quinta-feira, 29 de maio de 2014

A Morte e o Dasein

Por fora, sua casa nem vale a pena detalhar: se parecia com qualquer outra. Uma cerca, um pátio com jardinzinho, janelas, porta... Por fora ela não tinha mesmo nada de extraordinário. Todas as casas da praia se pareciam. Na parte de dentro, na sala, as paredes estavam cobertas de livros. Os livros ainda se amontoavam sob a mesa e nos cantos da sala. Havia livros em todas as partes. Era uma casa cheia de livros, cheia de presenças, cheia de chamadas ao desconhecido. Foi naquela sala que Dasein havia aprendido a ler, a fumar seus primeiros cigarros e a contemplar o mar pela janela. Gostava de olhar pela janela e imaginar a viagem dos barcos, gostava de pensar que eles visitavam os lugares mais escondidos do mundo. Dasein era um homem honesto e, além disto, o melhor relojoeiro da vila. Com bom cuidador do tempo, ele sabia que um dia ou outro teria que despedir-se desse mundo, mas quase sempre estava tão ocupado consertando seus relógios que não parava para pensar sobre o terrível dia em que morreria. Até certa manhã em que a campainha da porta soou de uma forma peculiar. "Deve ser ela", pensou. E como em um sonho, se levantou da cadeira com seus setenta e seis anos e foi abrir a porta. A única coisa que lamentou era, por não ter nunca se casado, não ter um filho para perpetuar seu nome e sua memória e ainda chorar por sua ausência. "Isso acaba hoje", pensou o velho Dasein, que abriu a porta resignado. 

A primeira coisa que viu, depois de abrir a porta, foi o mar e alguns pescadores, pequenininhos, jogando redes ao calor do sol. No entanto, usando a mão para tapar a luz do sol, pôde perceber a silhueta da velha mulher que estava diante da porta. 

-- Eu sou a Morte -- disse a senhora. 

-- Eu sei, reconheci o seu jeito de tocar a campainha -- concordou o velho relojoeiro. 

A Morte entrou na casa com passos lentos e cansados, e Dasein aproveitou para observá-la com atenção. Ela era muito mais velha do que ele havia pensado. Mais alta também, e tão feia que podemos assegurar que faz de tudo para não ser vista. Parecia muito cansada e aflita. Andava encurvada, como se tivesse todos os anos do mundo nas costas. Fazia lembrar uma velha camponesa apoiada em seu cajado. 

-- Trabalhando muito, senhora? -- perguntou.

-- O de sempre -- respondeu observando a mesa em que o homem montava e desmontava os relógios. 

-- Creio que eu já não tenha tempo para mais nada. A gente nunca sabe no meio de qual relógio a Morte vai nos pegar. Esse daí eu estava quase acabando. 

A velha concordou balançando a cabeça. Lá fora, na praia, se respirava uma brisa muito agradável. "Ela é estranha", pensava Dasein, que depois compreendeu que não podia mais perder um único segundo. Correu e pegou o único casaco que possuía.

-- O que fazes? -- perguntou a Morte. 

-- De noite costuma esfriar e imagino que temos um longo caminho pela frente. 

-- Faça como preferir -- disse a Morte respirando fundo como que para tomar forças. 

-- Pelo menos me deixe terminar esse relógio... 

A Morte concordou e Dasein voltou para suas ocupações decidido a não perder mais um segundo do seu precioso tempo. No começo era difícil concentrar-se com a Morte na sala, mas com o tempo Dasein pensou que a vida com a Morte em casa não era nada diferente de sua vida comum. 

Ele continuou montando e desmontando o seu último relógio. Já há algum tempo que havia descoberto que já não era mais tão habilidoso com suas ferramentas e, com frequência, cometia erros e perdia peças que o faziam desmontar e começar tudo de novo. Porque por mais que Dasein trabalhasse em seus relógios com cuidado e atenção, quase sempre chegava o momento em que alguma peça faltava. Não poucas vezes em sua vida, ele abandonou pequenos relógios de pulso e grandes relógios de parede no meio do seu trabalho. "Por que continuar a medir o tempo se para mim o tempo não existe mais?". 

