sábado, 19 de setembro de 2015

Sobre quando a verdade nos constrange

Nunca ninguém aceitou a tristeza que lhe foi reservada. Nunca ninguém suportou o baque com o inevitável sem planejar uma fuga imediata. Ninguém nunca ficou parado sem reação numa dor esperando ela dar o seu último espasmo. Ninguém nunca fez nada disso. Ninguém além de mim. 

A vida inteira meus amigos me censuraram, diziam que eu me apagava demais aquilo que todo mundo evitava. Você precisa reagir!, diziam, Você só pode gostar de sofrer!, diziam também. E no final das contas, nos machucamos tanto e enfrentamos tantos perigos que merecemos sim o riso forçado no rosto, a cabeça aberta com álcool, o corpo transbordado no sexo, a autoconfiança fake no pó. Acontece que nunca me convenceram do tudo bem obrigatório, nem os propagandistas da alegra desesperada e nem as indústrias da felicidade. Muito menos as séries de televisão melosas usadas para disfarçar em nossos corpos as marcas da melancolia. A verdade não pode ser disfarçada e nem embelezada. A verdade não pode ser rejuvenescida. Se você disfarça ou foge da verdade, ela se afasta um pouco mas logo volta sob o nome de Inevitável. A verdade tem mais é que ser assumida, como uma marca de nascença -- mas não como uma marquinha charmosa que que trazemos na pele desde o útero, e sim como uma cicatriz formada lentamente na nossa própria experiência de estar jogado no mundo. Como se tivéssemos que nascer todos os dias, sabendo que isso dói. Uma cicatriz que perdeu o seu sentido, mas que continua ali, marcando, marcando apenas uma ausência. 

E quem é que pode nesse mundo se considerar o senhor do tempo para medir o prazo certo das sensações e da cura? Quem tem a autoridade para dizer quando já basta de lucidez?

Isso não é só uma atitude de abraçar o pior. Nunca senti orgulho da dor e nem tentei disfarça-la com química. Talvez eu tenha buscado, e é apenas isso, uma dor pura, sem fertilizantes. Porém isso foi só porque queria assumir o que era meu. Se a dor é o que temos de mais nosso, não devemos perder tempo sentindo outras coisas. Uma dor sem conservantes, sem trilha sonora. Pura como um contato com Deus. Que dê o que tiver que dar. Até acho que todo mundo deveria ser um pouco assim. Pelo menos assim, pelo enfrentamento, seguiríamos em frente mais honestos, mais limpos, mais expurgados, No mínimo seríamos menos prepotentes.

Sozinho, sem disfarces, não mais impelido pelos outros a buscar nas gargalhadas um amparo a todo custo, passei a suspeitar desse mundo em que, na desilusão de uma paixão recém concluída, corre-se desesperado atrás de um novo êxtase - e depois outro, e outro, e outro, encobrindo, com isso, todos os furos de nossas camadas, maquiando todos os sinais de nossa orfandade. Até que toda amargura e toda solidão se concentrem num acontecimento inevitável, cheio d angústias e com horas contadas, mas avizinhado por tantos outros cheios de obrigações e prazeres com os quais nos distrair.

É apenas por honestidade que me recuso a repetir esse movimento mais uma vez. Porque aceitar o escuro significa saltar para a nudez da morte, esta da qual fugimos a todo custo. Aceitar o escuro é, na verdade, aceitar a pureza de nossa força vital mais inconclusa. E então diante da agonia eu nunca entendi (e foi por não entender que nunca aceitei?): sempre paralisei diante de tudo aquilo que não pude controlar. E, quando paralisava, eu era como um corpo que cai para dentro. Eu olhava ao redor: via as ruas e as pessoas, via fantasias, via conversas sendo interrompidas por gargalhadas e beijos, e parecia que só eu aceitava a queda. Só eu abria o peito para escolher. Eu era único que dizia sim ou não para a vida. E, no entanto, não me sinto melhor por isso, nunca me senti especial. Pelo contrário: foi daí que veio toda minha fragilidade e minha timidez. Vem daí todo o meu estranhamento e o meu desencaixe. 

