domingo, 27 de janeiro de 2013

Eduardo e Mônica


Eduardo era frentista num posto de gasolina
Mônica era a filha mais bonita de uma família fina 
E mesmo tão diferentes se cruzaram de repente numa esquina
E não aconteceu nada. 

FIM


Obs.: AO ENTRAR NO ELEVADOR VERIFIQUE SE O OUTRO ENCONTRA-SE PARADO NESTE ANDAR. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

SEÇÃO CONVIDADOS - O Outro, de Adriano Continental

Olá, amigos leitores. Hoje vou novamente abrir espaço no meu humilde blog para um amigo. Dessa vez será meu querido amigo Adriano Continental que irá nos presentear com um belo conto de terror. Ele jura que a história é verdeira. Julguem por si mesmos: 

Meu nome é Adriano Continental. Sou aluno de um programa de pós graduação em Filosofia. Como todo estudante de Filosofia eu nunca acreditei em coisas sobrenaturais. Sempre pensei que todas as  supostas manifestações de fantasmas, demônios e espíritos pudessem ser explicadas pela ciência humana. Mas tudo mudou naquela ANPOF de 2012. 

Na minha universidade, eu tinha muitas dificuldades de fazer amigos. Já tinha passado para o doutorado e a maioria dos colegas não demonstrava nenhum interesse em fazer amizade comigo. No começo, eu passava os dias sozinhos, sem falar com ninguém, lendo Hegel ou Kant na biblioteca. Mas felizmente (pelo menos era o que eu pensava na época) comecei a andar com um grupo de colegas. Não poderia estar em melhor companhia. Meus colegas estudavam a ética da alteridade. Eles souberam me receber muito bem. Dois deles eram especiais: Moisés, um colega popular, querido por todos na universidade, e Gustavo (ou Gu, como os amigos o chamavam), mais discreto e contido, mas não menos reconhecido. Juntos tivemos um ótimo ano letivo debatendo e desconstruindo o outro. 

O ano terminaria com a ANPOF, maior evento de Filosofia do país. Eu não estava empolgado com as apresentações, mas os garotos insistiram para eu ir. Falaram que as festas seriam divertidas e que a Filosofia era o de menos. Na época eu os achava legais. Concordei. A cidade do evento era um daqueles centros urbanos desenvolvidos que oferecia qualidade de vida e entretenimento para quem pudesse pagar. Tudo parecia perfeito. 

Depois de apresentar meu trabalho e de tanto esforço intelectual, eu achei que seria justo um pouco de diversão. Fomos para a festa do evento. Ficamos bêbados. Foi nessa noite que tudo aconteceu. Na festa o tempo passou veloz. Hora de ir embora. Peguei um táxi junto com Gu e Moisés. Estávamos bêbados demais. Eu só queria chegar no meu quarto e dormir. Porém Gu estava muito agitado naquela noite, o que era muito incomum se tratando do discreto Gu. Completamente alterado, ele, no táxi, olhava para mim e falava:

- Adriano, tente acertar uma charada...
- Claro, Gu.
- Numa pequena cidade, um outro necessariamente só desconstrói os outros que não desconstroem a si mesmos. Logo, esse outro desconstrói a si mesmo? 
Gu e Moisés riam.
- Eu não sei, Gu. 
Eles riram mais ainda. Então Moisés, que estava mais sério e compenetrado, falou:
- É aqui, chegamos, pode parar o carro. É ali - disse apontando para um galpão. 
- Mas esse não é nosso hotel - eu falei.
- Nós não estávamos indo para o hotel, Adriano - disse o Moisés. 
- O que está acontecendo, Gu?
- Hoje - disse-me enquanto assumia o semblante mais assustador que eu tinha visto até então - hoje, Adriano, é o dia pelo qual tanto esperamos. Sim, essa noite, finalmente, nós iremos DESCONSTRUIR O OUTRO. 

Já se passava das cinco da manhã e nenhuma alma viva estava naquele galpão abandonado. Eu falei para os garotos que aquilo não fazia sentido. Que o Outro era apenas um conceito para se pensar na ética. Mas eles estavam decididos. Eu estava com medo e não sabia o que iria acontecer. A luz era fraca, apenas uma lâmpada insistia em piscar, vez ou outra. O suor escorria pela minha espinha. Gu colocou no chão belos castiçais e o centro do galpão foi iluminado com a luz de algumas velas que tremulam por causa do vento gelado que entrava pelas janelas. Enquanto isso Moisés tirava alguns livros da sua pasta (vi que eram todos do Derrida) e passou a fazer alguns desenhos com giz no chão. 

Senti um breve tremor que faz vibrar todo o lugar. Sujeira e pó caiam do telhado e o vento lá fora fazia barulho. Moisés finalmente falou comigo.

- Tem que ser hoje, tem que ser hoje. Derrida escreveu que o Outro só poderia ser desconstruída na ANPOF. Tem que ser hoje - e ele balançava os livros - Você está com medo?

