domingo, 17 de dezembro de 2017

quanto mais vai crescer a feriada? o corte que você abriu e não ficou para assoprar. a que tamanho chega um machucado sem curativo? aberto, exposto, abandonado. quanto mais pode crescer o rasgo que já foi minúsculo? a que tamanho chega um ferimento regado todos os dias, cultivado por alguém como se fosse flor?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

tu não vale uma frase, um poema, um verso, uma rima. um letra para uma música cantada no silêncio. não vale. tu não vale a madrugada perdida, o acordar no sofá, a ressaca, o vômito. uma foto apagada, um diário queimado, os móveis quebrados.  não vale. tu não vale o corte riscando o pulso, o punhado de comprimidos, as músicas tristes. a mão por horas sobre o celular, a espera, a vontade de conversar. não vale. tu não vale o soco na parede, as coisas jogadas no chão, o espelho trincado, o copo atirado. não vale. tu não vale o grito atravessando a cidade, o palavrão. não. tu não vale o tempo perdido, a teimosia da busca. 

mas eu te procuro, ainda. escrevo frases, faço poemas, amanheço com febre. me jogo contra a parede, engulo comprimidos aos montes. eu vomito. tu nem sabe ou imagina. eu não apreendi. ainda faço tudo por alguém que não vale nada. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

culpa

a culpa é minha. e apenas minha. eu te vi como mar, quanto não passava de uma gota, evaporando, caída sobre a calçada. por isso a culpa é toda minha. eu te escutei como música, quanto não passava de uma nota, tocada sozinha e sem querer na limpeza de um piano. eu te engoli como banquete, quanto não passava de uma migalha. eu te guardei como tesouro, trancada e protegida, quando tu não valia nada mais que centavo. moeda esquecida no fundo de uma bolsa. eu te coroei rainha, quando deveria ter te dado esmola e te sustentado com restos. eu te via gigante, quando, na verdade, poderia  te esmagar, facilmente, com meu sapato. eu te sentia furação, quando tudo não passou de um sopro. por tudo isso a culpa é minha. só minha. a culpa é minha por insistir em achar que é única, quando o que mais há por ai são coisas idênticas a ti.  
como vocês não viram eu me retorcer pela cama, tentando desvirar minha alma, tentando tirar do avesso? como vocês não viram? eu me esfregava pela cama, pelo colchão cheio de espumas, machucando minhas costas, deixando marcas vermelhas. Como vocês não me ouviram chorar? eu chorava, pedia num soluço para que me desintoxicassem por dentro, para que me lavassem com água e sabão. vocês podem não saber, mas eu me sentia sujo. como quem está cansado de caminhar na chuva, para em uma esquina qualquer, encosta em um poste, com as mãos no bosto e recebe a lama respingada pelos carros que passam sobre as poças, e de propósito encharcando seus sapatos, sua roupa, sujando seu rosto como o que escorreu da cidade imunda, com a água que lavou os telhados e as marquises. vocês não sentiram que eu tinha um gosto amargo na boca? nem isso vocês perceberam? um gosto ruim acumulado por tudo o que passou. não sentiram o meu cheiro? tinha algo apodrecido. nem sentiram minha testa quente e o suor de minha febre. pelo menos leram os bilhetes que letras tremidas que deixei pela casa? leram? ou meus pedidos de ajuda escrito com carvão pelas paredes? na porta da geladeira, as letras de imã formando socorro? vocês não sabiam que eu estava morrendo aos poucos? 

essa morte lenta que me embrulha o estômago. uma vida insuportável que provoca vômito no meio da madrugada. suor frio na volta pra cama, pra dormir no máximo três horas. para amanhã viver tudo de novo. vocês nem poderiam perceber. eu tranquei as portas para morrer sozinho no terceiro andar. fechei com tijolos as janelas. encostei o armário pesado atrás da porta. apaguei as luzes para não ver o espelho. eu me tranquei para sempre, para morrer sozinho, na minha paranoia. abafei os gritos no travesseiro, para não incomodar os vizinhos. para ser encontrado semanas depois, debaixo das patas do meu gato faminto. a vida me incomoda como o som de unhas arranhando um quadro-negro sem parar. um ruído sem fim. cada vez mais alto. cada vez mais rápido. como vocês não escutaram também? como vocês não notaram que eu não suportava mais? 

vocês não viram que eu estava no limite? a borda da xícara estava para transbordar a qualquer momento. a vida escorreu, desceu pelos pés da mesa e sumiu entre as poeiras do chão da sala. morri pelo excesso, por você demais, por não suportar nem mais uma gota. nenhuma mesmo. o que já matou minha sede, acabou me afogando. 

como vocês não perceberam que eu estava morto há muito tempo?

