terça-feira, 29 de outubro de 2019

para uma passante (da cb)

uma mulher fuma. não consigo compreender seu estilo. tem uma certa obscuridade, como um atraso no tempo. como se tivesse saído de algum bar punk do final dos anos oitenta. tem o cabelo pintado de laranja. seu penteado é tão artificial que parece ser uma peruca. não me olha. somente fuma e de uma maneira muito lenta. há algo em sua energia que me captura. transmite uma distância, um descompromisso com o cotidiano, como se estivesse buscando um compromisso maior com outras dimensões da existência. 

a mulher seguiu sem falar e seguiu fumando olhando para a rua. até que lentamente começou a desviar seus olhos para mim. sinto seu olhar em mim. creio que pela primeira vez na noite me dou conta que tenho um corpo. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

longe

não há o que se fazer quando longe não é um lugar. não há como chamar um uber, pegar um táxi, comprar uma passagem. nada pode ser feito quando o longe é por dentro, um não ser, uma coisa qualquer que nunca chega. por mais que se siga em frente a vida toda, longe é uma brecha que não se fecha. às vezes é um escuro que assusta, outras é uma claridade que cega. 

longe é quando as coisas vão morrendo, diante dos nossos olhos, sem que possamos salvá-las. longe é quando as coisas partem, quando se vão lentamente, sem como, sem quê. longe é quando não perdermos, mas as coisas que perdem a nós. 

nessa mônada que somos, cada um sabe o que arrasta por dentro. longe, às vezes, é bem onde a gente tá. 

gato

o gato que me olha
é um gato que tem olhos
e que me percebe
como eu o perceberia

é assim que eu olho
para o gato que me olha

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

sapatos (ari)

ali, por debaixo da mesa do restaurante, fiquei olhando os sapatos soltos do pé como se estivessem no chão da sala de casa. a roupa que ela vestia. a camisa lisa de manga longa, tão a cara dela, tão bem ajeitadinha. a bolsa, imitando o coro de crocodilo, com o fecho dourado, como se ela tivesse ficado em dúvida, na noite anterior, se ela combinava bem com a roupa. mas os sapatos, especialmente eles. pequenos, sem salto, baixos, escuros. ali, um do lado do outro, fora dos pés. isso me fez pensar como tudo aquilo que eu via era ela viva, e em como eu me sentia também vivo próximo daqueles sapatos tirados daquela forma e de como sempre vê-los ali, atirados, e nunca guardados dentro de algum armário.  

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

estranho

o que te desassossega?
o que te perturba até a alma?
o que bate a tua porta?
o que atravessa teus dias atravessa a chuva atravessa a tua vida
sem nenhum traço nenhuma sombra?
o estranho que te diz pare de sonhar menino
o mundo é perigoso é cego é surdo?
quem é que grita teu nome da rua
e não entra mesmo com a porta aberta?

não é aquele que tu também desassossega?
aquele que tu perturba até a alma?
aquele por quem tu bate a porta?
não é aquele cujos dias tu atravessa
sem deixar traço sem deixar sombra?
o estranho ao qual tu diz
pare de sonhar menino?
o nome que tu grita da rua
sem entrar pela porta aberta?

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

janaina

ela é um labirinto escuro. o caos que se mostra é mais ou menos como um desenho perdido de um mapa -- de um lugar inencontrável. mapa. no mapa, nada de bairros ruas estradas rotas e caminhos. nada. nem qualquer sinal para sair do labirinto. no mapa apenas brilham faróis. um emaranhado de luzes intermitentes e um intricado de pétalas de uma rosa -- murcha. é um mapa do tempo. o tempo.  a escuridão.

apesar de tudo, no fundo dos seus olhos se vê as ondas do mar e as nuvens do céu. e a tristeza que faz com que ela seja ainda mais linda. 

terça-feira, 25 de junho de 2019

terça-feira

em heidegger o tempo não é pensando numa linearidade. a temporalidade é mais o horizonte de sentido do próprio ser. de tarde, a manhã pode parecer distante, mas nem por isso menos triste. a terça-feria deveria ser considerada o dia mais triste da semana, como são tristes as histórias de amor que acabam quando o amor ainda vive. nenhuma passagem de tempo pode mudar isso. a tristeza. a distância. o tempo. a terça-feira. que nada mude. que tudo se repita. que mesmo o amor mergulhe numa melancolia de terça-feira, até sumir na escuridão. 

há dias em que é noite sempre e sempre uma cortina dança ao vento. entre bebidas, palavras e cuidados. há um homem que escreve sobre o momento em que desentendeu o mundo. que se sente um pequeno barco à deriva. há alguma coisa que eu vejo quando a tristeza me toma. quando estendo as mãos no ar morno da noite escura. uma noite que me abre com punhaladas na pele. e alguma coisa me diz que há algo que não estou vendo. cegueira minha. a noite também é minha. serei quem mata, serei quem morre. não importa. algo me diz: mantenha os pés no chão. e retroceda apenas quando for a hora. quando é a hora? não se perca. a noite não é de ninguém. não há noite. e as coisas que vejo sem vê-las? 

cada pessoa deve carregar em si o sonho de poder fugir do tempo. carrega o desejo de existir como quem guarda velhos livros num baú. como quem esconde fotos, anotações e pequenas joias. onde tudo permanece. mas nem sempre é possível se esconder. não há mais casa dos pais para voltar, nem lua sobre as árvores. nada de lareiras. nem fogão a lenha para se comer bem. nem crianças correndo brincando rindo. nem banhos no começo da noite. nada daquele lugar de pequenas e grandes cumplicidades. 

minha primeira lembrança foi ter me visto sozinho. a segunda, humano. tempos depois entendi porque a boca queima durante alguns beijos. já era tarde. a noite escura sem lua. beija-se com tudo nesse mundo. com os olhos, com as mãos, com as narinas. inclusive com a boca.  no entanto, sobra sempre isto: a solidão que não somos capazes de romper. 

é pelas coisas que perdi que sei aonde estou. minha filosofia tem sido apenas isso: perdas. e até onde elas me levaram.