É claro que eu não iria dizer que estava, já era tarde demais para desistir. Seja lá o que estivesse acontecendo, era impossível parar agora. Falei que estava tudo bem, tentando soar tranquilo. E então ele terminou de desenhar um estranho símbolo no chão e me convidou para ficar dentro do círculo junto com o Gu. Nos posicionamos. Agora o galpão estava apenas iluminado pelas velas. 

- Fechem os olhos e apenas se concentrem - Disse Moisés.

Eu obedeci. Fechei os olhos e comecei a ouvir as estranhas palavras murmuradas pelo Moisés, palavras que irritaram o meu ouvido, mas que com o tempo pareciam músicas. Então reconheci: ele estava citando Derrida! 

O direito não é justiça. O direito é o elemento do cálculo, é justo que haja um direito, mas a justiça é incalculável, ela exige que se calcule o incalculável; e as experiências aporéticas são experiências tão improváveis quanto necessárias da justiça, isto é, momentos em que a decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra - dizia ele quase em transe. 

Continuei com os olhos fechado. Não sabia mais exatamente no que me concentrar. Não sabia o que iria acontecer. "Será que toda aquela baboseira de alteridade é verdadeira?", eu pensava, "será que isso vai funcionar, será que nós vamos mesmo desconstruir o Outro?". 

Eu duvidada muito daquilo tudo, mas Moisés parecia saber muito bem o que estava fazendo. Não parecia ser a sua primeira vez. Ele me disse uma vez que depois que o Outro for desconstruído tudo será fantástico e nada será impossível. Eu parei para pensar e notei que de uns tempos para cá ele estava diferente. Meu amigo estava pensando diferente, estava mais criativo e mais inteligente. Seus trabalhos estavam melhores. Até o professor o estava invejando. Será que Moisés  realmente era capaz de desconstruir o Outro? Seu trabalho estava ficando cada vez melhor, e eu não entendia porque que de repente ele passou a não publicar mais os seu artigos. Lembrei da última vez que tinha lido um dos seus artigos. Era profundo e brilhante. Eu disse que ele deveria mostrar para mais pessoas e ele simplesmente respondeu: "de que adiantaria? A maioria não passa de marionete do sistema. Estão de olhos vendados. Só o Outro pode salvá-los". Eu não concordava completamente com sua resposta. Para falar a verdade às vezes pensava que todo esse papo de alteridade estava enlouquecendo o meu amigo. O problema é que em tudo que ele falava, por mais absurdo que parecesse, sempre tinha algo que despertava o meu interesse. Eu precisava dele. Dele e do Gu. Então eu concordava forçosamente com os meus colegas. 

Agora foi a vez do Gu falar. Ele disse que depois que desconstruíssemos o Outro, nunca mais iriamos querer sair daquela alteridade. Ele também estava convencido. Perguntei para ele por que eu tinha que estar ali. Ele me respondeu que era preciso três pessoas com grande força espiritual, e que eles já vinham me observando há um bom tempo. Ele me explicou que a maioria das pessoas são presas, presas de várias forças, em prisões internas ou externas. A mídia, a sociedade, os valores, essas seriam as prisões externas. Coisas que nossa a representação fraca cria para ordenar o mundo e expulsar dele a alteridade. Os efeitos da prisão externa fazem com que a prisão interna se construa e que seja quase impossível de ser quebrada. 

A prisão interna, ele continuou, é ainda mais forte. Ela só pode ser rompida por uma nova lógica de pensamento, que pensa a diferença e a alteridade. Para isso é preciso de sábias palavras de homens que estão a frente da maioria dos outros. Entendi que Derrida havia sido um desses homens e entendi que Moisés hoje o era. 

Gu me falou que há muito tempo, com a ajuda de Moises, ele havia rompido com a prisão interior, a prisão da alma, mas que ainda assim era necessário uma terceira pessoa para desconstruir o Outro. Do que eu entendia, eu sabia que não suportaria as mesmas coisas que meus amigos já haviam suportado. De qualquer forma segui concentrado, me preparei e fiquei esperando que algo acontecesse. Ficamos então em silêncio. Parecia ser o momento.

Senti o Galpão ficar frio. Depois um vento que parecia vir de todos os lados me atingiu. Moisés falou que deveríamos continuar concentrados e voltou a citar Derrida, agora em francês. Disse que não deveríamos abrir os olhos. Então ele parou de citar Derrida e disse:

- É agora, colegas, vamos desconstruir o Outro. 

Sua voz era doce. Parecia que estava adorando tudo aquilo. Meu coração acelerou. Meu coração batia tão rapidamente que parecia que iria explodir. Me segurei para não gritar e senti uma fraqueza imensa. Minhas pernas ficaram bambas, ouvi um estrondo e, sem nada entender, desmaiei. 

