meu medo é que a gente deixe o tempo passar. que passe dias, semanas, meses, um ano, sei lá quantos anos podemos deixar passar. meu medo é que a gente mude. quer dizer, eu sei que a gente vai mudar, o problema não é esse. meu temor é o tempo passar indefinidamente até que eu não saiba mais nada da tua vida, até que você também não tenha para saber da minha, até sermos pessoas diferentes, separadas por inúmeras mudanças, centenas e centenas de minutos de distância, que nos impedirá, sempre, de voltarmos a ser as pessoas que um dia fomos, ou que queríamos ser, ou que pensávamos que um dia poderíamos ser.
nós não vamos nos esbarrar por ai como nos filmes. eu não terei a chance de ver sua felicidade à distância, ou de torcer contra o seu novo romance, ou de imaginar se ainda existe uma chance. isso não é uma comédia romântica, e não teremos direito à um final feliz. o mundo abaixo de nós foi desenhado para impedir o nosso encontro. nosso primeiro esbarrão foi uma falha ontológica. os outros que se seguiram foram apenas teimosia. as cidades foram planejadas pensando na nossa separação e, daqui a pouco, após tantos pontinhos riscados no meu mapa, após eu perder tantas páginas e dias que se passaram, não seremos mas aquelas pessoas que esperávamos nos transformar. teremos novos pensamentos, com opiniões diferentes sobre literatura, sobre as mudanças políticas, sobre os personagens de nossos filmes preferidos, estaremos em universos paralelos, separados por doze ou dezessete estações rodoviárias que nunca se cruzam.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
terça-feira, 31 de outubro de 2017
Uma ontologia de nós dois
Eu existo, mas quase não existo. Você existe, e existe demais. Existimos em tempos iguais e em tempos diferentes. Você desde sempre existiu mais do que eu, você existe todas as horas, todos os minutos, todos os segundos; eu existo apenas uma ou duas vezes por semana e, em certas semanas, até me esqueço de existir. Você não esquece de existir nem naqueles momentos em que ninguém está prestando atenção em você, faz questão de existir independente do observador ou do discurso. Nunca encontrei um momento em que você não tenha existido, e existido por completo.
Há quanto tempo você existe? Eu já perdi a conta.
Se você tivesse começado a existir poucos anos atrás, eu teria escrito o seu nome vinte e três vezes numa folha de papel em branco e prendido com imã na porta da geladeira. Neste tempo eu não teria que me preocupar em refletir sobre sua ausência ou sua existência. Ficaria satisfeito em saber seu endereço, seu apelido e o nome de sua melhor amiga, ficaria feliz em apenas existir paralelamente.
Mesmo sendo mais jovem, você existe há mais tempo que eu. Porém, não existiu na hora certa, você teimou em existir de um jeito errado, resolveu existir por cima de mim, cobriu minha existência com a tua e eu não consegui existir neste espaço apertado que sobrou. Eu não sou capaz de deixar de existir mais do que já não existo para abrir espaço para você existir ainda mais. Nosso amor foi uma contradição ontológica.
Há quanto tempo você existe? Eu já perdi a conta.
Se você tivesse começado a existir poucos anos atrás, eu teria escrito o seu nome vinte e três vezes numa folha de papel em branco e prendido com imã na porta da geladeira. Neste tempo eu não teria que me preocupar em refletir sobre sua ausência ou sua existência. Ficaria satisfeito em saber seu endereço, seu apelido e o nome de sua melhor amiga, ficaria feliz em apenas existir paralelamente.
Mesmo sendo mais jovem, você existe há mais tempo que eu. Porém, não existiu na hora certa, você teimou em existir de um jeito errado, resolveu existir por cima de mim, cobriu minha existência com a tua e eu não consegui existir neste espaço apertado que sobrou. Eu não sou capaz de deixar de existir mais do que já não existo para abrir espaço para você existir ainda mais. Nosso amor foi uma contradição ontológica.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Todo mundo merece um primeiro amor
Todo mundo merece ter um primeiro amor. Todo mundo merece ser o primeiro amor de alguém. Um primeiro amor não tem nada a ver com o tempo. Não importa se veio antes ou depois. O primeiro amor tem a ver com, ao menos uma vez na vida, ser capaz de despertar um amor tão intenso e desesperado que, por cinquenta ou cento e cinquenta anos, será lembrado como o melhor beijo, o melhor cheiro, o melhor sexo, o melhor passeio de mãos dadas pela cb, as melhores gargalhadas, as melhores conversas. Isso é um primeiro amor. Todo mundo deveria poder ter a experiência de sentir o coração de outra pessoa bater tão forte, tão forte, como se alguém tivesse arrancado do peito e colocado em tuas mãos, te deixando responsável por, de alguma forma, manter a vida naquele corpo.
