estar pensando nela
me faz deixar de me sentir um qualquer e ser
antigo
antigo só como algumas pedras
algumas árvores
e um e outro livro
conseguem ser.
terça-feira, 9 de abril de 2019
domingo, 31 de março de 2019
como foi que chegamos até aqui?
quatrocentos e trinta e quatro mortos ou desaparecidos
tantos tiros nos mesmo corpos e tantos outros machucados
custo a acreditar que, no fundo, não sejamos todos bons e iluminados
porque não, não somos
queremos o que querem os mais fortes sobre os pequenos
queremos o sangue dos outros, esse mínimo
o tempo dos vencedores a criar um país como se fosse só seu
na gaveta de todos há uma arma para o caso
atenção: vocês todos tem na gaveta uma arma para o caso?
no dia que seria o caso ignorou mulheres e crianças e disse: pegue isso protegê-los
de que nos protege a mão com a arma?
de viver como bichos?
de amar sem amor?
quatrocentos e trinta e quatro mortos ou desaparecidos
corpos mortos empilhados uns sobre os outros buscando armas escondidas no fundo de seus olhos
não acredito, no fundo do fundo, que ainda tememos a noite que não vem o dia depois de cada abraço
veja o homem, cujo o corpo tremia diante do gatilho que lhe era desconhecido, veja
deixe esse corpo repousar
não tem armas os corpos nem gavetas
quatrocentos e trinta e quatro mortos ou desaparecidos
nossos olhos abertos na escuridão
os olhos bem abertos
no banco do motorista no banco do passageiro no carro no ônibus
sangra a visão esses corpos
no fundo bem no fundo não acredito, ou até acredito, que entre as gentes habitam monstros disfarçados de sensatez
alguns, dizem, não sentem a dor mas a gente sente
e talvez, veja que digo talvez, nisso resida nosso grande segredo, nossa sobrevivência
tantos tiros nos mesmo corpos e tantos outros machucados
custo a acreditar que, no fundo, não sejamos todos bons e iluminados
porque não, não somos
queremos o que querem os mais fortes sobre os pequenos
queremos o sangue dos outros, esse mínimo
o tempo dos vencedores a criar um país como se fosse só seu
na gaveta de todos há uma arma para o caso
atenção: vocês todos tem na gaveta uma arma para o caso?
no dia que seria o caso ignorou mulheres e crianças e disse: pegue isso protegê-los
de que nos protege a mão com a arma?
de viver como bichos?
de amar sem amor?
quatrocentos e trinta e quatro mortos ou desaparecidos
corpos mortos empilhados uns sobre os outros buscando armas escondidas no fundo de seus olhos
não acredito, no fundo do fundo, que ainda tememos a noite que não vem o dia depois de cada abraço
veja o homem, cujo o corpo tremia diante do gatilho que lhe era desconhecido, veja
deixe esse corpo repousar
não tem armas os corpos nem gavetas
quatrocentos e trinta e quatro mortos ou desaparecidos
nossos olhos abertos na escuridão
os olhos bem abertos
no banco do motorista no banco do passageiro no carro no ônibus
sangra a visão esses corpos
no fundo bem no fundo não acredito, ou até acredito, que entre as gentes habitam monstros disfarçados de sensatez
alguns, dizem, não sentem a dor mas a gente sente
e talvez, veja que digo talvez, nisso resida nosso grande segredo, nossa sobrevivência
n.
é como se ela fosse um rosto coberto com véu. como se estivesse sempre distante. como se fosse impossível tocá-la. porque ela mais uma vez se afasta. sua luz é obliqua. por isso, ela se protege e impede movimentos agressivos. ela pede silêncio. então fico quietinho e penso: se no fundo dos teus olhos não houvesse tristeza, tua alegria não seria tão bonita.
sábado, 16 de março de 2019
todo dia eu preciso fazer um esforço fora do comum para não ser tomado por pensamentos ruins. me contaminei com eles. adquiri um medo inexplicável do amanhã. passei a ver as pessoas ao meu redor com olhos vesgos e míopes. tenho ondas fortes de depressão sem motivo aparente. não sei como me livrar de tudo isso. me livrar de você. mesmo não te vendo, não te tocando, não trocando uma única palavra com você, tudo o que é teu ainda me faz mal. me tira o sono, me revira o estômago, me dá ânsia.
não sei o que fazer para me desintoxicar de uma vez por todas. dizem que o tempo é o melhor remédios para os malem que não tem cura. mas, e enquanto o tempo não chega? como suportar as horas em que beira ao desespero? toda essa desintoxicação às vezes é insuportável. a gente foi um vício. e, por deus, eu prefiro morrer do que ter mais uma recaída.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
n.
desde aquele dia, exploro o mar atentamente como o radar que busca o navio inimigo. uma tensão inquieta substitui a tranquilidade anterior da contemplação. desejo e espero: quero adivinhar teu trajeto em profundezas de água, conhecer teu fôlego para que o caminho dos meus olhos cruze com os dos teus.
sábado, 26 de janeiro de 2019
M.
esse não é um post sobre amor. é sobre alguém que não consegue mais tentar. de quem se alimenta de pequenas sensações de fracasso. de alguém que, depois de tudo, só consegue ser movido pelo vazio.
