domingo, 31 de março de 2019

n.

é como se ela fosse um rosto coberto com véu. como se estivesse sempre distante. como se fosse impossível tocá-la. porque ela mais uma vez se afasta. sua luz é obliqua. por isso, ela se protege e impede movimentos agressivos. ela pede silêncio. então fico quietinho e penso: se no fundo dos teus olhos não houvesse tristeza, tua alegria não seria tão bonita.

sábado, 16 de março de 2019

todo dia eu preciso fazer um esforço fora do comum para não ser tomado por pensamentos ruins. me contaminei com eles. adquiri um medo inexplicável do amanhã. passei a ver as pessoas ao meu redor com olhos vesgos e míopes. tenho ondas fortes de depressão sem motivo aparente. não sei como me livrar de tudo isso. me livrar de você. mesmo não te vendo, não te tocando, não trocando uma única palavra com você, tudo o que é teu ainda me faz mal. me tira o sono, me revira o estômago, me dá ânsia.

não sei o que fazer para me desintoxicar de uma vez por todas. dizem que o tempo é o melhor remédios para os malem que não tem cura. mas, e enquanto o tempo não chega? como suportar as horas em que beira ao desespero? toda essa desintoxicação às vezes é insuportável. a gente foi um vício. e, por deus, eu prefiro morrer do que ter mais uma recaída. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

n.

desde aquele dia, exploro o mar atentamente como o radar que busca o navio inimigo. uma tensão inquieta substitui a tranquilidade anterior da contemplação. desejo e espero: quero adivinhar teu trajeto em profundezas de água, conhecer teu fôlego para que o caminho dos meus olhos cruze com os dos teus. 

sábado, 26 de janeiro de 2019

M.

esse não é um post sobre amor. é sobre alguém que não consegue mais tentar. de quem se alimenta de pequenas sensações de fracasso. de alguém que, depois de tudo, só consegue ser movido pelo vazio.

eu assumo que não estou preparado para descobrir o quanto você é diferente. talvez pessoas como você sejam raridades. isto eu nunca saberei. abri mão desse tipo de coisa, junto com a minha coragem. prefiro trocar essa possibilidade pelo que tenho agora: sentimentos frágeis, uma vida levada na superfície. troquei você por algum sexo mais ou menos com uma pessoa aqui e outra ali. escolhi desistir de procurar. hoje, é o este é o único jeito que sei viver. 

talvez eu esteja perdendo algo que não terei igual. talvez ninguém mais terá esse gosto, esse cheiro, esse jeitinho de terminar um beijo. pode ser que eu nunca mais encontre esse olhar que me frita, que me faz pensar em sexo logo ao acordar. pode ser que ninguém mais tenha essa voz que faz o meu pau ficar duro automaticamente. eu não quero esse mundo maravilhoso prometido para nós. eu não consigo mais nem mais falar nós. eu não consigo mais sentir a adrenalina que alimenta os pobres apaixonados. 

desculpe, mas chegou a minha vez de ser idiota. 

não é que não seja o momento. nunca será o momento. você é ótima, mas eu estou quebrado. aconteceram coisas que me tornaram incapaz. então vou abrir mão. abrir mão de todas as risadas que poderíamos dar juntos, da possibilidade de um futuro feliz. assumo o risco de um dia cruzar com você pela rua, e dar de cara com seu marido perfeito, carregando um bebê de propaganda, com aquele semblante inabalável e insuportável de felicidade. daria um oi constrangedor e perguntaria onde tem um bar. passaria o resto do dia bebendo sozinho. e você teria o direito de rir da minha desgraça. 

eu me tornei um imbecil, eu sei. mas eu não consigo mais entrar numa relação. tenho medo do mundo adulto. já fiz essa aposta outras vezes e perdi. você é incrível. você me faria crescer, pensar numa carreira, vestir uma roupa passada, beber um pouco menos, frequentar lugares em que os garçons sejam legais. você me fez querer ser melhor, e hoje essa sensação é insuportável. 