Todo mundo merece ter um primeiro amor. Merece alguém que bombeie o seu sangue e destrua uma a uma todas as suas pequenas ilusões. Merece que alguém tome posse de seus pensamentos e tome crédito pela sua existência. Merece cada respiração profunda que alguém é capaz de realizar e cada dilatação na pupila. Todo mundo merece olhares apaixonados durante o jantar e mensagens bêbadas e sacanas na madrugada. Todo mundo merece alguém que faça enxergar a sombra de um coelho na lua simplesmente por estar naquela companhia, todo mundo merece a primeira tentativa de escrever poesia para outra pessoa.
Você foi o meu primeiro amor, e eu fui o teu primeiro amor. Trocamos segredos, suor e salivas de formas irreversíveis, nossos corações contraíram-se involuntariamente, fomos desestabilizado pela realidade, e acho que não existe forma de amarmos pela primeira vez novamente.
De qualquer forma, muito obrigado por ter sido o meu primeiro amor.
Todo mundo merece ter um primeiro amor. Merece alguém que bombeie o seu sangue e destrua uma a uma todas as suas pequenas ilusões. Merece que alguém tome posse de seus pensamentos e tome crédito pela sua existência. Merece cada respiração profunda que alguém é capaz de realizar e cada dilatação na pupila. Todo mundo merece olhares apaixonados durante o jantar e mensagens bêbadas e sacanas na madrugada. Todo mundo merece alguém que faça enxergar a sombra de um coelho na lua simplesmente por estar naquela companhia, todo mundo merece a primeira tentativa de escrever poesia para outra pessoa.
Você foi o meu primeiro amor, e eu fui o teu primeiro amor. Trocamos segredos, suor e salivas de formas irreversíveis, nossos corações contraíram-se involuntariamente, fomos desestabilizado pela realidade, e acho que não existe forma de amarmos pela primeira vez novamente.
De qualquer forma, muito obrigado por ter sido o meu primeiro amor.
terça-feira, 10 de outubro de 2017
feliz aniversário
os livros da estante do meu escritório
não estão mais organizados pela cor
e estão cheio de digitais
de cada mão tua que tocou num livro meu
quando você virá buscá-las?
e cada dia que não troco os lençóis
-- nem mesmo as fronhas
porque eu sei que existem coisas tuas ali
delicadezas como o cheiro que escapa
do teu cabelo quando você prende
dia após dia
tenho medo e dúvidas
assim como você, eu sei
e não tenho outras coisas para colocar
nos espaços que ficaram
totalmente vazios
mas ainda sinto raiva
e estou com saudade
ainda não vi o teu nome passar
nos créditos finais
desse filme triste
feliz aniversário
não estão mais organizados pela cor
e estão cheio de digitais
de cada mão tua que tocou num livro meu
quando você virá buscá-las?
e cada dia que não troco os lençóis
-- nem mesmo as fronhas
porque eu sei que existem coisas tuas ali
delicadezas como o cheiro que escapa
do teu cabelo quando você prende
dia após dia
tenho medo e dúvidas
assim como você, eu sei
e não tenho outras coisas para colocar
nos espaços que ficaram
totalmente vazios
mas ainda sinto raiva
e estou com saudade
ainda não vi o teu nome passar
nos créditos finais
desse filme triste
feliz aniversário
quando você adormeceu
na primeira noite que passamos juntos
eu senti como se duas grandes asas
de um anjo se dobrassem sobre mim
fechei os olhos e dormi dentro do teu inferno particular
eu senti o ar que saia da tua boca
e compreendi finalmente a linguagem esotérica
desses pequenos deuses que sussurram segredos
através de olhos que se fecham em noites como aquela
eu segurei tua mão por baixo das cobertas
foi como segurar uma tocha ardente
naquela noite quente
eu entendi uma bela porção de enigmas
roubei teu fôlego e cataloguei distâncias
dormi séculos em dois instantes
e tu coube inteira nos meus braços
desde então farejo teu sono
diariamente sigo teus rastros
morrendo de medo de pedir para você voltar
(você volta?)
a tua voz já mora em meus ouvidos
o teu cheiro -- como chamas -- alastrou rapidamente
e quando você fechou os olhos
naquela noite de verão,
eu me perdi, incondicionalmente
na primeira noite que passamos juntos
eu senti como se duas grandes asas
de um anjo se dobrassem sobre mim
fechei os olhos e dormi dentro do teu inferno particular
eu senti o ar que saia da tua boca
e compreendi finalmente a linguagem esotérica
desses pequenos deuses que sussurram segredos
através de olhos que se fecham em noites como aquela
eu segurei tua mão por baixo das cobertas
foi como segurar uma tocha ardente
naquela noite quente
eu entendi uma bela porção de enigmas
roubei teu fôlego e cataloguei distâncias
dormi séculos em dois instantes
e tu coube inteira nos meus braços
desde então farejo teu sono
diariamente sigo teus rastros
morrendo de medo de pedir para você voltar
(você volta?)