eu assumo que não estou preparado para descobrir o quanto você é diferente. talvez pessoas como você sejam raridades. isto eu nunca saberei. abri mão desse tipo de coisa, junto com a minha coragem. prefiro trocar essa possibilidade pelo que tenho agora: sentimentos frágeis, uma vida levada na superfície. troquei você por algum sexo mais ou menos com uma pessoa aqui e outra ali. escolhi desistir de procurar. hoje, é o este é o único jeito que sei viver.
talvez eu esteja perdendo algo que não terei igual. talvez ninguém mais terá esse gosto, esse cheiro, esse jeitinho de terminar um beijo. pode ser que eu nunca mais encontre esse olhar que me frita, que me faz pensar em sexo logo ao acordar. pode ser que ninguém mais tenha essa voz que faz o meu pau ficar duro automaticamente. eu não quero esse mundo maravilhoso prometido para nós. eu não consigo mais nem mais falar nós. eu não consigo mais sentir a adrenalina que alimenta os pobres apaixonados.
desculpe, mas chegou a minha vez de ser idiota.
não é que não seja o momento. nunca será o momento. você é ótima, mas eu estou quebrado. aconteceram coisas que me tornaram incapaz. então vou abrir mão. abrir mão de todas as risadas que poderíamos dar juntos, da possibilidade de um futuro feliz. assumo o risco de um dia cruzar com você pela rua, e dar de cara com seu marido perfeito, carregando um bebê de propaganda, com aquele semblante inabalável e insuportável de felicidade. daria um oi constrangedor e perguntaria onde tem um bar. passaria o resto do dia bebendo sozinho. e você teria o direito de rir da minha desgraça.
eu me tornei um imbecil, eu sei. mas eu não consigo mais entrar numa relação. tenho medo do mundo adulto. já fiz essa aposta outras vezes e perdi. você é incrível. você me faria crescer, pensar numa carreira, vestir uma roupa passada, beber um pouco menos, frequentar lugares em que os garçons sejam legais. você me fez querer ser melhor, e hoje essa sensação é insuportável.
sábado, 12 de janeiro de 2019
tontura
em floripa uns amigos me levaram para um passeio de barco. algumas pessoas sentem tontura em alto-mar.
precisam segurar a mão de alguém para consegui olhar as ondas no mar ou algum
pedacinho de peixe. eu não senti tontura durante o passeio, mas me sinto perto
de dessas pessoas.
há poucos dias terminei
de ler um livro sobre a situação atual da física teórica. uma ideia em especial
chamou muito a minha atenção: a mecânica quântica nos ensinou a pensar as
coisas, em nível elementar, não como elas são, mas sim como elas acontecem,
como elas influem uma sobre as outras. as coisas, em nível microscópio,
só existes quando saltam de uma interação para outra. ou seja, o mundo das
coisas existentes foi reduzido ao mundo das interações possíveis e, por isso,
devemos pensar o mundo não como uma totalidade de objetos que estão neste ou
naquele estado, e sim como processos, passagens de uma interação a outra, que
não podem ser previstas de maneira absoluta, mas apenas de modo probabilístico.
vivemos sobre esse mundo
desordenado como se fosse como se fosse firme, seguro e, principalmente,
eterno. planejamos o que vamos fazer no próximo final de semana, no mês
seguinte, daqui a um ano, quando formos adultos, quando ficarmos velhos, etc.
procuramos estabilidade de muitas maneiras: no emprego concursado, no amor para
sempre, no apartamento próprio, na assinatura da tv a cabo, na grana guardada
na poupança. mas às vezes ficamos um pouco chapados, bebemos até pegar no sono ou metemos
para dentro alguma substância que faça o estável ficar levemente abalado por
alguns instantes. caminhar sobre o chão indeterminado e olhar para o mar vertiginoso
não deveria ser o bastante?
tudo bem, eu entendo. a instabilidade constante deve ser incômoda e não interessa muita gente,
principalmente aqueles que lucram com a estabilidade alheia. mas a noite pode
precipitar sobre nossas cabeças, nosso barquinho pode perder o rumo e ainda
assim há lugares no mundo em que nos sentimos mais leves, mais soltos, mais à deriva. isso não conta? lembro que quando eu era criança gostava de girar,
girar, girar, repetidamente, para sentir o barato da tontura. tem que ser meio
criança ou meio físico quântico para sentir essa vertigem na vida?
cada vez que eu tenho
algum desespero ou uma profunda tristeza – o que tem sido cada vez mais
constante – me apego a ideia de que de nada adianta sofrer se de um segundo
para outro tudo pode mudar e até desaparecer, sem que ao menos tenhamos tempo de ter
consciência disso.
eu não senti tontura
quando naveguei e olhei para o mar. mas acho que trago comigo esse sentido
estranho de instabilidade. essa tontura, essa necessidade de ter que segurar a
mão de alguém para enfrentar o desconhecido. hoje, pensando no mar e na física
quântica, nos passeios de barco e no mundo como uma sucessão de eventos
quânticos granulares e indeterminados, me pergunto se, mesmo quem enjoa em
alto-mar, não gosta, de vez em quando, de olhar para as ondas em permanente
fuga debaixo de nosso barco.
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