Quando acordei, estava sozinho no galpão. Procurei pelos meus amigos com os olhos. Mas não os via. Me levantei, passei as mão em meus cabelos, sequei o suor da testa. Chamei Gu e Moisés muitas vezes. Mas não obtive respostas. Então uma sequência de passagens de Derrida começaram a chegar  misteriosamente na minha cabeça. Era como se milhares de informações sobre a alteridade tivessem sido transferidas para meu cérebro. Então eu compreendi tudo. Estava com medo, mas minha mente insistia em me lembrar que aquilo tinha sido real. Cai novamente no chão. Alguém me levantou. Vi que era Moisés. Ele sorria. Olhei em minha volta e ainda não encontrava o Gu. Parecia que estávamos apenas eu e o Moisés num branco imenso. Moisés me colocou em pé e me puxou. Eu estava um pouco tonto e bastante ofegante. 

- Um passeio - disse ele - vamos dar um passeio. Está na hora de você ver algumas coisas. Coisas da alteridade. Eu vou te mostrar o verdadeiro rosto do Outro.

Perguntei o que aquilo significava e onde estava o Gu. 

- O Gu só é forte espiritualmente para um dos planos no qual se encontra o Outro, o primeiro - ele disse. 
- O que isso quer dizer? - eu disse, ficando cada vez mais confuso. 

Moisés sorriu e perguntou o que eu queria. Disse que apenas queria voltar para o hotel. Estava quase amanhecendo. "O que aconteceu com o Gu?" - eu me perguntava. 

- Tem muitos lugares mais interessantes para se ir do que um quarto de hotel, Adriano. Se desconstruirmos o Outro, nós poderemos fazer coisas inimagináveis, coisas que nem passam pela cabeça daqueles que são fracos. Ou você acha que tudo isso é a Verdade?

Eu estava confuso novamente. Agora ainda mais do que antes. Então Moisés me explicou que nós havíamos desconstruídos apenas um nível da Alteridade e que ainda faltava o nível mais profundo para desconstruir o Outro. Ele me explicou que, assim como entendeu Derrida, os homens estavam presos no mundo das representações da subjetividade e que, como sabia o filósofo, havia algo que escapava das representações da consciência. Aí ele me disse que queria avançar mais, que queria superar Derrida. Disse que tinha encontrado um jeito de chegar lá onde Derrida não foi capaz de chegar, naquele outro plano, que escapa da consciência moderna. "Como?", eu perguntava, pois aquilo já estava surreal demais. 

- Só precisamos fazer uma coisa... - disse ele tirando de sua pasta duas coisas que me assustaram muito. 

Eram dois revólveres. Ele continuou:

- Vamos, cara, acerte a sua cabeça e e vamos sair desse plano para desconstruir o Outro. O Gu era fraco, mas você pode, juntos nós podemos avançar ainda mais! SOMOS PODEROSOS JUNTOS, ADRIANO, PODEROSOS! Tudo vai acabar bem, confie em mim. 

Meu amigo estava louco, só poderia ser isso. Ele passou uma das armas para mim. Eu sabia que elas estavam carregadas. "Te vejo lá, cara, desconstruindo o Outro", disse ele. E logo em seguida colocou a sua arma embaixo do queixo e puxou o gatilho. Um disparo cortou o amanhecer. Meus olhos viram sua cabeça explodir e o sangue espalhar. Fiquei desesperado, não sabia o que fazer. Queria que tudo aquilo não passasse de um pesadelo, Queria acordar. Comecei a chorar. Pedia para que tudo aquilo não tivesse acontecido. Amaldiçoava aquela ANPOF, aquela cidade e o Outro, que é infinito. 

Minha cabeça não parava de repetir a cena de meu amigo me dizendo "te vejo lá, cara" e atirando na própria cabeça. Eu nunca quis me envolver com tudo aquilo, nunca!  Porém agora era tarde. Segurei firme minha arma. Fechei os olhos. Era como se eu pudesse ouvir meu amigo Moisés gritando dentro da minha cabeça: "ATIRE, ATIRE, ESTOU TE ESPERANDO AQUI, VENHA DESCONSTRUIR O OUTRO, VENHA!". Encostei a arma na minha cabeça. O que é real? Existe o real? Existe o Outro? O que é o Outro? Eu irei desconstruí-lo? Eu não sabia mais de nada. Só sabia que existia o medo. Fechei os olhos. Puxei o gatilho.


CONTINUA...






sábado, 19 de janeiro de 2013

Ceticismo, Verdade e Bambolês

Não é preciso ler muitos manuais de filosofia para saber que a história da filosofia mostra uma preocupação inflexível com o problema entre a aparência e a realidade. "Acho que vejo fogo", diz o filósofo de robe e pantufas sentado na poltrona ao pé da lareira, "mas não é possível que meus sentidos estejam me enganando e tudo não passe de uma ilusão?", "Acho que vejo pessoas passeando lá fora", murmura novamente, "mas não seria o gênio maligno mais uma vez colocando picuinhas na minha cabeça?", "Acho que vejo rinocerontes embaixo dessa mesa", diz um outro, "opa, era ilusão, será?", "Acho que vejo o Timm na minha banca de doutorado", e acrescenta esperançoso, "mas não seria possível que ele também seja uma ilusão?" 