No fundo mesmo, queria era ser igual. Porque ser igual sempre me pareceu a melhor opção: os outros pareceram sempre tão mais a vontade do que eu nesse mundo. Ser igual poderia ser viver com mais facilidade, escorregar sem resignação por dentro da existência. Acontece que meu ser é pelo avesso e, constrangido pelo medo, ele prefere não se expor. Eu nunca desejei essas coisas. Nunca desejei ser rejeitado. Nunca desejei ser o espelho que reflete o que ninguém quer ver. Eu também queria um pouco de colo, um pouco de cuidado. Queria ser aceito, queria ser mais um bonitinho. Eu também queria desviar da desolação e da vertigem e buscar acolhimento. Mas confesso que havia, dentro dessa desordem a que acostumei a chamar de lar, paredes invisíveis que eu mesmo ergui sobre o terreno vulnerável aonde me coube crescer - confesso, sim, que havia ali alguma força, alguma firmeza, alguma virtude que era só minha. A isso tudo eu dei o nome de Coragem. 


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Prezada Amorinha,

Não, eu não estou te esperando, mas isso não me impede de às vezes pensar, ansioso, que quero que você chegue logo no chat. Aí eu saio correndo, ligo o computador e fico online. Mas você nunca vem. Dizem que quando a gente espera muito, nada chega. Então eu me apego com esperança aos dias em que não penso em você. Como se eu fosse, por acaso, cruzar com você na fila do supermercado ou que você fosse bater à minha porta de surpresa quando estou dormindo no meio da tarde. 

E é difícil. É difícil porque na verdade eu não sei como você é. Eu não sei do que você gosta, não sei o seu endereço. Às vezes te imagino, e é só. Te imagino com todas as qualidade que eu espero que você tenha. É errado, eu sei, e já me disseram isso. Porque de repente pode virar expectativa e expectativas eu não quero mais. Eu to cansado de expectativas. 

Queria apenas que você chegasse. Porque penso em você e penso que teria muito o que aprender com você. E de você. E, talvez, quem sabe, ensinar. Te carregaria sobre os meus ombros caso você estivesse cansada demais para subir as escadas do prédio. Te enxugaria os olhos se você chorasse. Te apoiaria estando você certa ou errada. Te esperaria o tempo que fosse preciso para você escolher uma roupa. Te deixaria o último pedaço da coisas gostosa que estivéssemos comendo. Te perdoaria caso você fizesse algo de errado (porque você teria me ensinado a perdoar). Te pediria desculpas caso eu fizesse algo de errado. Te contaria a razão da minha cara de preocupação. Te explicaria a razão pela qual acho Derrida o maior filósofo dos últimos tempos. Te acompanharia numa festa chata, se você achasse ela divertida. Iria com você aonde você quisesse ir e ficaria lá com você, caso você quisesse ficar. Te apoiaria nos teus planos, mesmo nos mais absurdos. Eu te abraçaria sempre, todos os dias. Eu te beijaria sempre, todos os dias. Te tocaria sempre que pudesse, todos os dias. Te faria sorrir todos os dias. Te faria chorar às vezes (desculpa). Eu te olharia com os olhos de quem te quer para sempre.

Sabe, às vezes faz falta não ter alguém para dividir as coisas. Ou somar. Às vezes muita coisa falta. Às vezes muita coisa sobra e eu não sei onde guardar. Eu não sei pra quem contar. Eu não tenho com quem contar. Por tudo isso quero que você chegue logo. Chegue do jeito que você é. Do jeito que você está. Para que eu não precise mais te esperar nesses dias longos e cinzas e tristes nos quais te espero. Então, se você estiver por aí no Amapá, saiba que eu estou por aqui no RS . Então se você estiver por aí, dê uma passadinha aqui no sul, e me leve, Amorinha, para o resto da sua vida. 

Despretensiosamente, 

Pitu

sábado, 22 de agosto de 2015

Garotos bonzinhos merecem nudes

O mundo, merda, o mundo. Esse mundo estranho, que talvez não seja mundo e que, no entanto, é o nosso mundo. Merda, o mundo. Respira fundo. Respira fundo. A chuva, os comprimidos, o álcool, a noite. As florezinhas azuis. Azuis. Azuis. As pessoas. Rinocerontes. Rinocerontes. Rinocerontes. As pessoas na rua escura passam em câmera lenta ao nosso redor. O cheiro da chuva nos transporta nessa viagem pelas vozes, pelas sombras, pelos barulhos, pelas bebidas e pelos silêncios de uma fauna que se desliza secreta pelos labirintos da cidade, a cidade, uma cidade, baixa. Esses labirintos cheios de espelhos quebrados nos quais não nos reconhecemos, aonde nos desencontramos e então nos damos conta de que não somos mais do que uma pequena e discreta criatura que rasteja pelos labirintos, uma criatura triste embriagada de toda a merda, de tanta florzinha azul despedaçada pela chuva, de tanto diamante que se quebra, de tanto coração que se quebra. O mundo. As ruas, O mundo. A chuva. O mundo é a grande casa de todos, uma casa por onde um dia entramos através de uma portinha e outro dia sairemos por outra. Uma casa que, apesar de tudo, nunca te fará sentir em casa, nunca te sentiras acompanhado, uma casa em que ninguém irá te receber de braços abertos, ninguém te oferecerá beijos de amor em uma noite de chuva, uma casa cheia da chuva triste dos amanheceres, enquanto teu corpo fedendo cerveja se perde na corrente da noite como uma flor no cano de um revólver prestes a disparar. 