-- A senhora deve estar cansada. É melhor irmos.

Olharam-se pela primeira vez nos olhos. Agora a velha senhora não parecia mais perplexa e cansada. 

-- Dê-me a mão. Não tenha medo. Eu te ajudarei -- disse a Morte. 

-- Leve-me para onde quiser -- disse Dasein dando sua mão para a Morte. 

Cruzaram a porta, saíram da casa sem se preocupar em fechar a porta. Na beira da praia, pescadores recolhiam suas redes de baixo do sol. A Morte e o Dasein nem ligaram para eles. Andavam juntos, de mãos dadas, apoiando-se um no outro em um lento caminhar. Pareciam dois namorados, tão juntos que iam. Ou dois velhos amigos que não se viam há um tempo mas que agora estavam reunidos ao fim e para sempre. Tudo atrás dos dois sumia: os relógios, a casa, os pescadores, a praia. Ficava um grande vazio. Tudo desaparecia e a Morte e o Dasein se dirigiam a um ponto longe no final do caminho. "Para onde vamos agora?"" Como é o lugar para onde vamos?" "É inútil perguntar", pensava o velho relojoeiro. E ele tinha razão. A morte permitia perguntas, mas não dava respostas. Nenhuma palavra mais ela diria. 



segunda-feira, 28 de abril de 2014

Existe uma piada não muito politicamente correta de um português que vem andando por uma rua, vê uma casca de banana e fala: Ai, Deus, vou ter que cair de novo. Então não adianta ter medo. Afinal de contas, em algum momento tem que acontecer. Não é mesmo? E por que não dizer que muitas vezes nós torcemos para ser o quanto antes? Mas eu não posso falar por você, mosca morta, que tem mais medo do que vontade. Puro clichê, o medo. Estamos sabendo. Não, não olhe para o chão enquanto eu falo com você. Que algum idiota acredite nisso, tudo bem; mas não nós. E enquanto eu falo, você fica olhando para o chão como se tivesse derrubado alguma coisa. Juro que se pudesse ajudar a pegar, eu ajudaria. Mas uma coisa é fingir para os outros, outra coisa é fingir para mim. Outro fracasso, ou melhor: dois. Os dias passando e a certeza inesquecível de que não há em algum lugar um amigo, uma casa, um livro, nem mesmo um vício, que possa te fazer feliz. Mas eu estou falando dos pequenos fracassos. Porque o fracasso total já seria uma alegria. Nada me assusta mais do que uma série de pequenos fracassos. Nenhum grande o bastante para se lamentar, mas todos mostrando que há um padrão que os comanda. Você espera alguém? Não qualquer pessoa, mas uma que antecipe a sua fantasia e mostre que a realidade a supera. Que te dê a totalidade do cosmos. Alguém com seis braços, três olhos e dez tentáculos. Você continua olhando para baixo enquanto eu tento falar com você. Dê no que dê, desde de que dê em algo. Você é minha casca de banana. 

domingo, 27 de abril de 2014

É como se eu tivesse perdido a confiança em praticamente todas as coisas. É como se eu tivesse perdido a capacidade de controlar o meu próprio destino. É como se uma entidade tomasse posse de mim. Ela me faz sorrir, me estimula a agir, me faz dizer coisas e ter esperanças, e depois me atira contra a parede. Eu me sinto com um personagem de uma narrativa de Onetti cujo desfecho eu não posso alterar. Você fez com que eu me arrependesse de em algum momento ter acreditado no livre-arbítrio. 

Eu acho que em algum lugar na psicanálise, está dito que certos tipos neuróticos quando tentam gostar de uma mulher, inconscientemente fazem de tudo para afastá-la. Então é sempre uma escolha que é escolhida porque necessariamente vai fracassar. Eu acho que essa maldição psicanalista caiu sobre mim. 

