quinta-feira, 25 de outubro de 2018

às vezes tudo parece bem até o momento em que você começa a fazer perguntas. por que eu escolhi essa carreira? por que não aceitei um emprego qualquer e uma vida normal com esposa e filhos? e só piora quando tu começa a pensar em como vai ser daqui cinco ou dez anos. esses dias, me fizeram essa maldita pergunta: tu sabe como vai estar daqui alguns anos? a vontade era de mandar se foder. não, não sei. muita gente não tem tempo de pensar nisso. ou morre jovem demais. de certa forma eu invejo quem morre jovem. se livrou de se tornar adulto, de declarar imposto de renda, de pagar contas, de ver seus pais envelhecerem e ter que pensar se vai conseguir cuidar deles no futuro. sinto um pouco de inveja. porque tenho sentido medo de pensar no futuro. e isso não quer dizer que me apegue ao presente. também não estou satisfeito com meus dias atuais. e, em meu passado, não vejo muita coisa digna de ser contabilizada. 

você reclama de tudo, chaleira. 

reclamar. gosto mesmo de reclamar. é isso que separa os sonhadores dos medíocres. reclamar determina o perfil dos questionadores e os afasta dos conformados.  tudo vai continuar a mesma merda se a gente não parar para reclamar um pouquinho. prefiro ficar desse lado de cá, do lado dos que reclamam. reclamar é começar a deixar de aceitar as coisas como elas parecem ser. 

tenho pensado com certa frequência em envelhecer. os velhos que eu conheço me irritam, e eu não quero ficar como eles. sempre tive uma vida não convencional: sou o único, entre meus amigos, sem uma relação estável, não sei se quero ter filhos, não almoço ao domingo com minha família. fico bastante tempo longe de meus pais -- e, quando estou perto, minha paciência se esgota na primeira hora. minha cabeça não suporta mais certas chateações. prefiro ficar na minha, distante. com meus livros e minha gata me fazendo companhia. 

a gata não me pergunta nada. pelo contrário, ela me joga na cara as maiores verdades. é isso que eu quero. quero sobreviver sem enlouquecer. pelo menos pelos próximos dois anos. 


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

medo

eu tenho visto muita gente com medo. medo de ter medo o tempo todo. e de não ter nada mais, nada mesmo, no que acreditar. medo. uma arma, brincando de roleta russa, apontada para tua cabeça. e quem segura a arma e aperta o gatilho é justamente quem tu ama.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

não estranhe a solidão. não há ninguém mais se divertindo pelas ruas. lotando os bares ou saindo das festas aos gritos. as vozes não entram mais pela janela do apartamento. não se assuste com a imagem no espelho. essa é você mesma. a maquiagem não esconde mais as marcas. traços fortes, espalhados pelo teu rosto. feiuras escondidas por trás da máscara. é assim que tu é. o perfume não disfarça mais teu cheiro podre. este cheiro é teu. a roupa não oculta mais o teu mau gosto. o silêncio, no lugar da música alta, revela as bobagens que tu sempre disse. agora todos ouvem. agora todos te conhecem. não te espante. a droga não disfarça mais o teu tédio. a bebida não tira mais o amargo da boca. esse é teu gosto. essa é você. agora todos sabem o teu verdadeiro nome. 

para tentar fugir, tu conversa. todas as quartas ou quintas-feiras, sentada em um sofá confortável, com uma desconhecida. para tratar dos teus problemas, tu diz. com o tempo contado, ela te escuta, fazendo anotações em um caderno de capa amassada. tantas horas, tantos dias. uma vida toda correndo atrás de aplausos. agora tu espera por esses encontros semanais. achando que vai ser tudo tão simples. desintoxicação. sucesso garantido. memória apagada. começar do zero. simples assim. sem precisar  encarar o rosto no espelho. suportar o cheiro podre. sentir na saliva o teu próprio gosto ruim. uma nova vida. agora, tu faz de conta. finge que eu nunca existi. apaga minhas fotos, rasga meus textos. esquece minhas mãos. todas as noites, você vomita ajoelhada sobre o piso gelado. com dois dedos na garganta. para limpar a sujeira que vive dentro de ti. rejeita o que antes já foi tua droga. me amaldiçoa como mais um dos teus erros. e agora, você tenta fugir da imagem que reflete no espelho. jura que esse cheiro não é teu. 

mas, me escute. pelo menos uma vez, não fuga. não te assuste com o espelho, com o silêncio, com o cheiro. é você. sem disfarces. sem os trapos coloridos. sem os teus truques de sempre. é o teu reflexo no espelho. foi isso o que tu sempre foi. olhe bem. tente ver, por alguns segundos. sem medo. está olhando? esta é você. nua. feito uma minhoca. 