O mundo, merda, esse mundo, esse mundo que faz a gente se sentir de algum modo como pequenos drogados alucinados que andam perdidos pelas ruas escuras que se estendem diante nossos olhos. O mundo que faz com que nossos corações latam rápido como cachorros angustiados em uma noite de foguetes e tiros. Um mundo cheio de flores destruídas pelas chuvas tristes que varrem as ruas. Um mundo que faz a gente viver como mariposas invisíveis que vão picando as flores transparentes dos corações por cima das ruas e da chuva, perguntando onde se esconde o amor, se por detrás das árvores ou das garrafas vazias. O amor se esconde por detrás das montanhas, por detrás dos aviões, por detrás do Amapa. O amor é a musiquinha triste que produzem as árvores da Redenção quando estão bêbadas às seis da manhã. O amor são duas mãos violentas que te arrancam o teu coração e o joga até as ruas, onde teu coração é pisoteado por uma multidão surda. O amor é uma chuva de flores azuis que caem sobre tuas mãos e teu rosto. 

O mundo é nossa casinha onde o amor só vem de vez em quando como um vento fugaz e silencioso, porém que sempre se vai e sempre nos deixa outra vez como o sangue cheio de álcool, cheio de turbinas, sempre nos deixa como pássaros feridos e indefesos, assustados pela chuva, assustados pela noite, assustados pelas luzes, assustados assustados assustados pela distância, sempre nos deixa e nos deixa e se vai com a chuva, enquanto nossas flores se secam se secam se secam se fodem. Merda, o mundo. 

No entanto, sempre nos salvamos de formas bastante improváveis. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

sobre gostar de alguém

moedas para o lanche caro do filho que não temos 
material escolar com lápis-tabuada que se imaginam perfumados
cadernos acompanhados de um folheto sobre o perigo das drogas
gostar de alguém é se espremer em um ônibus lotado 
vendendo um tipo de chiclé que ninguém compra.

gostar de alguém é ver as nuvens imensas suspensas lá se atropelando 
e sempre pensar que se terá um bom dia
gostar de alguém é se preparar para passar o dia andando de bicicleta roxa
quando o telefone toca você saiu na rua de pijama. 

gostar de alguém é preferir não falar nada e imaginar por horas
você triste no ônibus e as pessoas rindo da sua camisa de banda 
e eu rindo de sua camisa de banda e rindo de suas camisas todas 
gostar de alguém é preferir não fazer nada 
a ficar procurando o seu nome no google

gostar de alguém é não gostar mais dos sábados dos domingos dos dias de semana 
gostar de alguém é não querer mais feriados não querer mais tirar folgas
gostar de alguém é querer tirar apenas um dia para dizer 
"então agora que há você o que acontece comigo?"

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O dia em que a orientação do profe Tim foi longe demais

XV Semana acadêmica do PPG em Filosofia. Greg apresentava seu trabalho sobre a desconstrução no Direito para em um miniauditório lotado de colegas, entre eles seu orientador, o profe Tim. O doutorando explicava calmamente suas profundidades no microfone da mesinha principal e todos davam ótimas risadas com suas anedotas contadas durante a apresentação, que poderia muito bem ser filosoficamente insignificante, porém era também bastante agradável de se ouvir.


-- Derrida, nooooossa, aquela lá lacrava demais hahaha. 

Todo mundo ria muito e se divertia. Greg não podia esperar para finalmente acabar o tempo da apresentação e começar o tempo das perguntas, só para ouvir os elogios rasgados camuflados de perguntas do seu orientador. 

Quando o mediador encerrou o tempo de apresentação e abriu para as perguntas foi dito e feito: lá estava o profe Tim com a mãozinha levantada pronto para fazer a primeira pergunta. 

-- Professor Tim irá fazer a primeira pergunta -- disse o mediador, passando o microfone de perguntas para o profe Tim. 

Greg se ajeitou na cadeira, deu um gole em seu copinho de água e pensou satisfeito: "me dei bem, elogia mais que ta pouco, profe". 