O problema das maldições é que ser consciente delas não ajuda em nada na hora de evitá-las. Édipo foi avisado pelo Oráculo de que mataria o seu pai e casaria com sua mãe. No entanto, esses avisos não serviram de propósito algum. Édipo sai de casa para evitar a maldição prevista pelo Oráculo. Mas acaba, mesmo assim, casando com sua mãe e matando o seu pai. Ele já sabia dos resultados, conhecia os perigos, mas nada deveria mudar: a maldição é sempre mais forte que a consciência 

Minha maldição psicanalista me impede de preferir relacionamentos que podem ser felizes. Eu só sou capaz de querer quem deve necessariamente se afastar de mim. Vagando assim pela terra até o dia da minha morte. Só que saber disso não mudar nada para mim, e isso porque: a maldição é sempre mais forte que a consciência. 

sábado, 12 de abril de 2014

Josso Aires entrevista um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira

Programa do Josso Aires. No palco, Josso Aires entrevista o escritor Chico de Jesus. Banda do programa toca o tema de abertura. Josso Aires interrompe a banda e começa a entrevista. 

Josso Aires: Uooooou. Hoje no Programa do Josso Aires vamos conversar com Chico de Jesus, um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Isso é correto, Chico?

Chico de Jesus: É verdade, Josso. Eu sou absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Realmente é notável que uma pessoa tão jovem quanto eu já seja tão insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. 

Josso Aires: Por exemplo, em qual área da literatura brasileira você é absolutamente insignificante? 

Chico de Jesus: Poesia. O meu trabalho na poesia é absolutamente insignificante para a poesia brasileira. 

Josso Aires: Ora, então você é poeta, Chico? 

Chico de Jesus: Claro que sou, Josso. Tenho um bigode e cabelo bagunçado. 

Josso Aires: Mas para ser poeta basta ter um bigode e cabelo bagunçado? 

Chico de Jesus: Não, claro que não. Essa é uma visão bastante reducionista do que é ser poeta. Além do bigode e do cabelo bagunçado é preciso descuidar sistematicamente da higiene pessoal. E essa é outra característica que eu tenho. 

Josso Aires (fazendo cara de nojo): Eu já tinha reparado. Então tenho que te perguntar: que diabos de cheiro é esse, Chico?  Como é que se consegue esse fedor tão singular? 

Chico de Jesus: Ora, Josso, imagine que você jogou uma hora de bola sem parar. Há suores que escorrem pelo peito e ficam alojados na zona pélvica, e assim convivem um pouco com o fedor do saco (é fundamental trocar poucas vezes de cueca). Por outro lado há suores que escorrem pelas costas, alimenta-se com o fedor do cu e se juntam com o outro suor, formando um cheiro só. Então o meu fedor é justamente uma junção desses dois suores. 

Josso Aires: Portanto, recapitulando: há dois suores, há saco e há o cu. 

Chico de Jesus: Perfeitamente. 

Josso Aires: Mas permita-me dizer, Chico, que eu noto aí também um pouquinho de chulé. 

Chico de Jesus: Esse é o meu diferencial. Todos os poetas têm um diferencial e esse é o meu. É impressionante que eu tão novo já feda dessa maneira. 

Josso Aires: É impressionante mesmo. Mas, Chico, como foi a recepção de seu primeiro livro de poemas? 

Chico de Jesus: Alguém já escreveu, Josso, que se trata do melhor livro de poemas brasileiro de todos os tempos. 

Josso Aires:  É mesmo? E quem escreveu isso? 

Chico de Jesus: Fui eu mesmo, ontem. Ontem eu postei isso no meu facebook e ainda terminei com um emoticon sorrindo, para ficar mais simpático. 

Josso Aires: Chico, você se importa de declamar um dos seus poemas para a gente aqui no palco? 

Chico de Jesus: De forma alguma, seu Josso. 

Chico de Jesus vai até o centro do palco, A iluminação diminui e toca uma música calma de fundo. 

Chico de Jesus: Esse poema eu escrevi em razão da trágica morte de minha mãe em um acidente de trânsito. Ele se chama "Minha mãe". E é assim: 
Oh, 
Minha mãe. 

Chico de Jesus volta a sentar no banco de entrevistados. Josso Aires faz cara de quem não entendeu. Alguém tenta puxar uma salva de palmas da platéia, mas que ninguém acompanha. 