Já eu ando pensando que os filósofos tendem a limitar a dúvida epistemológica à existência de lareiras, pessoas que passeiam na rua, cadeiras, rinocerontes embaixo de uma mesa numa sala da faculdade de Cambridge e da ocasional e indesejada presença do Timm numa banca de doutorado. Mas levar essas questões a coisas que nos são mais importantes, como a nossa própria existência, por exemplo, é levantar a terrível possibilidade de que eu não seja mais do que um perfil fake em um blog, uma fantasia interior, sem nenhuma conexão com qualquer realidade objetiva, de um estudantezinho de filosofia que não tem coragem de assinar as coisas que escreve na internet. A dúvida é simples quando não se trata da nossa própria sobrevivência. Não me levem a mal, eu quero ser tão cético quanto eu posso me dar ao luxo de ser, mas não é fácil ser cético ao ponto de pensar que eu existo apenas para  um estudantezinho que tem um blog fake e escreve coisas bobas. É fácil duvidar da existência da lareira, o foda é duvidar da legitimidade da própria existência. 

E se euzinho, Chaleira Pitareli, realmente não existir? Nos primórdios do pensamento filosófico a passagem da ignorância para o conhecimento foi comparada por Platão com a jornada de dentro de uma caverna escura para a luz brilhante do sol. Os homens, assim como os habitantes da caverna, nos diz Platão, são incapazes de perceber a realidade. Só com muito esforço as ilusões podem ser vencidas, fazendo a passagem do mundo de sombras para a luz brilhante do sol da Verdade, onde, finalmente, as coisas podem ser vistas como realmente são. Como todas as historinhas inventadas, essa também tem a sua moralzinha. Sua moral é ou que a verdade é superior à ilusão, e que por isso deve ser desejada por si mesmo, ou que fazer rapel em cavernas é uma prática deveras perigosa. 

De Aristóteles ao Wittinho, não foram poucos que criticaram Platão quanto à forma pela qual alcançamos a Verdade, mas foram muito poucos (Nietzsche doidão de sífilis, talvez) os que questionaram com seriedade o valor dessa busca. Eu vou me fazer entender: Será que eu quero realmente saber se eu realmente existo ou se sou apenas o alter-ego de um cara com baixa autoestima? Eu acho que os perfis fakes não podem permanecer filósofos por muito tempo, pois devem ceder ao impulso religioso, quase pascaliano, de acreditar e ter fé. Nós, fakes, preferimos o risco de estar errado e existir a estar em dúvida e poder não ser real.  

Eu conheço uma pessoa que tem um rinoceronte de brinquedo chamado Homenzarrão. Ele me diz que o Homenzarrão desempenha um papel muito importante na sua vida. Ele é um personagem tão real quanto os seus familiares e amigos, e, sem dúvida alguma, muito mais simpático que eles. Ele tem sua própria rotina, suas comidas favoritas, seu jeito de dormir, seu jeito de brincar e de ficar brabo e seu jeito forte de falar e se impor. É evidente que o Homenzarrão, por inteiro, é uma criação dessa pessoa e que não tem existência fora da sua imaginação um pouco errada. Agora você deve estar se perguntando: "Se isso acontece com o Homenzarrão, por que isso não poderia também estar acontecendo com você, senhor Pitareli?". Mas o caso é que há uma coisa que poderia arruinar por completo a relação dessa pessoa com seu rinoceronte: perguntar se a criatura existe ou não. "Meu amigo, essa coisa azulada e com chifres vive mesmo independente de você ou você a inventou?" - essa é uma pergunta que em hipótese alguma deve ser feita para a pessoa em questão. 

O que me ocorreu, e é isso apenas o que eu queria dizer, é que semelhante discrição devesse ser também adotada com relação aos fakes vivos da internet. Isto é, jamais deveríamos perguntar se eles realmente existem ou são a imaginação de algum estudante com tempo de sobra. Quando eu era criança, meu avô, Tonico Pitareli, me contou a história de um homem que acreditava ser feito de sorvete de flocos.  Então esse homem não saia no sol, com medo de derreter e se movia muito pouco, por medo de se derramar todo. Os médicos tentaram todo o tipo de tratamento: hipinose, drogas, sedativos, choques, filosofia clínica. Nada funcionava, em especial essa última. Finalmente um psicanalista pouco conhecido na época fez um esforço extraordinário para entrar na alma do paciente iludido e disse que a solução para o seu problema era sempre carregar consigo um bambolê roxo em volta da cintura. Assim ele poderia sentar em qualquer lugar sem se despedaçar e poderia até andar na rua num dia ensolarado. Dali por diante, contou meu avô, o homem que acreditava ser feito de sorvete de flocos nunca mais foi visto por ninguém sem um bambolê roxo em volta da cintura, mas, no entanto, levou uma vida mais ou menos próxima do normal. 