-- He he he, tudo bem, meu amigo Greg? Vejo que você está aqui hoje fazendo essa apresentação, na frente de todo o departamento...  - Tim percorreu todo o auditório com os olhos - Minha pergunta é bem simples, meu aluno: hoje depois das apresentações tu vai me levar pra jantar? 

-- Como assim, professor? Não entendi. 

-- Eu espero que tu me leve pra jantar pelo menos né, porque com uma apresentação dessas tu só pode ta querendo me foder. 

Os organizadores do evento lançam olhares desesperados um para o outro e Greg tenta se defender, sem jeito:

-- Pois é, professor, é que eu não sabia que o senhor estaria assistindo, senão teria preparado algo melhor...

O doutorando nem conseguiu terminar a sua resposta e o profe Tim já estava de pé na sua frente e, com um sorriso, apertava seu mamilo com um pouco de força e retrucando:

-- Me fala uma coisa aqui, seu merdinha. Só me explica uma coisa aqui, seu saco de bosta, seu liquidificador de porra. Me diz por que esse monte de estrume que tu chama de texto de filosofia não tem referência a Levinas e não tem nenhuma citação minha comentando Levinas? 

O espanto já tomava conta do auditório. Greg congelou. Seu texto de fato não tratava de Levinas e não citava o profe Tim uma única vez. Ouviu o auditório todo silenciar-se. Todos sabiam o que viria a seguir. Todos eram cúmplices das insanidades do profe Tim. 

-- Sabe o que, professor... É que nesse texto queria focar em Derrida sem misturar com Levinas... E eu não citei o senhor porque... porque... -- Nessa altura o mamilo de Greg já estava escuro como uma azeitona preta. 

Profe Tim largou o mamilo do seu orientando e começou a andar em círculos diante da platéia do auditório:  

-- Não tem Levinas então? Tu me faz sair da minha casa sete da manhã nesse frio pra chegar aqui e não escutar um ai sobre Levinas? É isso mesmo, seu estojo de pica? Tu quer que eu baixe a calça pra me fuder mais fácil? -- disse o profe fazendo de conta que iria tirar a cinta e baixar as calças. 

--Sabe o que é, professor, deixa te explicar...

-- Sabe qual é o problema, Greg? - interrompeu o professor com um grito -- O problema é que tu ta me fodendo ai e ainda nem me beijou na boca. 

O profe Tim pegou o copo de água do palestrante, afastou-se da mesa, deu um gole e atirou-o contra a parede, fazendo surgir uma chuva de cacos de vidro. Na platéia todos se abraçavam com medo. As orientações do professor Tim estava indo longe demais. 

-- Professor, hã.....

-- Cala a boca, seu arrombado. Me dá aqui esse texto, me dá aqui essa bosta de texto, Greg. Nenhuma linha sobre Levinas. NENHUMA LINHA SOBRE LEVINAS, CARALHO. Tu já botou o pau pra fora? Porque tu deve ta querendo comer meu cu né, só pode ta querendo me foder. Passa uma vaselina antes pelo menos né, irmão, Não mete no meu cu a seco assim que dói. PUTA QUE PARIU NENHUMA CITAÇÃO MINHA? NENHUMA?  

Com um chute fortíssimo o garoto-propaganda de Levinas no Brasil arremessou o texto do seu orientando para o outro lado do auditório. O professor Tim ainda começou a derrubar todos os equipamentos que estavam sobre a mesa, o que deixou todo mundo ainda mais assustado. 

--NÃO TEM ROSENZWEIG TAMBÉM NÉ, SEU CUSÃO? CLARO QUE NÃO TEM ROSENZWEIG! CLARO QUE UM FILHO DE UMA CADELA GORDA FEITO TU NÃO IA CITAR ROZENZWEIG. 

Enfurecido, o profe Tim partiu uma das cadeiras do auditório ao meio com uma joelhada. Soando muito, o levinaseano continuou:

-- "Olha só o profe Tim lá lá lá, ele só sabe elogiar, vou fazer qualquer merda aqui que ele aceita lá lá lá lá" foi isso que tu pensou né, seu bafo de pica? Me diz uma coisa, por que tu não larga a Filosofia e vai chupar um canavial cheio de rola? Custava me citar, Greg, custava? O que foi que eu te disse na nossa última orientação?

-- Pois, professor, eu pensei em citar o senhor...

-- Mas não citou né, seu bosta. Minha vontade é sair daqui agora e passar meu pau na maçaneta da porta do teu corra, seu filha da puta. 