Josso Aires: Este é seu poema? Ele consiste em duas palavras? 

Chico de Jesus: Bem, Josso, se a gente contar a declamação "oh" no começo são três palavras. É impressionante que uma pessoa tão nova possa escolher tão bem as palavras. 

Josso Aires: Você poderia declamar outros de seus poemas?

Chico de Jesus: Mas é claro! Tem um que eu particularmente gosto muito e se chama "Meu tio". 

Chico de Jesus vai novamente para o centro do palco. A luz baixa e começa a música de fundo. 

Chico de Jesus: 
Oh, 
Meu tio. 

Josso Aires: Tenta mais um, eu quero ver até onde isso vai. 

Chico de Jesus: Certo, Josso. Agora vou declamar meu poema que se chama "Meu primo que eu nunca vejo mas que mesmo assim aparece sem ser convidado no Natal e bebe e come de graça a noite toda". 

Oh
Meu primo
que eu nunca vejo mas que mesmo assim aparece no Natal sem ser convidado e bebe e come de graça a noite toda.

Chico de Jesus volta para seu lugar. 

Josso Aires: Realmente é muito tocante o seu dom com as palavras. Mas vamos falar de outra área da literatura brasileira em que você é absolutamente insignificante. Você também é jornalista, certo? 

Chico de Jesus: Não só sou jornalista como sou o jornalista mais premiado entre aqueles que nasceram em setembro de 85. 

Josso Aires: Como? 

Chico de Jesus: Eu sou o jornalista mais premiado entre aqueles que nasceram em setembro de 85. Tenho dois prêmios para as reportagens que fazia para o jornalzinho da escola e um segundo lugar em uma competição de comer tortas. Ainda tenho uma menção honrosa em um campeonato de construir castelinhos na areia da praia. É realmente impressionante que alguém tão jovem quanto eu já tenha sido tão premiado.

Josso Aires: Como jornalista, qual a sua opinião sobre o seu trabalho como poeta? 

Chico de Jesus: Eu, como o jornalista mais premiado nascido em setembro de 85, acho o meu trabalho como poeta uma bosta. 

Josso Aires: Certo, Chico. Mas além de poesia e jornalismo, qual outra área da literatura brasileira você é absolutamente insignificante? 

Chico de Jesus: Bem, Josso, eu creio que posso afirmar com certa segurança que eu também sou absolutamente insignificante para o romance. Quando eu escrever meu terceiro romance, minha consagração... 

Josso Aires (interrompendo): Sem querer interromper mas já interrompendo: não sabia que você já escreveu dois romances. 

Chico de Jesus: Não, não. Nunca escrevi nenhum. No entanto isso não me impede de afirmar que o terceiro será a minha consagração. Esse enunciado possui condição de verdade. Meu primeiro romance fará um relativo sucesso entre o público, mas será massacrado pela crítica (que vai me julgar superficial demais). Já o segundo será adorado pela crítica mas ignorado pelo público (que irá me achar pretensioso demais). Já o terceiro irá agradar tanto a crítica quanto o público e assim irá me consagrar. Mas você pode ter certeza que apesar disso tudo serão livros absolutamente insignificantes para a literatura brasileira. 

Josso Aires: E no que mais você é absolutamente insignificante para a literatura brasileira? 


Chico de Jesus: Sem nenhuma dúvida eu sou absolutamente insignificante também para a escrita humorística brasileira. 

Josso Aires: Fale mais sobre isso. 

Chico de Jesus: Olha, Josso, eu criei um estilo completamente novo para a escrita humorística que é a escrita humorística que não é engraçada de forma alguma. Antigamente a gente lia um conto de humor e ria. Mas nos meus contos isso não acontece. Eu mesmo já estive em velórios bem mais engraçados do que os meus contos, incluindo o da minha mãe. O que eu escrevo realmente não tem graça nenhuma, nenhuma mesmo. 

Josso Aires: Chico, o papo tá muito bom, mas eu tenho tempo apenas para mais uma questão. Destaca-se muito essa sua expressão facial. Você poderia explicar o que ela significa? 