Essa historinha contada por meu avô (apesar de ser mais verossímil do que aquela contada por Platão) também tem a sua moralzinha: Ela mostra que, embora a pessoa esteja vivendo sob uma ilusão (ser feito de sorvete de flocos, a própria existência, o amor, a religião, a filosofia de Kant), se ela descobre uma parte para se complementar (como um blog fake na internet ou um bambolê roxo), então tudo pode ficar quase bem. É quase como se as ilusões não fizessem mal por si mesmas, mas só na medida em que se acredita nelas sozinho ou quando não se cria um ambiente na qual elas possam ser sustentadas. Então, enquanto eu e o estudantezinho pudermos manter o bambolê roxo em volta da nossa cintura, o que importa qual é exatamente a Verdade? 

domingo, 2 de dezembro de 2012

OS FILÓSOFOS DO IDEALISMO ALEMÃO


Eles disseram que a gente
só conhece as representações das coisas que
existem, e então se eu gosto de você
eu não gosto de você mas do que minha consciência
acha que você deve ser: objetivação de você

já eu acho que a gente
deveria desconstruir e
 descomplicar 

POEMA DE CHALEIRA PITARELI DE ACORDO COM A LEI FEDERAL 457856U/ 45 ARTIGO 55 - ABC TODA CRIANÇA TEM QUE LER E ESCREVER: BRASIL UM PAÍS DE TOLDOS, GOVERNO FEDERAL (NÃO SE ESQUECER DE SE LEMBRAR DE NÃO SE ESQUECER DE SE LEMBRAR) DESAPARECIDO, FAVOR APARECER!

PERGUNTA: Já que o mundo é uma porcaria, vale mais a pena vivê-lo esculhambando tudo ou pensá-lo kantianamente, fichtianamente, hegelianamente, husserlianamente?

RESPOSTA: Diária de Classe, hoje a comida no recreio foi pão de batata com areia. Me caiu o cu da bunda.  

QUEM É CONTRA OS MAUS TRATOS AOS ANIMAIS POR FAVOR VEJA ESSA IMAGEM CHOCANTE!!!
ESSE RINOCERONTE FOI EMPALHADO VIVO!!! UM ABSURDO!!!!
É POR ISSO QUE EU SEMPRE ME PERGUNTO SE OS VERDADEIROS ANIMAIS SÃO ELES OU SOMOS NÓS.
QUEM GOSTA CURTE E COMPARTILHA.
QUEM NÃO GOSTA SÓ OLHA.

ESSE DA FOTO É O MEU IRMÃO JOÃO MARCELO. ELE ESTÁ DESAPARECIDO
 E EU ESTOU PROCURANDO POR ELE.
ELE SUMIU ENQUANTO BRINCÁVAMOS DE ESCONDE-ESCONDE COM OS PRIMOS AQUI EM CASA.
ATÉ AGORA ELE NÃO APARECEU. EU ESTOU MUITO PREOCUPADO.
QUEM SOUBER ONDE ELE ESTÁ POR FAVOR ME INFORME.
PORQUE EU NÃO QUERO QUE ESSE FILHO DA PUTA SALVE TODOS NO FINAL
E ME FAÇA TER QUE PROCURAR POR TODO MUNDO DE NOVO.
POR FAVOR COMPARTILHEM ESSA IMAGEM!!!!
MUITO OBRIGADA!

QUANDO EU CHEGO VOCÊ VEM ME ENCONTRAR ME APERTA E ME CHAMA PRA DANÇAR VOU ABRAÇANDO VOCÊ VEJO O TEU JEITO DE OLHAR DOU MAIS UM PASSO À FRENTE PARA NÓS DOIS SE AGARRAR Ô Ô Ô Ô ÔÔÔÔ Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô 



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Final do Mundo

Enquanto não começa a megaprodução AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE, a novela que vai fazer explodir o coração do brasileiro (só que de coisas boas e bonitas  tais como: amor, paz, alegria, rinocerontes, Ser e Tempo), ficamos aqui com um breve post sobre nada menos e nada mais do que o FIM DO MUNDO. 

