sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dois breves contos de terror do Chaleira: A menina fantasma do 303 e Socorro, minha irmã é uma vampira

Como vocês estão, queridos? Prontos para mais contos de terror do Chaleira de arrepiar os cabelos? Dessa vez eu vou contar como tive um contato sobrenatural com uma fantasminha pra lá de assustadora e como descobri que minha irmã adotiva na verdade era uma vampira muito da fuleira. Então tirem as crianças da sala e preparem-se:
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A MENINA FANTASMA DO 303

Já fazem seis meses que eu me mudei para um antigo prédio perto do centro da cidade. Meu apartamento fica no quarto andar do prédio, o último. Como o prédio é um pouco antigo, ele não possui elevador, o que me faz ter que sempre subir pelas escadas. O problema é que sempre que eu passava pelo terceiro andar, escutava um choro de criança vindo do apartamento 303. 

Um dia, preocupado, fui lá e bati na porta, no entanto ninguém apareceu para abrir. Como continuei ouvindo o choro de uma criança sempre que passava pelo terceiro andar, fui perguntar para a zeladora quem morava no 303. Foi então que fiquei muito assustado com sua resposta. Ela me disse: 

- Que estranho, você deve estar enganado, pois o apartamento 303 está fechado desde o começo do ano. 

- Mas, antes disso, quem morava lá? Pode ser que alguém ainda tenha a chave - insisti. 

- É uma história muito triste, não insista nisto, por favor. 

Visivelmente era algo sobre o qual a zeladora não queria falar. Tive que investigar por conta própria. Até que num jornal antigo encontrei uma reportagem que contava a história de uma mãe viciada em drogas que deixou sua filha, uma menininha de seis anos, trancada em casa para acompanhar a banda Molejo numa turnê de shows pelo Brasil. Ela era uma "grupie" - como dizem os jovens. O resultado foi que a pobre criança, que ficou mais de um mês trancada em casa sozinha, morreu de fome. A mãe foi presa e ainda hoje está na prisão. Seu apartamento era o 303 do meu prédio.

Depois que eu soube disse, não consegui mais dormir e passava todas as noites em claro chorando pensando na dor daquela pobre menininha morrendo de fome sozinha em casa. Até que numa noite de sexta-feira 13 véspera da Quarta-Feira de Cinzas de forte chuva não suportei mais a angústia e resolvi novamente bater no apartamento 303. Bati na porta.

TOC TOC

Ninguém atendeu. Bati novamente,

TOC TOC TOC

Ninguém respondeu de novo. 

Estava quase indo embora quando escutei uma voz baixinho e chorosa dizendo:

- Quem é? 

- Oi, meu nome é Chaleira e sou seu vizinho. Gostaria de saber se está tudo bem e se você gostaria de um pouco de comida. 

- É muita gentileza sua, mas está tudo bem aqui, obrigada. 

- Sério mesmo, não quer um pouquinho de arroz, feijão, um pedaço de bife e um ovo frito? 

- Não mesmo, moço, to de boa. 

-Eu posso trazer, moro logo no andar de cima. 

- Não, meu querido, eu to bem, não precisa de nada, não. 

- E um xis do Cavanhas com fritas, que tal? Busco pra você.

- É muita gentileza mas vai ter que ficar pra próxima, amigão, hoje não vai rolar.

Não entendi muito bem o que aconteceu, mas voltei para casa e escalei o meu time para a próxima rodada do Hattrick. 

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SOCORRO, MINHA IRMÃ É UMA VAMPIRA

Bem, eu não sei se já contei isso para alguém, mas quando eu era apenas uma criança pequena eu tive a experiência mais inexplicável da minha vida - foi tão inexplicável que ninguém soube explicá-la na época. Tudo começou quando eu tinha nove ou dez anos e meus pais, que há anos tentavam ter um novo filho, resolveram adotar uma criança. Depois de fazer as provas necessárias, que incluía prova de língua estrangeira e avaliação do projeto, meus pais conseguiram adotar uma linda menininha de sete anos chamada Beatriz. Depois de fazer as vacinas necessárias, meus pais trouxeram a doce Beatriz para casa.  

No começo eu estava muito feliz, pois sempre quis ter uma irmãzinha para brincar, mas minha mana foi ficando cada vez mais estranha. Ela vivia sempre vestida de preto, só saia de casa a noite, só escutava The Cure e era fã de Crepúsculo. Em um chat na internet (rede mundial de computadores) me falaram que ela poderia ser uma vampira. Eu nunca acreditei em vampiros. Sempre achei que vampiro era uma invenção do capitalismo como Papai Noel, Jesus Cristo e o pós-estruturalismo. 

Até hoje eu tenho dificuldades em acreditar no que aconteceu, mas um certo dia de noite minha irmãzinha entrou na sala enquanto eu assistia a noite de eliminação na Fazenda e disse: 

- Mano, você acredita em vampiros? 

- Lógico que não, né, Bê...

- E se eu te falar que sou uma vampira?

- HA HA HA que imaginação você tem, mana. 