Chico de Jesus: É uma boa pergunta, Josso. Primeiro eu gostaria de dizer que eu sou a pessoa mais jovem a ter essa expressão facial. E ela significa (câmera foca no rosto do escritor) : aqui nos olhos, um pouco de preocupação, em razão da futilidade da vida humana nas grandes cidades; aqui no canto da boca tem um toque de ironia e cinismo, em razão do meu pessimismo em relação ao futuro humano; e aqui na zona do maxilar é tudo zoeira mesmo porque eu to pouco me fodendo para o mundo e para as pessoas. Isso para que, quando eu fizer uma piada em alguma mesa de bar, quando largar um trocadilho espirituoso, como quem não quer nada, eu mostrar uma ironia, mas ponderado pela preocupação. E isso por que o escritor sabe que o mundo está cheio de problemas, no entanto ele não pode perder seu jeito espirituoso 

Josso Aires: Hum, talvez eu consiga também ter esse semblante. Vou tentar, diga como me saio. 

Câmera foca agora no rosto de Josso Aires, que começa a fazer caretas bizarras. 

Chico de Jesus: O segredo está no franzir da testa, Josso. 

Josso Aires: Não sei se estou conseguindo. Estou expressando angústia? 

Chico de Jesus: Apenas um pouco, Josso. 

Josso Aires: Sabe o que está me acontecendo? Eu realmente sinto aqui nos olhos preocupação porque o mundo está difícil, mas por outro lado eu não consigo ficar ao mesmo tempo espirituoso. 

Chico de Jesus: Pois é, precisa da ironia, só preocupação não basta. 

Josso Aires: De qualquer forma não temos mais tempo. Eu conversei hoje com Chico de Jesus, um escritor absolutamente insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. 

Platéia interrompe fazendo "aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah" 

Josso Aires: Eu também gostei, ele realmente é insignificante para todas as áreas da literatura brasileira. Depos do intervalo iremos conversar com Jan Santiago, o doutarando em filosofia brasileiro que decorou mais termos fenomenológicos desnecessários em alemão. Até mais e um beijo do gordo, uooooooooou. 

Banda volta a tocar. Sobe a vinheta. Final do bloco. 






domingo, 6 de abril de 2014

se todas as meninas do mundo
tivessem o mesmo corte de cabelo 
o teu ainda seria 
o mais bonito. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Um conto de fadas sobre uma princesa amaldiçoada que lê Oscar Wilde, uma rainha malvada, um espírito zombeteiro da floresta e um príncipe corajoso porém não muito esperto

Princesa Uno era a bela e pura princesa do reino Lebenswelt. Seu principal passatempo era passear pela floresta, conversar com os animais, fazer amigos no bosque, abraçar uma ou outra árvore e citar Oscar Wilde em momentos inesperados. Então ela abraçava um tronco, respirava fundo o ar puro do bosque e exclamava: huuuuuuumm pelos deuses, que cheirinho bom de natureza! 

O que a doce princesa Uno não sabia é que a rainha Sylvia, sua madrasta, já estava de saco cheio de sua beleza e de sua mania de citar Oscar Wilde no meio do jantar para mostrar ironia e erudição, e por isso fez um acordo com um assustador espírito da floresta para matar a jovem princesa. Assim, um belo dia, Uno estava saltitando e cantando pelo bosque com seus amigos animais quando viu que, encostado sob a sombra de um salgueiro, estava sentando um mendigo todo maltrapilho. Ouvindo os passos e a cantoria da jovem, o mendigo dá um salto, parando em pé, na frente da princesa. 

-- Olá, bela princesa, como você está? -- disse o mendigo se curvando em reverência.

-- O que quereis comigo, ó seu mendigo? Todo o reino já sabe muito bem que eu não suporto mendigos. Tenho ojeriza à plebe e só no ato de senti-lo à tão perto assim de mim já posso sentir o cheiro insuportável desse seu saco que não deve ser lavado há décadas! Pois então diga logo, mendigo, o que quereis com a vossa princesa. Quero logo me afastar desse seu semblante escroto para o resto de minha vida. 