Os Maias estavam errados: o mundo acabou antes do que eles previram. Ele acabou hoje. O mundo todo foi destruído. Eu gosto do fim do mundo. Mas eu nem notei isso porque nesse mesmo dia começou o apocalipse zumbi. Zumbis por todos os lados, pessoas matando zumbis, outros vivos gritando e correndo de medo. Eu gosto de zumbis. Mas eu não notei nada disso porque nesse mesmo dia começou a batalha final entre os elefantes e os rinocerontes. As telas de televisão não mostraram, mas finalmente os pobres rinos acabaram com os malvados fantes. Eu gosto de rinocerontes e detesto os elefantes. Mas eu não vi essa batalha épica, porque nesse mesmo dia todas as pessoas de Porto Alegre formaram uma fila gigante na lotérica. Eu gosto de lotéricas e de suas filas. Mas eu não fazia nem ideia disso porque nesse mesmo dia as fadas despertaram de seu sono mágico e concederam a todas as pessoas boas os seus mais sinceros desejos. Eu gosto de fadas. Mas não fiquei sabendo de nada disso porque nesse mesmo dia todos os cãozinhos de rua conseguiram um dono atencioso e carinhoso. Eu gosto de cachorrinhos. Mas eu não fiquei sabendo disso porque nesse mesmo dia reprisaram episódios da novela Kubancan na televisão. O Pescador Parrudo e suas aventuras héteras. Eu gosto de Kubanacan e gosto do Pescador Parrudo. Mas eu também não soube desse fato porque nesse mesmo dia o cantor Wando ressuscitou. Ele desceu dos céus cantando “você é luz, é raio estrela e luar”. Eu gosto, e muito, do Wando. Mas isso eu também não percebi porque nesse dia teve uma maratona de Pucca na TV. Vinte e quatro horas seguidas só com Pucca e Garu e, no final da maratona, eles finalmente se beijaram. Eu gosto da Pucca e do Garu. Porém esse fato eu também desconheci, mas porque nesse dia Ijuí se tornou a nova capital do país. Ela finalmente teve seu valor reconhecido e todo o Brasil passou a olhar para ela com o devido respeito. Eu gosto de Ijuí. Só que eu não fiquei sabendo disso porque nesse mesmo dia o Grêmio voltou a ser campeão do mundo. Depois de um jogo difícil, nos pênaltis, sofrido, ele voltou a ser o melhor time do planeta. Eu gosto muito do Greminho. Mas disso eu também não soube nada porque nesse dia ainda encontraram textos inéditos de Walter Benjamin escondidos numa biblioteca em Berlim. Esses textos resolveram todas as questões filosóficas que antes estavam abertas no pensamento do autor. Eu gosto de Walter Benjamin. E eu também não fiquei sabendo de nada disso. Nesse dia acabou o mundo, começou o apocalipse zumbi, os rinos venceram sua batalha final contra os fantes, uma fila gigante de lotérica se formou, as fadas despertaram, os cachorrinhos abandonados conseguiram donos, Kubanacan foi reprisada, o Wando desceu dos céus cantando, Pucca e Garu se beijaram, Ijuí foi notada, o Greminho foi campeão do mundo e Walter Benjamin finalmente teve uma filosofia. E eu não notei nada disso porque estava sentado na minha escrivaninha, alheio a tudo, não fazendo nada, nem estudando e nem escrevendo, apenas olhando para o computador, torcendo para você ficar online no chat do facebook e imaginando se eu teria coragem de falar com você mais uma vez. 

ATENÇÃO: COMO NO TRÂNSITO, O MAR TAMBÉM POSSUI SUAS REGRAS DE TRÁFEGO. OS CARROS SÃO COMO AS LANCHAS, AS MOTOS SÃO COMO OS JET-SKIS, OS PEDESTRES SÃO COMO OS BANHISTAS E OS DASEINS SÃO JUNTO-AOS-ENTES. NÃO DEIXE QUE A ALEGRIA DE ALGUÉM MORRA NA PRAIA. 

Logo, logo, teremos a estréia de: AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE. 

terça-feira, 20 de novembro de 2012

AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE (DIVULGAÇÃO)

A primeira blog-novela só para héteros está para chegar! Uma novela para toda a família de bem e que irá revolucionar a rede mundial de computadores. Dos mesmo produtores de Kubanacan, com trilha sonora de Wando, dirigida por mim e guiada por Deus e escrita por Chaleira Pitareli, vem aí a novela AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE. 

Sinopse: Os intensos debates acadêmicos levaram a humanidade a uma terceira Grande Guerra. Nela as pessoas se dividiram em dois grupos: os analíticos e os desconstrutores. Os analíticos, por serem em menor número, foram brutalmente exterminados, seus livros foram queimados e suas ideias esquecidas. Nada de analítico restou sob a face da terra. Agora, numa sociedade futurística, a religião que tomou conta do mundo é a Alteridade. Nela todos devem venerar o deus Outro, que é infinito. A lei e a ordem se dão conforme as escrituras sagradas deixadas pelo messias Tin. Através delas um rígido controle é imposto aos homens. Porém, Gu, uma pessoa comum, que trabalha no coração de Desconstrutinópolis, capital desse novo mundo, se apaixona pela misteriosa apátrida Alana. Juntos eles descobrirão um segredo que comprometerá toda a ordem existente. 