sábado, 12 de janeiro de 2019

tontura


em floripa uns amigos me levaram para um passeio de barco. algumas pessoas sentem tontura em alto-mar. precisam segurar a mão de alguém para consegui olhar as ondas no mar ou algum pedacinho de peixe. eu não senti tontura durante o passeio, mas me sinto perto de dessas pessoas. 

há poucos dias terminei de ler um livro sobre a situação atual da física teórica. uma ideia em especial chamou muito a minha atenção: a mecânica quântica nos ensinou a pensar as coisas, em nível elementar, não como elas são, mas sim como elas acontecem, como elas influem uma sobre as outras.  as coisas, em nível microscópio, só existes quando saltam de uma interação para outra. ou seja, o mundo das coisas existentes foi reduzido ao mundo das interações possíveis e, por isso, devemos pensar o mundo não como uma totalidade de objetos que estão neste ou naquele estado, e sim como processos, passagens de uma interação a outra, que não podem ser previstas de maneira absoluta, mas apenas de modo probabilístico.

vivemos sobre esse mundo desordenado como se fosse como se fosse firme, seguro e, principalmente, eterno. planejamos o que vamos fazer no próximo final de semana, no mês seguinte, daqui a um ano, quando formos adultos, quando ficarmos velhos, etc. procuramos estabilidade de muitas maneiras: no emprego concursado, no amor para sempre, no apartamento próprio, na assinatura da tv a cabo, na grana guardada na poupança. mas às vezes ficamos um pouco chapados, bebemos até pegar no sono ou metemos para dentro alguma substância que faça o estável ficar levemente abalado por alguns instantes. caminhar sobre o chão indeterminado e olhar para o mar vertiginoso não deveria ser o bastante?

tudo bem, eu entendo. a instabilidade constante deve ser incômoda e não interessa muita gente, principalmente aqueles que lucram com a estabilidade alheia. mas a noite pode precipitar sobre nossas cabeças, nosso barquinho pode perder o rumo e ainda assim há lugares no mundo em que nos sentimos mais leves, mais soltos, mais à deriva. isso não conta? lembro que quando eu era criança gostava de girar, girar, girar, repetidamente, para sentir o barato da tontura. tem que ser meio criança ou meio físico quântico para sentir essa vertigem na vida?

cada vez que eu tenho algum desespero ou uma profunda tristeza – o que tem sido cada vez mais constante – me apego a ideia de que de nada adianta sofrer se de um segundo para outro tudo pode mudar e até desaparecer, sem que ao menos tenhamos tempo de ter consciência disso.

eu não senti tontura quando naveguei e olhei para o mar. mas acho que trago comigo esse sentido estranho de instabilidade. essa tontura, essa necessidade de ter que segurar a mão de alguém para enfrentar o desconhecido. hoje, pensando no mar e na física quântica, nos passeios de barco e no mundo como uma sucessão de eventos quânticos granulares e indeterminados, me pergunto se, mesmo quem enjoa em alto-mar, não gosta, de vez em quando, de olhar para as ondas em permanente fuga debaixo de nosso barco.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

nunca consigo levar adiante boa parte de meus projetos. minha vida pode ser qualquer coisa, menos constante. viver para mim é quase tão difícil quanto escrever. é aqui onde me sinto menos exigente e mais solto. quando escrevo filosofia, nunca consigo essa irresponsabilidade. sempre escrevi, e já disse muitas vezes que não faz filosofia hoje quem não sabe escrever. meu trabalho em filosofia sempre foi absolutamente mediado por palavras, tanto que simplesmente não consigo realizar qualquer objetividade sem essa mediação. em cada projeto em que eu me envolvo, sinto essa necessidade de acabar narrando, interpretando, pontuando. quando algum texto me impacta ao ponto de me tirar as palavras, sinto um tipo de abandono. então me entedio, ou fico irritado. 

isso não quer dizer que escrever seja algo fácil. até agora tem exigido de mim muito esforço. é como se alguém me pedisse para fazer, sei lá, uma cadeira, objeto simples e de uso cotidiano. mas eu não sou carpinteiro. me encho de medos e inseguranças, pensando que vou construir um objeto que ninguém vai gostar ou em que ninguém vai querer sentar, ou, se sentar, vai acabar caindo. geralmente, o objeto que consigo fazer é pouco elaborado, simples, precisa ser usado com cuidado e quase sempre precisa de uns ajustes e consertos. não conseguiria produzir em série. na verdade, não seria nem economicamente viável. 