Foi então que ela abriu a boca e me mostrou aqueles dentões enormes e eu gelei de medo, fiquei branco dos pés até a cabeça, fiz xixi nas calças e sai correndo. Corri, corri, corri e depois corri mais um pouquinho. Quando cheguei na pracinha que tem perto da minha casa, parei para tomar folego, virei o rosto e minha irmã estava lá do meu lado. Juro, ela apareceu do nada. E ela me disse: 

- Calma, Chaleirinha, vamos conversar. 

Então ela colocou as mãos em mim e eu desmaiei. 

Quando acordei, dois dias depois, eu estava num orfanato e todos me diziam que fui parar lá porque meus pais haviam morrido, minha irmã havia sumido e eu havia sido encontrado desacordado no chão da praça dois dias antes. Aí eu levantei da cama apavorado e disse que quem tinha feito tudo aquilo era minha irmã Beatriz. Falei que ela era uma vampira e que voltaria para me pegar. E todos ficaram rindo de mim e alguém falou: 

- Ha ha ha tua irmã é uma vampira?

- Sim, eu juro!

- Então fala isso pra ela...

Então ela saiu detrás da cortina com aqueles dentões e toda coberta de sangue e eu desmaiei de novo e só acordei quinze anos depois já adulto e numa clínica para doentes mentais e me disseram que eu nunca tive irmã, que sou filho único e que matei meus pais quando era criança e que tenho problemas na cabeça e por isso imagino coisas. Só que eu sei que não sou doente e que tudo isso aconteceu comigo de verdade, por isso escrevi essa história, para o mundo saber que eu não sou louco. Por favor vocês precisam acreditar em mim. Repassem essa mensagem até chegar ao Senado. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sobre a chuva fria de Porto Alegre

Eu não consigo suportar o silêncio e o apartamento quieto por muito tempo, então fecho o livro que leio enquanto olho pela janela e penso qualquer coisa sobre esse tempo louco de Porto Alegre. O dia tão estranho, tão cinzento, tão ambíguo, tão proustiano. Chove? Ainda não, mas é certo que vai chover. É o inverno suspenso no ar de Porto Alegre e divertindo-se às nossas custas. Ou nos querendo. Vocês concordam? Vocês acreditam que o inverno nos queira? Pois eu acredito, é claro que acredito. O frio, o vento, a garoa, o gato dormindo no colo, tudo é terrivelmente carinhoso que parece que te devora. Como a cidade, como o tempo, como o ser, como as mães, como as mulheres, como os amigos, como quase tudo neste mundo. Te querem para te ferrar melhor. E se nevasse eu acreditaria ainda mais. E seria mais bonito. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Às vezes a raiva simplesmente me sufoca. Outras vezes parece que ela me fortalece e se expande com o passar do tempo. Tenho um medo terrível de ser visto, notado e reconhecido. Uma sensação contínua de que eu sou uma mosca perante todo mundo, desnecessária, humilhada e ofendida. E todas essas torturas e torturazinhas acrescentam um sabor especial à minha raiva. Às vezes eu consigo até me embriagar com minha raiva. Há certas horas que a vida parece um colega chato que a gente atura porque não dá para ficar invisível. Quando faço tudo diferente, tudo acaba igual. Queria pelo menos uma vez me dar ao luxo de não sentir nada. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

saka saka saka saka saka saka sakamoto

saca muito o sakamoto 
me convenceu a dar uma boneca barbie para um garoto 
não saca pouco o sakamoto 
pena que o guri ficou puto e me deu um soco no escroto 

saka saka saka saka saka saka sakamoto 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Não é pelos vinte centavos, é por que eu te amo

Não, não é por que eu fiquei em último lugar na seleção de doutorado, nem por que acabei ficando sem bolsa. Não é por que derramei café na roupa bem agora que estou saindo, nem por que ontem me atrasei para o cinema e perdi o comecinho do filme que eu queria muito ver. Não é por que eu não acho o papel no qual fiz aquela anotação importante sobre Ser e Tempo e nem por que não lembro o número do telefone que preciso discar. Não tem nada a ver com o fato de eu não saber mais sobre o que estou pesquisando e eu ter quase certeza que não conseguirei terminar o doutorado.  Tampouco é por que está muito frio e eu estou com saudade de algumas pessoas que estão longe.

Não é pelos vinte centavos, é por que eu te amo. Não tenho dúvidas que gosto de você e que daríamos certo juntos. Com você meu mundo ficaria finalmente completo e eu sou capaz de ver nossos filhos correndo e brincado e depois crescendo e depois nos dando netos. 

O problema é que eu te amo. Perto disso a tarifa do ônibus não significa nada. A fome que mata e devora tantas e tantas pessoas no mundo não tem importância nenhuma. A morte, a nossa mãe invisível, já não me preocupa. As derrotas do Grêmio e o fato de ele estar há mais de dez anos sem ganhar um título importante nem me incomoda mais. Os livros e as anotações em cima da mesa perderam completamente o seu sentido. As horas, os dias, os acontecimentos passam sem deixar o menor vestígio. As ofensas e as mentiras entram por um ouvido e saem por outro. Minhas notas caíram bastante semestre passado, mas para esse tipo de aborrecimento eu já nem ligo. Não é por que eu quis, mas é por que eu te amo. 