-- Primeiramente, minha princesa, gostaria de dizer que não sou um mendigo e sim um cidadão legítimo do reino em condição de morador de rua. Depois gostaria de dizer que sinto orgulho em não ser um nobre e em pertencer à plebe, pois assim não sou um escravo do dinheiro. 

-- Ora, senhor mendigo, eu, assim como o Wilde, quando jovem pensava que dinheiro era tudo o que importava. Hoje, tenho certeza. 

O mendigo se espantou um pouco pela citação forçada de Oscar Wilde feita pela princesa, mas seguiu a conversa: 

-- Ó que os deuses me abençoaram com a oportunidade de presenciar a princesa realizando suas famosas e espirituosas citações de Oscar Wilde! Sinto que mais nada posso lhe pedir, nobre princesa, mas gostaria tanto de uma moeda de ouro para comprar uma pedra de crack. 

Depois o mendigo estendeu a mão suja de modo que a princesa pudesse depositar nela uma moeda de ouro. 

-- Ah, então é ouro que queres? Pois vá carpir um lote, recolher um lixo, vá trabalhar, velho insolente. Apenas não esqueça, pobre mendigo: deve-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência -- disse a princesa Uno antes de seguir com seu passeio pelo bosque. 

Enquanto a princesa se afastava, aos poucos o mendigo foi sendo envolvido por uma fumaça negra e revelando-se um ser horrível e cruel, cuja face exibia um sinistro sorriso de intensões malignas. "Preciso avisar a rainha que o trabalho foi feito" -- pensou a sombria criatura. 

Chegando ao castelo, a princesa Uno estava muito pálida e começou a passar muito mal, sentiu forte dores de barriga, revertérios e tremeliques por todo o corpo. Minutos depois já estava deitada na cama, toda coberta de suor, pronta para o pior e matando o rei Ziles de preocupação. 

-- Você vai sair dessa minha filha, você vai viver -- disse o rei de joelhos ao pé da cama.

-- Viver é a coisa mais rara que existe, papai, pois a maioria das pessoas apenas existe. 

-- Minha filha está doente e pode morrer, pelos deuses. Guardas, chamem o curandeiro Silas, o mais sábio médico e padeiro do reino. Só ele poderá salvar a minha Uno. 

Chegando nos aposentos da princesa, o curandeiro Silas bateu o olho na moça doente e logo exclamou: 

-- Pelos Deuses, meu amado rei! Estamos diante de uma maldição de algum espírito zombeteiro da floresta. Queridão, sua filha está sob encantamento de um poderoso espírito que viva na parte negra da floresta. 

-- Vixe, então já era. 

-- Calma, meu adorado e bom rei! Eu tenho a solução. Precisamos apenas encontrar o espírito zombeteiro. E depois precisamos colher a espiga do milho verde plantado por virgens cegas no alto da Colina da Morte, para descascar o milho e tecer uma corda com a palha. Depois devemos enforcar o espírito na palha do milho verde plantado pelas virgens cegas da alto da Colina da Morte. Assim o feitiço será desfeito. Mas temos que ser rápidos, amigo rei, pois temo que vossa filha tenha apenas mais 24 horas de vida. 

-- Uai, se é só isso, então é fácil. Mandem chamar o matador de dragões Aramis e digam que se ele encontrar o espírito da floresta, a espiga de milho e salvar minha filha, ele irá casar com ela e será o novo príncipe.

Com a velocidade de um raio, o valente Aramis chegou ao castelo e já foi logo falando para o rei: 

-- Majestade, não tenho dúvidas de que se trata de um feitiço do perigoso espírito zombeteiro Botumba. Pegarei o milho, farei a corda, enforcarei Botumba e casarei com sua doce filha. 

O problema era que Botumba era apenas um velho maluco que nunca tinha feito mal a ninguém, mas que gostava de exibir o seu pênis para as donzelas do reino em dias de festa e de morder as coxas das prostitutas dos bordéis. Isso irritava profundamente Aramis, que há um bom tempo procurava uma desculpa para dar um corretivo no velho Botumba. 

