sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

uma analítica existencial do primeiro encontro ou jéssica e uma beleza fenomenológica

a tua forma de ser no mundo é certa impressão de fugacidade, um caráter improvável, fugitivo, como se estivesse sempre prestes a voar. é por isso que você impele para cima, por isso que você não está inteiramente presente: você não pesa de todo sobre o chão, tem os pés leves, frequentemente parece assustada, como se fosse sair fugindo ao menor som nas folhagens -- não que seja covarde, pelo contrário, é que se atreve a ir longe, sempre longe demais. dessa forma, teu ser, ao invés de manifestar-se abertamente, está oculto, escondido, negado, fechado em um tipo de interioridade. essa é a consequência mais radical de seu modo de ser: não ser coisa definida, ser um fenômeno que está sempre acontecendo, que consiste em um dinamismo e fugacidade. descrever esse modo de ser vai além da companhia no sentido de sairmos juntos: é uma constante interpretação.  

as linhas delicadas do teu rosto desenham uma ruptura: tu está sempre um pouco atrás de teu próprio rosto.  é o que mais propriamente chamo de um rosto bonito: não o que de imediado agrada por suas formas e que se consegue ver integralmente de uma única vez, mas o que se precisa continuar olhando, interminavelmente. é um tipo de beleza que se dilata e se afasta, elástica, para o futuro, e eu sentia que precisava estar olhando para esse rosto, indefinidamente, a noite inteira. 

terça-feira, 5 de novembro de 2019

estava olhando pela janela a rua lá fora e pensando no meu gosto por autores marginais. naqueles outsiders, deslocados, que pouco se fala numa aula de história da filosofia. naqueles que quando falamos a voz sai com dificuldade. que quando tentamos escrever sobre, as letrinhas caem como bolinhas de vidro e se quebram no chão. naqueles consumidos pela aporia mesmo. nos que não se encaixam no cânone, porque a vida não permite. não há tempo e um sistema filosófico é nada. 

lembro da melancolia de benjamin. nas frases quase no limite do sentido de derrida. de kierkegaard, cuja filosofia se confunde irremediavelmente com sua biografia de revolta e desespero. heidegger disse uma vez para sua mulher, falando sobre si mesmo: a vocação para uma tarefa é também uma condenação à solidão. todos queimaram a vida. todos consumidos pela aflição e pela angústia. 

defendi em minha tese de que há laços de família entre esses filósofos que escreveram à margem da história da filosofia. e deve haver, pois de certa forma se parecem. há laços entre aqueles que observam de longe o jogo da filosofia oficial. que espreitam pelas frestas das janelas tentando entender o mundo lá fora. os que olham as pessoas passando, os carros parados nos sinais fechados e enxergam muito mais.

o tecido da história, assim nos ensinam, foi composto fio por fio de forma ordenada. mas as filosofias propostas por esses autores são feitas de pedaços informes, tão movediças quanto a areia das dunas. foi preciso quebrar o ser. fragmentá-lo. e mesmo assim não sobrou nada. nem um pedaço sequer. o que se buscava era tão profundo que ninguém, nem mesmo eles, ousarem chegar perto. a única coisa que pode aproximar desse mistério, e talvez consolar ou suavizar, é um jeito (novo) de escrever. só assim se tem alguma fé ou confiança. porque torna um pouco claro e luminoso o que era ambíguo e obscuro. 

há sim laços entre aqueles que tentam vislumbrar o fundo dos abismos. como se todos viessem da mesma noite em que o silêncio preenche todos os espaços, deixando submersas em tristezas a aporias todas as coisas em sua volta. 

há laços. 

e apesar disso, são sempre tão sozinhos. 

terça-feira, 29 de outubro de 2019

para uma passante (da cb)

uma mulher fuma. não consigo compreender seu estilo. tem uma certa obscuridade, como um atraso no tempo. como se tivesse saído de algum bar punk do final dos anos oitenta. tem o cabelo pintado de laranja. seu penteado é tão artificial que parece ser uma peruca. não me olha. somente fuma e de uma maneira muito lenta. há algo em sua energia que me captura. transmite uma distância, um descompromisso com o cotidiano, como se estivesse buscando um compromisso maior com outras dimensões da existência. 

a mulher seguiu sem falar e seguiu fumando olhando para a rua. até que lentamente começou a desviar seus olhos para mim. sinto seu olhar em mim. creio que pela primeira vez na noite me dou conta que tenho um corpo. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

longe

não há o que se fazer quando longe não é um lugar. não há como chamar um uber, pegar um táxi, comprar uma passagem. nada pode ser feito quando o longe é por dentro, um não ser, uma coisa qualquer que nunca chega. por mais que se siga em frente a vida toda, longe é uma brecha que não se fecha. às vezes é um escuro que assusta, outras é uma claridade que cega. 

longe é quando as coisas vão morrendo, diante dos nossos olhos, sem que possamos salvá-las. longe é quando as coisas partem, quando se vão lentamente, sem como, sem quê. longe é quando não perdermos, mas as coisas que perdem a nós. 

nessa mônada que somos, cada um sabe o que arrasta por dentro. longe, às vezes, é bem onde a gente tá. 

gato

o gato que me olha
é um gato que tem olhos
e que me percebe
como eu o perceberia

é assim que eu olho
para o gato que me olha

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

sapatos (ari)

ali, por debaixo da mesa do restaurante, fiquei olhando os sapatos soltos do pé como se estivessem no chão da sala de casa. a roupa que ela vestia. a camisa lisa de manga longa, tão a cara dela, tão bem ajeitadinha. a bolsa, imitando o coro de crocodilo, com o fecho dourado, como se ela tivesse ficado em dúvida, na noite anterior, se ela combinava bem com a roupa. mas os sapatos, especialmente eles. pequenos, sem salto, baixos, escuros. ali, um do lado do outro, fora dos pés. isso me fez pensar como tudo aquilo que eu via era ela viva, e em como eu me sentia também vivo próximo daqueles sapatos tirados daquela forma e de como sempre vê-los ali, atirados, e nunca guardados dentro de algum armário.  

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

estranho

o que te desassossega?
o que te perturba até a alma?
o que bate a tua porta?
o que atravessa teus dias atravessa a chuva atravessa a tua vida
sem nenhum traço nenhuma sombra?
o estranho que te diz pare de sonhar menino
o mundo é perigoso é cego é surdo?
quem é que grita teu nome da rua
e não entra mesmo com a porta aberta?

não é aquele que tu também desassossega?
aquele que tu perturba até a alma?
aquele por quem tu bate a porta?
não é aquele cujos dias tu atravessa
sem deixar traço sem deixar sombra?
o estranho ao qual tu diz
pare de sonhar menino?
o nome que tu grita da rua
sem entrar pela porta aberta?