a tua voz já mora em meus ouvidos
o teu cheiro -- como chamas -- alastrou rapidamente
e quando você fechou os olhos
naquela noite de verão,
eu me perdi, incondicionalmente
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Dizem que o amor pode nascer à primeira vista, mas será que podemos também determinar com a mesma precisão o momento que morre um amor? Podemos saber em qual segundo decisivo aquele sentimento, antes tão fundamental e indispensável, se transformou em cinza? Brutalmente, um período de minha vida parece ter chegado ao fim, e eu não tenho nada para substitui-lo, apenas uma angustiante ausência. Sempre tive inveja da segurança dos outros, a certeza de suas vidas fixas e seus planos elaborados. O que a vida vai significar de agora adiante? Nossos corpos, com o tempo, se tornaram estranhos. Muros serão construídos entre a gente e a separação, finalmente, será institucionalizada. É inevitável que seja assim.
Hoje os minutos passaram anestesiados. Sofrer um grande golpe e perder a capacidade de sentir algo, isso significa que o golpe foi realmente forte. Significa que fomos vencidos e que não vale mais a pena lutar. Qualquer outra pessoa eu teria mandado para o inferno, mas você não, e foi isso que tornou as coisas mais difíceis. O que ainda faz doer um pouco, talvez, seja saber que não podemos continuar nem como amigos, e ainda assim haver tanta coisa nos prendendo um ao outro. Talvez eu sinta saudades, às vezes. Talvez nada leve o que compartilhamos. Durante muito tempo amei os dias que passamos juntos. Parecia uma combinação tão improvável e surreal de coisas: cafés na Lima, maconha no quarto, filmes no netflix, algemas na cama. Quando se está apaixonado não é a duração do tempo que importa, mas a intensidade com que ele é experimentado. Queria, com todo coração, que nada estragasse isso. Mas já não tenho certeza disto. Eu só não quero mais continuar me magoando com você. Eu não poderia suportar ver todo o sentimento que tive por você se transformando em ódio.
O mais provável é que nossa história de amor se torne um bloco de gelo que aos poucos se derreta até não sobrar mais nada. A forma tímida que você segurou o hambúrguer na primeira vez que saímos, o olhar no teu rosto quando pedi para te beijar pela primeira vez, uma lembrança tua descendo do ônibus na rodoviária de Erechim com a cara de sono, seu casaquinho xadrez, a forma que você gargalhava quando eu contava uma piada idiota, seu jeito de se olhar no espelho antes de sair... Tudo isso, hoje eu sei, aos poucos, irá desaparecer. É impossível que seja diferente.
Passei a noite pensando no motivo de nossa última briga. Por que me senti tomado de assalto por uma sensação de traição se nem mais estamos juntos? Embora não houvesse um contrato, um status no facebook, entre nós havia um tipo de contrato do coração, uma ligação mais profunda que qualquer conveniência social, e foi por isso que tua deslealdade me machucou. Eu não espero que você entenda. A Sabrina que um dia amei, ela talvez fosse capaz de entender. Mas a pessoa que você se mostrou desde que terminamos, essa pessoa eu não tenho nenhuma expectativa que compreenda o que se passou. A questão também é que esse acontecimento não foi a causa de nosso afastamento definitivo, foi apenas mais um sintoma. Um sintoma de que somos incompatíveis. Fomos incompatíveis como namorados, incompatíveis como ficantes e seríamos incompatíveis como amigos. De certa forma, ninguém pode ser responsabilizado por isso. Eu não me zango com a Gata Dasein porque ela não sabe cantar, pois sua constituição nunca lhe deu a chance de fazer outra coisa senão miar. Da mesma forma, não se pode culpar alguém por ser como é. Ninguém escolhe ser compatível ou não com outra pessoa. Apenas acontece.
Hoje, caminhando pelo campus e pensando na gente, eu compreendi, pela primeira vez, que o mundo é o mesmo com ou sem você. Os prédios e os corredores nos quais durante muito tempo eu projetei nosso futuro -- me imaginava professor efetivado mostrando para você meu lugar de trabalho -- insistiam em continuar exatamente iguais. As mesmas árvores alinham o caminho até a parada do ônibus, o mesmo tipo de estudante espera na parada, até as mesmas conversas formam o cenário. A noite do inverno de Erechim tem o mesmo vento frio. Essa recusa de mudança apenas me lembrou que o mundo é uma coisa independente que vai continuar funcionando mesmo agora que eu sei que nunca mais vou te olhar nos olhos antes de um beijo.
Minha identidade foi durante tanto tempo, até depois que terminamos, construída em torno de uma expectativa futura de um "nós", que talvez apenas hoje, desde que segurei tua mão pela primeira vez, voltei a ser um "eu".
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