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

talvez ninguém perceba, mas debaixo dessa pele, algo em mim apodrece. não se pode ver, mas, por trás da casca, as coisas tomam outra cor. estão em outro estado. eu escureço. é negro. ainda é pequeno, mas cresce cada dia mais, em volta da ferida. e isso explica o riso forçado, quando nada tem graça; o beijo, quando a vontade é de cuspe; o desejo de estar no lado oposto da rua, com a cabeça baixa, quando o encontro com um conhecido me surpreende. é uma mancha negra, que cresce cada dia, que explica o "tudo vai dar certo" quando eu sei que o prazo está vencendo e que o fim é inevitável. são pequenos vermes, microscópicos, multiplicando-se em meus miolos, famintos e silenciosos. e que me fazem aceitar, quando gostaria de quebrar os móveis, os vidros das janelas, rasgar as roupas, derrubar os quadros, os espelhos, os vasos. que explicam o silêncio, quando eu gostaria de gritar. é essa mancha negra, minúscula, escondida em minha cabeça. só por ainda ser pequena, que me faz suportar o ambiente, a repetição dos dias, a indiferença, a burrice, a lerdeza. enquanto ainda for pequena, consigo manter essa aparência firme e saudável. enquanto a mancha não se espalhar totalmente, como um câncer, ainda consigo um sorriso ao invés de uma ofensa. o beijo ao invés do cuspe. o silêncio ao invés do grito. o sim ao invés do não. porém, a cada minuto apodreço mais. aos poucos. estou mudando a cada dia. talvez ninguém veja. 

não sangre sobre o tapete.

não morra, idiota, não morra. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

de onde vem essa tua vontade de abismo?
o que aconteceu que a chuva secou e você não?
o que se deu para que tua vida nunca tenha sol?
o que aconteceu para a morte não ser mais suficiente?
o que foi que se deu?
to cansado de ser o adeus
e você o nunca mais.

eu esperei tanto -
tempo que nem por mim esperaria
um sinal dos céus,
um telefone tocando,
pela porta de trás, da casa vazia
não te reconheceria,
noites sozinho, noites sozinha
lembra? de tudo antes de ser?
tínhamos outros nomes.

o que foi que se deu?


segunda-feira, 23 de julho de 2018

a gente nunca foi árvore

depois de um tempo a gente se acostuma a praticamente não pensar mais no assunto. o perigo então é ser surpreendido por algum pedaço que tenha sobrevivido. sei que nem é mais amor, e, sinceramente, às vezes penso que nunca foi. é mais saudade do espaço que ela abriu dentro de mim, saudade de quem eu fui ali, naqueles olhos, naquela mão dada à minha. nos cabelos dela, que eu adorava tanto quando o vento trazia para o rosto e eu tinha a desculpa para por detrás da orelha. do rosto dela sempre quente e terno. é uma saudade que ninguém e nem o tempo amansa. mas a gente se acostuma, sim. ainda que desconfiando de tudo o que perdeu. ou vai saber se isso não é só mania de cutucar a casquinha da feriada, pra gente se sentir vivo outa vez, pra recuperá-la um pouco na lembrança do que fomos. mas a memória, com o tempo, também esfria, sabe?

o nome dela entre os lábios. se eu pronunciasse, ela ouviria? saberia dizer de onde veio aquela voz, se de agora ou do passado? ou do futuro que um dia prometemos? a imagem dela dentro de mim. essa imagem, que um dia será frágil e amarelada, me dá força pra de vez quando não odiar. a imagem relampeja e se fixa no céu da lembrança, feito primeira estrela numa noite nebulosa. 

a gente não foi árvore pra deixar crescer raiz. a gente foi barco que nunca aporta. com desejo de entrar em novas terras, novos ares, novos mundos, novas águas. dois barcos à deriva um do outro. e também um no outro? 

o problema, garota, é que a gente nunca soube ser árvore para crescer raiz.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

aqui está a rosa

nosso deserto, talvez, seja apenas a espera pela chuva. que demora, demora, demora, mas, quando chega, encontra as sementes mais fortes para florir. a melhor parte de atravessar um tempo seco é essa delicadeza em ver a vida morrer e depois recomeçar aos poucos. e então o deserto vira mar: campo de cores e flores fluindo por entre as montanhas. convidando o observador a juntar uma folha, dobra e dobrar e dobrar, até voltar à infância, quando qualquer papel virava chapéu, e, com mais uma dobra, temos um barquinho. e lançamos nosso barco frágil nesse deserto que agora é rio rodeado de flor. e ele flutua, flutua e flutua, como as nossas últimas esperanças.

da secura e do cinza, tenho certeza, se segue a chuva. que alivia o mundo de seu peso, alivia a nós mesmos de nosso próprio peso. como se as portas estivessem destravando por dentro. já agora, escuto daqui, cada flor sussurrando ao vento que trouxe a chuva: "Hier ist die Rose, hier tanze".

parece o fim do mundo, mas é só mais um começo.