-- No final acabei não citando...

-- PUTA QUE ME PARIU, GRAG. TU FEZ MERDA. TU CAGOU NO PAU, TU CAGOU BONITO NO PAU, TU ARRIOU AS CALCAS, SENTOU NO PAU E CAGOU BONITAÇO NELE. TU É UM MERDA. TU É UM CAGA PAU. O QUE EU FAÇO COM UM ORIENTANDO DESSES? ME DIZ, SEU FILHO DE UMA QUENGA. EU VOU CAGAR NA TUA GAVETA DE MEIAS, SEU MERDINHA. OLHA O QUE FAÇO COM UM BOSTA FEITO VOCÊ...

Profe Tim se projetava para cima de seu orientando para resolver tudo na porrada, porém foi interrompido pelo coordenador Agemir, que se colocou, como bom cristão, entre os dois; 

-- Escuta aqui, professor Tim. A gente é só colega, eu quase nem te conheço. Não batizei teu filho, nunca fui na tua casa, mas quero teu bem. Então me escuta: esse evento tu não vai estragar com tua vaidade fora do normal. Vai pra casa, Tim. Vai que é melhor. 

Observando seu colega nos olhos, Professor Tim deu algumas bufadas, caminhou de um lado para outro, e deu um soco certeiro na cara do coordenador Agemir, deixando-o desacordado na hora. Então Tim saiu do auditório mandando todo mundo se foder. Na platéia, professor Nytha abraçava professor Lipe, que já se derramava em lágrimas:

-- Calma, professor, ele foi embora. Acabou. O pesadelo acabou. 

Nisso entrou mais uma vez pela porta o profe Tim, dessa vez três vezes mais furioso e armado com um taco de beisebol. Ele apontou sua arma branca para Greg e disse:

-- Olha bem pra mim, Greg. Ta olhando, porra? Acho bom. Agora me diz com sinceridade: Que autorzinho o senhor vai citar no próximo trabalho? 

-- Hã...

-- RESPONDE, PORRA, TO MANDANDO!

-- Levinas....

-- LEVINAS E QUEM MAIS? QUEM?

-- Levinas e o senhor... 

Professor Tim juntou o texto do doutorando, balançou o papel  e disse:

-- E com esse texto aqui tu sabe o que vai fazer com ele? Tu vai enfiar ele no cu. Eu vou te botar de quatro e enfiar ele no teu rabo, página por página.

-- Professor, por favor, não precisa disso. Eu juro que vou cavar um buraco bem fundo lá na graminha e enterrar ele bem fundo. Ninguém nunca vai ler essa merda de novo. 

-- Isso mesmo, Greg -- disse Tim voltando a ficar calmo -- tu vai pegar uma pá e enterrar essa merda, mas não vai ser aqui, vai ser bem longe, que é pra garantir que nunca mais vou ver essa merda na minha vida.

-- Eu prometo, professor...

Abaixando o taco de beisebol, o professor caminhou lentamente até a saída do auditório. Diante da porta de saída, ficou em silêncio por alguns segundos para se acalmar. Após respirar fundo, virou-se novamente para a platéia e disse: 

-- O próximo orientadando que pegar hoje sem me citar, eu mato. Juro que mato.






quinta-feira, 28 de maio de 2015

quando não sei

quando não sei 
se é amor ou se é pena 
sei que é amor

imagino você aos sete anos no quintal:
da dó 
pensar no copo de coca ou suco 
que nunca dividimos 

suas fotos no face no último ano:
quantidade considerável de pena
seus sonhos de sucesso e popularidade: 
mais dó 

seus hábitos e gostos já surrados pelo tempo:
mais pena 
e um pouquinho de nojo 
seus romances anteriores: dó 

foto de festa na casa da amiga
quando você ainda estava no colégio: 
um resultado é um pouco de pena
de você com seu jeito esquisito 
sem saber se enturmar
e de mim que não me chamei rogério ou renata 
pra naquele dia te conhecer

quando não sei 
se é amor ou se é pena
sei que é amor

quinta-feira, 14 de maio de 2015

depois 
quando já não existir depois 
não existe 
só existe o agora que continua
insistente
se eu fosse um menino ou uma menina de olhos grandes 
o agora telefonaria para mim ou 
pelo menos mandaria um
whats
pra que assim a gente se gostasse no primeiro
instante 
e viveríamos dias inteiros estragados 
por detalhes e aparelhos com 
defeitos 
e despencando dos cabides
como um gênero errado de filme ou um amigo
inconveniente