Quem é a misteriosa apátrida Alana? Que segredo ela e Gu descobrirão? Que aventuras viverá o pacato Gu ao ver sua vidinha completamente transformada da noite para o dia? Por que existe o ser e não antes o nada? Como se faz metafísica depois de Kant? O que o passado da Alteridade esconde nos porões de Desconstrutinópolis? Estarão mesmo os analíticos extintos da face da terra? E principalmente: Poderá o verdadeiro amor triunfar nesse mundo de hospitalidade infinita? 

Tudo isso e muito mais na primeira blog-novela do Blog do Chaleira: AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE. 

AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE:
E quando o Outro se tornar infinito demais?

AMOR DE ALTERIDADE ACABA NA SAUDADE: Em breve, no blog hétero mais perto de você. 

(Cidadania, a gente se liga em você)



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O menino e a menina

Este post não tem sentido. 
Este post não tem cores. 
Este post não fala de crianças. 
Ele não trata do Chalita e nem do Pescador Parrudo. 
Ele é a quase desejada despedida, é a margarida no portão. 
Esse post é o suspiro de alívio, é a criatividade sem razão.
Ele é tudo o que eu tive e já perdi. 

Num bar, um menino e uma menina ocupam uma mesa e conversam.  O menino não sabia se gostava da menina porque ela era bonita ou se ela era bonita porque ele gostava dela. A menina, por sua vez, olhava para o menino enquanto ele falava sentado à sua frente e se perguntava por que seu desejo escolheu se acomodar justamente naquele rosto em particular, por que naquela boca e naqueles olhos tão singulares. 
Chega o garçom.

Menina (para o garçom): Eu quero um guaraná com uma rodela de limão, por favor.
Menino: Guaraná com limão? Ninguém toma guaraná com limão.
Menina: Eu tomo guaraná com limão. Eu sou alguém. Logo, alguém toma guaraná com limão. 
Menino: Mais de um ano te conhecendo e você ainda me surpreende. Cada dia é uma surpresa. É incrível como você consegue ser diferente nas pequenas coisas, no jeito de ver as pequenas coisas do mundo. 
Menina: E isso é ruim?
Menino: Ruim? Eu não sei. Acho que não. Às vezes sinto um pouco que sim, mas sei lá. Acho que não. 
Menina (do nada): Até quando?
Menino (surpreso): Como? 
Menina (séria): Até quando suportaremos o olhar um do outro?
Menino (sério): Por que essa pergunta agora?
Menina: Não sei, só por perguntar. É que eu acho que me pertences demais. Vai ser estranho o dia em que eu não puder mais te abraçar. Como essas nuvens lá em cima, no céu. Você já pensou em como seria o céu sem as nuvens? 
Menino:  E um céu sem estrelas, então?
Menina: Será que eu ainda consigo olhar pra chuva e não pensar em ti?
Menino: Eu não sei.
Menina: Eu também não sei. 
Menino: Se eu pedir um abraço, você me dá? 
Menina: Dou, eu sempre dou. 

Menino e menina se abraçam. 

Menino (tirando um papel dobrado do bolso e entregando para a menina): Cada coisa que eu escrevo ou é sobre você ou é pra você. Eu sei que no fundo é sobre mim. Ou sobre o abajurzinho que estou tentando comprar e nunca dá. Mas ainda assim é sobre você. Sobre sua mania de comer até a barriga doer, sobre sua mania de tomar vinho e ficar sempre com o canto da boca manchado de vermelho. Eu queria que você escrevesse algo pra mim. Você já escreveu para outros. Então por que não para mim? 
Menina: Sei lá, acho que porque...
Menino (interrompendo): Eu sei a resposta: "porque não é preciso". Você sabe que já me ganhou inteiro, sabe que eu te quis desde que caminhamos juntos aquela noite e rimos bastante até bem tarde.
Menina: Não é bem assim...
Menino: Você só queria um pouco de sexo fácil naquela época...
Menina: Agora eu sei que isso nunca há. Pelo menos não para os românticos que se apaixonam o tempo todo, como a gente. 
Menino: De qualquer forma, naquela época eu ainda era algo raro, algo necessário. Hoje em dia, a raridade é quando eu não acaricio o seus cabelos no meio da noite.
Menina:  Acho que pra você o amor é o bastante. Mas para mim, não. Pra mim ele é demais. 
Menino: E você nunca lê o que eu escrevo. Até o jeito que eu escovo os dentes é para você notar. Mas você faz sempre questão que faça isso com a porta fechada. 
Menina: O nada e o pó. Do pó ao nada, do nada ao pó e o nada ao nada e o pó ao pó e o nada nada e o pó pó e o nada o pó e o pó e o nada e nada, nada e nada. 

O menino e a menina ficam bastante sérios e tristes. O Garçom volta com as bebidas e logo sai. 

