uma coisa em mente: ninguém realmente se importa. O que importa é ocasionalmente saciarmos nosso desejo, a fome, o frio, a tristeza. Se usarmos a linguagem pra isso, ela então faz sentido. No tempo que sobrar poderíamos dar um descanso para nosso logos. Sair tomar café, entrar num cinema e depois esperar na marquise de uma loja até que a chuva passe. Depois, em casa, bastaria ter calma com a noite. Sem se preocupar com o medo infantil que é ter medo da noite, sem se preocupar com tudo o que já foi dito sobre o medo da noite, sem se preocupar com o quanto já se falou sobre o medo da noite, sem se preocupar no quanto o medo da noite perdeu a graça depois que tudo sobre ele foi dito. Mas o medo da noite persiste tanto quanto a noite, tanto quanto as palavras sobre o medo da noite. Como se nada tivesse mudado desde o tempo em que o mundo era um lugar onde as coisas só dependiam do sol para serem vistas. E não das palavras. Então não há como nos livrarmos desse lixo. Quando toda essa bosta explodir -- a terra o céu o mar -- as palavras ficarão e irão ricochetear na atmosfera como raios ultravioleta. Não faz sentido nos preocuparmos nem mais nem mesmo. Vamos sentar na sombra, aproveitar enquanto ainda há brisa, adormecer em silêncio e gritemos em alto-falantes apenas quando for o caso de gritar.