segunda-feira, 4 de junho de 2018

perdi a direção. aquela direção exata de quem sabe para onde vai. debaixo do curativo, a ferida ainda aberta. o fracasso é um bicho doido, aleatório. qual o nome do futuro que a parede cobriu e matou?armadilhas em pequenas flores azuis. o nada da solidão que sou no ponto sem táxi na rua vazia sem ônibus que passe. um soco na minha clavícula. roupas não revelam nem disfarçam estados de ânimo. a garota que amo está comigo apesar do pouco que sou.

terça-feira, 17 de abril de 2018

quanto uma galáxia precisa envelhecer para que surja um pouco de vida? olhe para o céu, e a gente aqui, quanto nós ainda precisaremos envelhecer para finalmente estarmos mergulhados em um pouco de vida? ventos na areia, rios que passam sobre a pele, serpentes cósmicas. fogo princípio e desolação. há alguma coisa que não não sabemos o nome. por não conhecer. 

quantas pessoas morrem, e a gente não sabe. tantas pessoas nascem e entram em nossas vidas. uma luz se acende no prédio da frente e se apaga, no apartamento ao lado ninguém vê os dias que passam, manhã tarde noite. um café, um passeio pelo centro. a gente não sabe o nome do vizinho, quem vive perto, quem vem de longe, as luzes que se apagam e que se acendem mais tarde no verão, esse calor, e há quem sinta frio e há quem não sinta nada e há quem diga eu desisto. quanta gente. quem sabe. 

e esse vazio do que é feito? é silêncio? é mar? é busca? é ausência? é limite ou ponte? é a mão dada à minha para que eu não me perca. até que no escuro mais escuro, quando não houver mais diferença entre abrir e fechar os olhos, quando soltar a mão, a minha mão, e ouvir, de longe, sua voz: finalmente, vida. 




terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

a garota

dizem que o problema de ser baterista é que demora muito para desmontar o instrumento e, quando finalmente se termina, as garotas já foram embora. kafka, em uma carta à sua noiva, felice bauer, escreveu que no fundo o motivo mais importante para ele escrever era conquistar as garotas. no meu caso, eu escrevo mesmo é para conquistar sempre de novo a mesma garota. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

te descobri frágil, como porcelana, apenas quando percebi os cacos espalhados pelo chão. com teu corpo quebrado em dezenas de pedaços coloridos, algum sumidos por debaixo dos móveis ou atrás das cortinas. eu te segurei, apertei entre os dedos, sem saber que toda essa força poderia te quebrar. como quem exagera na quantidade da água, tentando fortalecer a planta, mas acaba transbordando o vaso. eu tentei te proteger, esquecendo que tu não sobreviveria sem ar no escuro da caixa de papelão. queria que tu fosse só minha, e esqueci que a estrela mantém a beleza, mas morre quando é retirada de seu mar. eu precisei que a gente quebrasse, para descobrir que amor demais também pode destruir. 

domingo, 28 de janeiro de 2018

imanência

mesmo te conhecendo há um tempo, mesmo sabendo que tu é a pessoa no mundo que melhor me conhece, sempre sinto que não te conheço o bastante e que nunca vou chegar a te conhecer. seja porque tu esconde o que pensa, porque pensa muito diferente de mim, ou então, o que é mais provável, porque praticamente não pensa. tu não pensa em ser ou em fazer. tu é e faz. teu mistério está em ser, e nada é mais misterioso do que uma pessoa que simplesmente é. uma imanência pura, sem metáfora, sem mentira, sem metafísica, sem palavras ou estratégias. para mim estar contigo nunca foi completamente fácil justamente porque é fácil demais. eu sou tão complicado, e tu tão simples. simples na integridade, na justeza da simplicidade. eu sinto que contigo algo está sempre nascendo em mim. 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

chove muito no que escrevo de uns tempos para cá. tu deve ter reparado. não há mais lugar para um céu limpo. minha cidade está sempre cinza. o vento sempre leva para longe alguma coisa. os papéis, o cheiro de um perfume. tem havido dor demais no que eu escrevo. não são mais posts de amores perfeitos. nunca mais. a lágrima é sempre de saudade. as frases estão confusas, as fotos estão queimadas. só há lugar para músicas tristes, tocando pelo apartamento. letras melancólicas, rimas imperfeitas. há exagero demais no que ando escrevendo. vômitos, berros, sangue e palavrões. há verdades demais, arrependimentos demais. há vida demais. a minha vida. talvez seja preciso colocar uma outra vida naquilo que escrevo. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

para que eu mude de ideia, não adianta tu fazer promessas. colocar uma cruz nas costas e andar pelo meio da estrada, debaixo do sol. não adianta acender velas, rezar o terço, amarrar fitas no braço, guardar santinho na carteira. não adianta subir os degraus da catedral de joelhos. eu não vou mudar de ideia. tu pode tentar fazer simpatia. escrever meu nome numa folha, jogar um pouco de mel, roubar uma cueca da minha gaveta, enterrar minha foto no quintal. mas eu não vou mudar de ideia. tu pode tentar usar a força. compre uma faca, um canivete, uma espingarda. arranje um revólver. arrombe minha porta com um dos pés. invada minha casa. transforme minha sala num cativeiro. me faça de refém. me machuque, aos poucos, para que eu mude de ideia. me deixe sem ar com a cabeça mergulhada num balde. dê choques pelo meu corpo molhado. ameaça queimar meus livros, jogar fora minhas anotações, destruir minha família, quebrar os meus móveis, matar o meu gato. piche minhas paredes com xingamentos. tu pode tentar, ser convincente, mas não vai funcionar. eu não me contento mais apenas com desculpas. do meu lado tu não fica nunca mais.