não existe um caminho para se escrever. se fosse assim, a gente encheria garrafas e vendia por ai. não é assim. escrever é mais como visitar um planeta desconhecido e, aos poucos, aprender a respirar nele. é sempre fazer uma cadeira sem ser carpinteiro. de novo a mesma dificuldade, de novo o mesmo embaraço. meu texto sempre vai ter um pouco deste desconserto, desse despreparo, dessa incompletude, dessa fragilidade.  ainda assim, algumas vezes a gente consegue fazer uma cadeira, uma mesa, um banquinho.

durante este último ano, trabalhei, com a ajuda do professor stein (a quem deixo registrado aqui o meu muito obrigado), em um livro que basicamente é reunião de muitas anotações soltas, notas de aulas, palestras, apresentações, ideias provisórias do tempo em que dei aula em erechim (por muito tempo, erechim será o meu a priori). o livro poderá ser baixado sem custos pelo site da editora, mas você também pode encomendar um exemplar impresso e presentear no amigo secreto aquela tua tia metafísica. exemplares autografados poderão ser encontrados no bar mais próximo. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

muitos amigos estão compartilhando e comentando aqui a notícia de que a extrema pobreza voltou a crescer assustadoramente no país, contabilizando, no ano passado, 15,2 milhões de pessoas. não sei por que pensei em escrever sobre esse assunto, ainda que escrever seja não fazer nada.

não é um assunto confortável e sempre nos desagrada ficar sabendo de coisas assim. geralmente é o tipo de coisa que a gente evita, como aquela parte da realidade que vamos negando até se tornar quase invisível. uma parte do mundo que faz a gente fechar os olhos quando vem ao nosso encontro. não queremos ver porque é feio ou porque dá medo ou até porque dá nojo. e então desviamos o corpo e o cérebro, para não ter pensamentos tristes sobre isso. 

no entanto, é impossível viver numa grande cidade sem ter esses encontros. estou pensando aqui no tempo em que morei na cb, bairro em que a miséria e a violência foram se juntando com a paisagem. a gente simplesmente se acostumou a passar por tantas pessoas dormindo pelas calçadas ou pedindo trocados. são encontros inescapáveis e ninguém está livre deles, a não ser que se isole na bolha de seu apartamento ou condomínio, e que sempre tenha empregados mudos e uniformizados, ficando bem distante da visão e do pensamento das coisas do mundo lá fora. quem tem que sair na rua, andar a pé e pegar busão, que vive além do limite do próprio portão, não pode escapar desse encontro com uma realidade que não se quer mas que se impõe. as pessoas da minha classe, essa gente indefinida, que não é rica nem pobre, e que recebe abstratamente o nome de classe média, vive cotidianamente desviando os olhos e o cérebro desses encontros. 

um bairro como a cb é, inegavelmente, uma sobreposição de realidade diferentes e até divergentes, em grandes áreas de luz e sombras, em que tudo se vê ao mesmo tempo em que fingimos não ver nada. ali, no invisível, no escuro, escondemos aquilo que não gostamos, que nos dá medo, que nos dá culpa, aquilo com o que não concordamos, que compromete a história de nossa vidinha feliz -- esses que a gente joga no escuro, na sobra, mas que usamos sempre para falar de nossas angústias e dilemas de classe média. 

escrever, como comecei falando, é quase sempre não fazer nada. só queria escrever mesmo sobre esses pensamentos tristes, comuns para um morador da cb, que cumprimenta cinicamente um miserável, que vai passar a noite lutando contra o sono deitado em alguma calçada gelada. esses pensamentos complicados, na maior parte das vezes a gente desvia imediatamente e só consegue carregar junto uma pequena parte, para não despertar a raiva, a culpa ou a angústia dentro de nossa vidinha inútil e burra,  dentro de casa, do trabalho, do pensamento, a gente se esconde. ainda que lá fora a vida esteja cada vez mais cinza.