de onde vem essa tua vontade de abismo?
o que aconteceu que a chuva secou e você não?
o que se deu para que tua vida nunca tenha sol?
o que aconteceu para a morte não ser mais suficiente?
o que foi que se deu?
to cansado de ser o adeus
e você o nunca mais.
eu esperei tanto -
tempo que nem por mim esperaria
um sinal dos céus,
um telefone tocando,
pela porta de trás, da casa vazia
não te reconheceria,
noites sozinho, noites sozinha
lembra? de tudo antes de ser?
tínhamos outros nomes.
o que foi que se deu?
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
segunda-feira, 23 de julho de 2018
a gente nunca foi árvore
depois de um tempo a gente se acostuma a praticamente não pensar mais no assunto. o perigo então é ser surpreendido por algum pedaço que tenha sobrevivido. sei que nem é mais amor, e, sinceramente, às vezes penso que nunca foi. é mais saudade do espaço que ela abriu dentro de mim, saudade de quem eu fui ali, naqueles olhos, naquela mão dada à minha. nos cabelos dela, que eu adorava tanto quando o vento trazia para o rosto e eu tinha a desculpa para por detrás da orelha. do rosto dela sempre quente e terno. é uma saudade que ninguém e nem o tempo amansa. mas a gente se acostuma, sim. ainda que desconfiando de tudo o que perdeu. ou vai saber se isso não é só mania de cutucar a casquinha da feriada, pra gente se sentir vivo outa vez, pra recuperá-la um pouco na lembrança do que fomos. mas a memória, com o tempo, também esfria, sabe?
o nome dela entre os lábios. se eu pronunciasse, ela ouviria? saberia dizer de onde veio aquela voz, se de agora ou do passado? ou do futuro que um dia prometemos? a imagem dela dentro de mim. essa imagem, que um dia será frágil e amarelada, me dá força pra de vez quando não odiar. a imagem relampeja e se fixa no céu da lembrança, feito primeira estrela numa noite nebulosa.
a gente não foi árvore pra deixar crescer raiz. a gente foi barco que nunca aporta. com desejo de entrar em novas terras, novos ares, novos mundos, novas águas. dois barcos à deriva um do outro. e também um no outro?
o problema, garota, é que a gente nunca soube ser árvore para crescer raiz.
quarta-feira, 11 de julho de 2018
aqui está a rosa
nosso deserto, talvez, seja apenas a espera pela chuva. que demora, demora, demora, mas, quando chega, encontra as sementes mais fortes para florir. a melhor parte de atravessar um tempo seco é essa delicadeza em ver a vida morrer e depois recomeçar aos poucos. e então o deserto vira mar: campo de cores e flores fluindo por entre as montanhas. convidando o observador a juntar uma folha, dobra e dobrar e dobrar, até voltar à infância, quando qualquer papel virava chapéu, e, com mais uma dobra, temos um barquinho. e lançamos nosso barco frágil nesse deserto que agora é rio rodeado de flor. e ele flutua, flutua e flutua, como as nossas últimas esperanças.
da secura e do cinza, tenho certeza, se segue a chuva. que alivia o mundo de seu peso, alivia a nós mesmos de nosso próprio peso. como se as portas estivessem destravando por dentro. já agora, escuto daqui, cada flor sussurrando ao vento que trouxe a chuva: "Hier ist die Rose, hier tanze".
parece o fim do mundo, mas é só mais um começo.
da secura e do cinza, tenho certeza, se segue a chuva. que alivia o mundo de seu peso, alivia a nós mesmos de nosso próprio peso. como se as portas estivessem destravando por dentro. já agora, escuto daqui, cada flor sussurrando ao vento que trouxe a chuva: "Hier ist die Rose, hier tanze".
parece o fim do mundo, mas é só mais um começo.
terça-feira, 10 de julho de 2018
segunda-feira, 11 de junho de 2018
amor sartreano
é de sartre uma de minhas definições preferidas de amor: amar é deixar de existir enquanto sujeito.
tem gente que adora a imagem absoluta e heróica do amor, da paixão que consome, do amor sublime, que eleva acima e contra o mundo. precisamos do absoluto para que o amor seja possível. talvez essa seja a visão dominante em nossa cultura.
contra essa visão, a frase de sartre fala do amor como um tipo de projeto, de caminho, e não como um acontecimento espetacular. o amor, neste caso, precisa durar um tempo porque é uma construção, ou melhor: uma desconstrução. mas o que desconstrói aquele que ama?
geralmente, segundo sartre, minha existência é organizada por meus projetos e minhas escolhas particulares. o mundo, na fenomenologia, é, de certa forma, o meu mundo, o mundo dos meus projetos. neste sentido, sou um sujeito e sou livre.
claro que, ao redor de mim, há muitos outros com seus projetos e suas escolhas. sou capaz de, gostando deles ou não, reconhecer seu direito de também escolher e promover seus projetos. porém, o fato de eu saber disso não muda em nada meu modo de ser. é só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, para dois projetos que não se confundem; os meus e os de quem eu amo. essa estranha experiências existencial faz com que os dois amantes, de certa forma, compartilhem o mundo, enxergando coisas que ficam despercebidas para quem deixa de ser seu próprio eixo de referência subjetiva.
eu penso nisso quando alguém diz "eu também te amo". dizer também te amo é mais bonito do que dizer eu te amo. porque a ênfase recai sobre a reciprocidade do também. aperta um laço firme com aquele que começou a dizer que amava. eu também te amo é o nó que vai tecendo a vida comum e que faz com que a gente vá deixando aos poucos de existir enquanto sujeitos.
é claro que um amor assim entendido necessita de tempo. meses, anos, uma vida. não importa. esse tipo é um amor sem urgência, que se renova cotidianamente, e que nos distrai da fragilidade, da solidão e da morte. no deixar de ser um sujeito, nosso mundo se espreguiça e se alarga.
entregar-se a uma paixão pode ser rápido, mas deixar de existir enquanto sujeito, e refazer o mundo a dois, isso sim exige tempo e cuidado.
dias dos namorados
quando terminamos, eu acreditava que não te ver nunca mais fosse suficiente para me desapaixonar, ou, pelo menos, não me apaixonar novamente a cada recaída. não é. ou pelo menos não foi: eu continuei me apaixonando pela tua ausência.
apenas à uma paixão permanente devemos dar o nome de amor.
apenas à uma paixão permanente devemos dar o nome de amor.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
perdi a direção. aquela direção exata de quem sabe para onde vai. debaixo do curativo, a ferida ainda aberta. o fracasso é um bicho doido, aleatório. qual o nome do futuro que a parede cobriu e matou?armadilhas em pequenas flores azuis. o nada da solidão que sou no ponto sem táxi na rua vazia sem ônibus que passe. um soco na minha clavícula. roupas não revelam nem disfarçam estados de ânimo. a garota que amo está comigo apesar do pouco que sou.
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