As 24 horas restantes de vida da princesa Uno já estavam esgotando quando Aramis entra no castelo segurando uma corda feita de palha de milho e com o velho Botumba como prisioneiro. Sem pestanejar, o rei enforcou o velho ali mesmo no corredor e correu ver como se filha estava recuperada. Nadica de nada. A princesa seguia suando frio em seu leito de flores, a um passo da morte.

-- Maldito Aramis, saia daqui agora e só me volte quando estiver encontrado o verdadeiro espírito da floresta, ou o enforcado será você. 

Aramis, desesperado, saiu pelas ruas do reino enforcando todos os velhos que encontrava (ele não curtia velhos) e todas as outras pessoas com cara de espírito da floresta, pois não dava tempo de perguntar para cada pessoa se ela era uma pessoa normal ou um espírito zombeteiro da floresta. Ao cair a noite, o corajoso Aramis voltou ao castelo, desiludido por ter dizimado quase que toda a população do reino e necas da princesa ter qualquer melhora. Vendo que a doce princesa estava virada num sabugo estropiado de doente, toda ferrada e quase sem chances, Aramis reparou como o rei Ziles já era um homem velho. Sem pensar duas vezes, pegou a corda mágica feita com a palha do milho verde plantado pelas virgens cegas do alto da Colina da Morte e enforcou o rei. 

Novamente a princesa não deu nenhum sinal de melhora. Tomado pelo desespero, Aramis olhou para o lado e viu que só ele e a princesa estavam no quarto. Foi então que pensou "bem, entre eu e ela, eu tenho mais cara de espírito zombeteiro da floresta", ajeitou a forca no teto e se suicidou ao lado do corpo do rei. 

Dois dias depois outro médico foi consultado e foi descoberto que a princesa Uno estava apenas com um resfriado. O curandeiro Ziles foi condenado à forca e, duas semanas depois, a princesa Uno cortou os pulsos de tanto remorso e morreu. Todos os demais foram felizes para sempre. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Esta chuva de final de carnaval, esta chuva de arrepios, aqui tão perto deste apartamento quase vazio. Escuto os pingos na lata dos carros estacionados lá fora. Não há nitidez, nada é uma certeza. Me sinto mais cansado do que um velho. Não devemos querer segurar para sempre os segundos. Que passem. Eternidade é o que vai e some. No agora, eu esqueço. Esquecer é o jeito benjaminiano de guardar. Esses dias, no caminho do mercado, eu pensei comigo que todas as pessoas da rua tinham um sorriso no canto dos lábios, tipo um deboche coletivo. Amanhece, é dia. Pessoas, nas ruas, com os olhos abertos. Lanternas que procuram na escuridão. Quem anda por essas ruas? Quem já andou por essas ruas antes dessas ruas serem essas ruas? Imagine que bonito é vender assim suas certezas à filosofia de uma mosca verdejando vermes sobre uma carniça podre. Imagine que bonito, imagine que triste. Eu tenho um amigo monstro morando comigo no apartamento quase vazio. Ela anda agitado e fazendo barulho. Acredito que alguém levou as correntes por engano. Ou era você o tempo todo que o segurava com as duas mãos. Não sei bem o que aconteceu, mas agora ele está solto aqui dentro. E eu estou fraco. Outro dia eu fiquei com raiva só por sentir o cheiro da cidade no final da tarde. Era uma mistura de fumaça, terra e chuva. Eu não sei como o monstro veio parar aqui. Eu às vezes fico tão cheio de tudo de todos e de mim. Da cordialidade das pessoas na rua, dos livros chatos e das conversas vazias. Estou de mãos dadas com meu amigo monstro. Lutar seria uma luta inglória. Vou queimar todos os meus passaportes falsos de fuga. Vou ser detido na alfandega por tentar fugir do país sem os meus olhos. E com o coração numa maleta preta. Porque hoje eu sinto nojo de cada um dos seus charmes. E escrevi esse post para você. Para você cortar os pulsos.