Menina: Mas eu não me canso de você. É manhã, é noite, e eu não me canso de você. Eu canso do toalha em cima da cama, canso das roupas atiradas, canso dos calçados espalhados,  canso da louça suja, mas não de você. Eu não me canso de você. Canso da música alta, da falta de grana no final do mês, da sujeira do apartamento, mas eu não me canso de você. Eu canso é de cada pedaço do meu corpo que você não toca mais, canso da mesma posição todas os dias. Mas eu não me canso de você. Eu canso até de cada  olhar seu, de cada gesto seu, e canso também de cada gesto meu. Mas eu não me canso, nunca, de você. 
Menino: É que às vezes me dá uma dorzinha aqui dentro, sabe? Ela começa pequenininha e vai crescendo e crescendo. Você nem nota. Ou finge que não nota. Eu prefiro acreditar que você não nota, para que não doa mais. 

A menina se inclinou e pegou o copo na mesa. Bebeu um gole de bebida e tragou do ar fresco da noite de pós-chuva. Era o jeito que tinha de acalmar o coração. Mas era tarde. Ela estava tensa. Seus gestos denunciavam. Queria, se pudesse, liberar tudo aquilo que estava dentro de si. Vida lenta, decisões demoradas, amores fracassados. Tudo de novo. Sempre sobra quase nada. Não havia mais saída. Ela só não queria chorar. 

Menino (puxando uma flor): Eu lhe trouxe uma flor.
Menina (pegando e olhando para flor): Ela é bem azul, né?
Menino: Sim, bem azul.
Menina: A gente vai se ver de novo, algum dia?
Menino: Não sei. Não é tão simples assim. 
Menina: Mas nós vamos. Vamos sim, eu sei que vamos. Nós vamos. 
Menino: Talvez...
Menina: Pelo menos você vai lembrar de mim de vez em quando? 
Menino: Sempre. Todos os dias.
Menina: Todos os dias? 
Menino: Todos. Vou comprar uma flor azul no final de cada dia, para ajudar a não te esquecer. 
Menina: Como eu posso te mostrar o que eu sinto?
Menino: Só me dá um abraço.
Menina: O último?
Menino: O último. 

O menino e a menina se abraçam de novo. Depois o menino se despede e vai embora. A menina fica sozinha. E então tudo veio abaixo. Ela ficou sentada ali, enxugando o nariz e os olhos com a manga do casaco e torcendo para que ninguém ouvisse seus soluços baixinhos e doídos. Era como se tudo tivesse ficado retorcido e ela não conseguia pensar direito. Ainda mais com aqueles sons ao redor, com aquela música e aquelas conversas. A menina então desdobrou o bilhete que havia sido entregue pelo menino e leu em voz baixa:

"Você não é tão forte quanto imagina. Você é uma virgenzinha que não faz as unhas e nem passa creme no corpo. Você é uma moça do interior que suporta a cidade grande tristemente. Você é uma camponesa assustada que se esconde dos esgotos, das fumaças e da violência. Você é apenas mais uma no meio do barulho, só que você finge não ser derrotada.  Não aguente mais. Não aguente o tranco, a solidão, a falta de carinho. Não aguente mais. Não aguente mais a rotina igual, o apartamento-prisão, o quarto escuro, a louça suja sobre a pia, a falta de sensação, a falta de tesão. Não aguente mais. Faça o que eu digo, faça. Arrume a mala e vá embora. Volte para a família e para as pessoas especiais. Volte para a terrinha encantada, para a vida tranquila e livre, para o morro dos animais. Volte! Espero, sinceramente, que você encontre o caminho de volta para casa". 

Ela não entendeu. Na verdade, ela nunca entendia as coisas que ele escrevia. E a menina pensava tentando se animar:

"Vamos lá, deve ser só a flor azul. Vamos lá, cante uma canção, não deixe a música parar. Vamos lá, agradeça aos céus, agradeça ao nada! Ou então chore desesperadamente. Sinta as lágrimas, sinta o frio. Vamos lá, quebrem esse silêncio, apertem a minha mão. Ouçam as vozes, ouçam os gritos, voem como as mariposas. Vamos lá, pintem o arco-íris, comam cachorro-quente, tomem sorvete, lambuzem-se. Vamos lá, me libertem, não me esqueçam, por favor. Vamos lá, me socorram."

Volta o garçom. 

Garçom: A senhorita gostaria de beber mais alguma coisa?
Menina: Água, por favor. Só água, sem gás. Pura e simplesmente água. 
Garçom: Tudo bem, eu trago em alguns minutinhos.
Menina: Ah, moço, para acompanhar será que você poderia me trazer um pouco de lembranças? Das mais variadas: umas mais leves e outras mais pesadas. É que eu estou precisando comemorar. Vou embora, vou voltar para casa. E preciso de alegria. 

Ainda hoje, quando chove, a menina pensa no menino. Ainda hoje, quando vê uma flor azul, o menino pensa na menina.  Às vezes isso acontece ao mesmo tempo.