O problema é que eu te amo! Não tenho dúvidas de que eu queria estar mais perto. Juntos viveríamos mais de mil anos porque o nosso mundo estaria completo e perfeito feito um rinoceronte. Eu vejo nossos filhos brincando com seus filhos, que nos dariam bisnetos que brincariam com seus próprios filhos.  

Não é por que sei que você não virá que eu não escute o interfone tocando. Não é que eu esteja procurando no vazio do nada um pouco de sentido para andar comigo. O problema é que te amo. Não tenho dúvidas e não quero mais guardar segredo. Juntos morreríamos e o mundo sem a gente seria um deserto de espaço e de tempo, como o mundo desaparece quando morre o Dasein. Eu vejo os filhos dos filhos dos filhos de nossos filhos brincando. 

O problema é que eu te amo. Não é por que você não está aqui que eu não possa dizer que te amo. 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Emily Thorne da Cidade Baixa (entre Puntel e Plasil)

Quando você passou por mim, atravessou o meu corpo, como se eu fosse um fantasma, ou você uma miragem. Com um vestido vermelho, cabelos loiros e cacheados, tão bonita que parecia fazer parte da abertura de algum seriado americano. Enquanto isso, na Lima e Silva, as pessoas estavam se divertindo loucamente e, em algum canto da cidade, um leproso, na cama, atirava o dedinho na porta para chamar a enfermeira que estáva ao celular no corredor do hospital. 

Eu duvido da existência de indivíduos que vivem a vida intensamente e se divertem loucamente como Benjamin duvidava da existência do progresso na História com H maiúsculo. Como se mede a vida para se dizer que ela é vivida intensamente?  Existe um bafômetro para isto? Ressaca e fotos. Estou perdendo o foco, parece.

Eu não sei o seu nome, então vou te chamar de Emily. Emily você é tão linda, tão cheia de vida e de cabelos. Aceita comer miojo de galinha caipira comigo no almoço de domingo, Emily? Quando você se afastava, o formato do seu rosto se distorcia e você ia ficando cada vez mais bonita e bonita. Você é, talvez, a menina mais bonita que eu já vi na minha vida. 

Desculpe se estou enrolando, é que estou preocupado. As pedras que eu atiro pela janela não caem na cabeça de ninguém. Já penso em usar objetos mais pesados: tijolos, panelas, Estrutura e Ser. Algumas pessoas merecem Puntel na cabeça. Se eu conseguisse acertar Tugendhat já ficaria feliz. Mesmo Heidegger aqui do quarto andar já causaria algum traumatismo. 

Emily, sabe como eu ando me sentindo desde que te vi? Peixinho preso num aquário. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Apaixonado por aquela pessoa ali

Gilson é do tipo que se apaixona rápido. Assim que apareceu uma pessoa um pouquinho mais simpática na sua vidinha podre, apaixonou-se, como tantas outras vezes se apaixonara por pessoas que foram um pouquinho mais simpáticas com ele. Por não estar acostumado a isso, por não estar acostumado com as pessoas sendo legais com ele, apaixonava-se por cada uma que o convidasse para passar algumas horas em sua companhia num bar no sábado à noite ou passear num domingo de sol. Encontravam-se, conversam, bebiam, e Gilson acreditava que aquele momento era único, pois conversava com uma pessoa que era legal  com ele e se interessava por sua vidinha podre. Mas a pessoa se interessava pela vidinha podre de Gilson como alguém se interessa por uma revista velha na sala de espera de um consultório médico. Gilson não sabia disso. Então ele se apaixonava. Contava detalhes insignificantes de sua vidinha podre entre um chopp e outro, falava de seu trabalho ridículo entre um drinque e outro. Quando bebia demais, dava quase para ler em sua testa que estava apaixonado. Ele mesmo dizia, para todo mundo e para a pessoa, que estava apaixonado. Os outros, que nunca estavam realmente interessados nele, não podiam fazer outra coisa do que ignorar. Ouviam, surpresos, aquela revelação e depois tratavam logo de colocar tudo em ordem. Explicavam que entre eles não poderia haver outra coisa que não amizade. Então acontecia com Gilson algo muito estranho, para não dizer absurdo. Uma grande raiva o dominava, e ele, de uma hora para a outra, desprezava as mesmas pessoas que antes gostava. Dizia que era melhor dar um tempo nas cervejas e nos encontros. Na verdade, não queria nem mais vê-las na frente. Assim do nadinha, a pessoa por quem estava apaixonado lhe era repulsiva. Não conseguia nem pensar nela sem sentir algum tipo de nojo. Dizia que precisava se afastar, que queria um tempo, mas nunca voltava. A amizade acabava ali. E hoje Gilson continua procurando uma pessoa que seja legal com ele e que se interesse por sua vidinha podre.