morri, mais uma vez, por isso. por acreditar no que haviam me garantido, mentiras entre sorrisos. morri por não imaginar que seriam suas as mãos que iriam me conduzir até minha guilhotina. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

meu medo é que a gente deixe o tempo passar. que passe dias, semanas, meses, um ano, sei lá quantos anos podemos deixar passar. meu medo é que a gente mude. quer dizer, eu sei que a gente vai mudar, o problema não é esse. meu temor é o tempo passar indefinidamente até que eu não saiba mais nada da tua vida, até que você também não tenha para saber da minha, até sermos pessoas diferentes, separadas por inúmeras mudanças, centenas e centenas de minutos de distância, que nos impedirá, sempre, de voltarmos a ser as pessoas que um dia fomos, ou que queríamos ser, ou que pensávamos que um dia poderíamos ser.

nós não vamos nos esbarrar por ai como nos filmes. eu não terei a chance de ver sua felicidade à distância, ou de torcer contra o seu novo romance, ou de imaginar se ainda existe uma chance. isso não é uma comédia romântica, e não teremos direito à um final feliz. o mundo abaixo de nós foi desenhado para impedir o nosso encontro. nosso primeiro esbarrão foi uma falha ontológica. os outros que se seguiram foram apenas teimosia. as cidades foram planejadas pensando na nossa separação e, daqui a pouco, após tantos pontinhos riscados no meu mapa, após eu perder tantas páginas e dias que se passaram, não seremos mas aquelas pessoas que esperávamos nos transformar. teremos novos pensamentos, com opiniões diferentes sobre literatura, sobre as mudanças políticas, sobre os personagens de nossos filmes preferidos, estaremos em universos paralelos, separados por doze ou dezessete estações rodoviárias que nunca se cruzam.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma ontologia de nós dois

Eu existo, mas quase não existo. Você existe, e existe demais. Existimos em tempos iguais e em tempos diferentes. Você desde sempre existiu mais do que eu, você existe todas as horas, todos os minutos, todos os segundos; eu existo apenas uma ou duas vezes por semana e, em certas semanas, até me esqueço de existir. Você não esquece de existir nem naqueles momentos em que ninguém está prestando atenção em você, faz questão de existir independente do observador ou do discurso. Nunca encontrei um momento em que você não tenha existido, e existido por completo.

Há quanto tempo você existe? Eu já perdi a conta.

Se você tivesse começado a existir poucos anos atrás, eu teria escrito o seu nome vinte e três vezes numa folha de papel em branco e prendido com imã na porta da geladeira. Neste tempo eu não teria que me preocupar em refletir sobre sua ausência ou sua existência. Ficaria satisfeito em saber seu endereço, seu apelido e o nome de sua melhor amiga, ficaria feliz em apenas existir paralelamente.

Mesmo sendo mais jovem, você existe há mais tempo que eu. Porém, não existiu na hora certa, você teimou em existir de um jeito errado, resolveu existir por cima de mim, cobriu minha existência com a tua e eu não consegui existir neste espaço apertado que sobrou. Eu não sou capaz de deixar de existir mais do que já não existo para abrir espaço para você existir ainda mais. Nosso amor foi uma contradição ontológica.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Todo mundo merece um primeiro amor

Todo mundo merece ter um primeiro amor. Todo mundo merece ser o primeiro amor de alguém. Um primeiro amor não tem nada a ver com o tempo. Não importa se veio antes ou depois. O primeiro amor tem a ver com, ao menos uma vez na vida, ser capaz de despertar um amor tão intenso e desesperado que, por cinquenta ou cento e cinquenta anos, será lembrado como o melhor beijo, o melhor cheiro, o melhor sexo, o melhor passeio de mãos dadas pela cb, as melhores gargalhadas, as melhores conversas. Isso é um primeiro amor. Todo mundo deveria poder ter a experiência de sentir o coração de outra pessoa bater tão forte, tão forte, como se alguém tivesse arrancado do peito e colocado em tuas mãos, te deixando responsável por, de alguma forma, manter a vida naquele corpo.

Todo mundo merece ter um primeiro amor. Merece alguém que bombeie o seu sangue e destrua uma a uma todas as suas pequenas ilusões. Merece que alguém tome posse de seus pensamentos e tome crédito pela sua existência. Merece cada respiração profunda que alguém é capaz de realizar e cada dilatação na pupila. Todo mundo merece olhares apaixonados durante o jantar e mensagens bêbadas e sacanas na madrugada. Todo mundo merece alguém que faça enxergar a sombra de um coelho na lua simplesmente por estar naquela companhia, todo mundo merece a primeira tentativa de escrever poesia para outra pessoa.

Você foi o meu primeiro amor, e  eu fui o teu primeiro amor. Trocamos segredos, suor e salivas de formas irreversíveis, nossos corações contraíram-se involuntariamente, fomos desestabilizado pela realidade, e acho que não existe forma de amarmos pela primeira vez novamente.

De qualquer forma, muito obrigado por ter sido o meu primeiro amor.