é estranho, depois de algum tempo, voltar a viver na cidade que tu nasceu e cresceu.
nunca é familiar como se imagina.
tem dias que palmeira parece dura e indiferente feito concreto.
que a rua é só um conjunto organizado e plano de pedras.
que um bairro é só um bairro, e não uma lembrança do lugar em que a gente cresceu.
que a chuva nunca vem e não existe cheiro de terra molhada que possa trazer, como em proust, de volta a infância no quintal da primeira casa.
tem dias que a comida é sem graça e a bebida, a única companhia.
acordar é cansativo e dormir não é uma saída.
tem dias que todas as casas parecem vazias, e a gente se irrita por não saber dizer o que a linguagem, sozinha, diria.
em dias assim, sem vida, a cabeça está dormente e o olhar não fixa: desliza sobre as coisas sem alegria, seco, indiferente, morto.
e em dias assim, a gente só quer hibernar como um urso, submergir como uma baleia, encolher o corpo até caber de volta no casulo, e lá dentro ficar, até quase não ser.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
débora
uma paixão ainda não realizada produz uma sensação de flutuação, de embriaguez ligeira, de nostalgia pelo que pode acontecer. porém, quando menos se espera, chega o real, chefe supremo das forças militares de tudo o que acontece, e abate a tiros, ou simplesmente com uma sacudidinha, o voo do bobo apaixonado. e a paixão que iria acontecer nem foi e já passou. já passou.
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
às vezes tudo parece bem até o momento em que você começa a fazer perguntas. por que eu escolhi essa carreira? por que não aceitei um emprego qualquer e uma vida normal com esposa e filhos? e só piora quando tu começa a pensar em como vai ser daqui cinco ou dez anos. esses dias, me fizeram essa maldita pergunta: tu sabe como vai estar daqui alguns anos? a vontade era de mandar se foder. não, não sei. muita gente não tem tempo de pensar nisso. ou morre jovem demais. de certa forma eu invejo quem morre jovem. se livrou de se tornar adulto, de declarar imposto de renda, de pagar contas, de ver seus pais envelhecerem e ter que pensar se vai conseguir cuidar deles no futuro. sinto um pouco de inveja. porque tenho sentido medo de pensar no futuro. e isso não quer dizer que me apegue ao presente. também não estou satisfeito com meus dias atuais. e, em meu passado, não vejo muita coisa digna de ser contabilizada.
você reclama de tudo, chaleira.
reclamar. gosto mesmo de reclamar. é isso que separa os sonhadores dos medíocres. reclamar determina o perfil dos questionadores e os afasta dos conformados. tudo vai continuar a mesma merda se a gente não parar para reclamar um pouquinho. prefiro ficar desse lado de cá, do lado dos que reclamam. reclamar é começar a deixar de aceitar as coisas como elas parecem ser.
tenho pensado com certa frequência em envelhecer. os velhos que eu conheço me irritam, e eu não quero ficar como eles. sempre tive uma vida não convencional: sou o único, entre meus amigos, sem uma relação estável, não sei se quero ter filhos, não almoço ao domingo com minha família. fico bastante tempo longe de meus pais -- e, quando estou perto, minha paciência se esgota na primeira hora. minha cabeça não suporta mais certas chateações. prefiro ficar na minha, distante. com meus livros e minha gata me fazendo companhia.
a gata não me pergunta nada. pelo contrário, ela me joga na cara as maiores verdades. é isso que eu quero. quero sobreviver sem enlouquecer. pelo menos pelos próximos dois anos.
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
medo
eu tenho visto muita gente com medo. medo de ter medo o tempo todo. e de não ter nada mais, nada mesmo, no que acreditar. medo. uma arma, brincando de roleta russa, apontada para tua cabeça. e quem segura a arma e aperta o gatilho é justamente quem tu ama.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
não estranhe a solidão. não há ninguém mais se divertindo pelas ruas. lotando os bares ou saindo das festas aos gritos. as vozes não entram mais pela janela do apartamento. não se assuste com a imagem no espelho. essa é você mesma. a maquiagem não esconde mais as marcas. traços fortes, espalhados pelo teu rosto. feiuras escondidas por trás da máscara. é assim que tu é. o perfume não disfarça mais teu cheiro podre. este cheiro é teu. a roupa não oculta mais o teu mau gosto. o silêncio, no lugar da música alta, revela as bobagens que tu sempre disse. agora todos ouvem. agora todos te conhecem. não te espante. a droga não disfarça mais o teu tédio. a bebida não tira mais o amargo da boca. esse é teu gosto. essa é você. agora todos sabem o teu verdadeiro nome.
para tentar fugir, tu conversa. todas as quartas ou quintas-feiras, sentada em um sofá confortável, com uma desconhecida. para tratar dos teus problemas, tu diz. com o tempo contado, ela te escuta, fazendo anotações em um caderno de capa amassada. tantas horas, tantos dias. uma vida toda correndo atrás de aplausos. agora tu espera por esses encontros semanais. achando que vai ser tudo tão simples. desintoxicação. sucesso garantido. memória apagada. começar do zero. simples assim. sem precisar encarar o rosto no espelho. suportar o cheiro podre. sentir na saliva o teu próprio gosto ruim. uma nova vida. agora, tu faz de conta. finge que eu nunca existi. apaga minhas fotos, rasga meus textos. esquece minhas mãos. todas as noites, você vomita ajoelhada sobre o piso gelado. com dois dedos na garganta. para limpar a sujeira que vive dentro de ti. rejeita o que antes já foi tua droga. me amaldiçoa como mais um dos teus erros. e agora, você tenta fugir da imagem que reflete no espelho. jura que esse cheiro não é teu.
mas, me escute. pelo menos uma vez, não fuga. não te assuste com o espelho, com o silêncio, com o cheiro. é você. sem disfarces. sem os trapos coloridos. sem os teus truques de sempre. é o teu reflexo no espelho. foi isso o que tu sempre foi. olhe bem. tente ver, por alguns segundos. sem medo. está olhando? esta é você. nua. feito uma minhoca.
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
talvez ninguém perceba, mas debaixo dessa pele, algo em mim apodrece. não se pode ver, mas, por trás da casca, as coisas tomam outra cor. estão em outro estado. eu escureço. é negro. ainda é pequeno, mas cresce cada dia mais, em volta da ferida. e isso explica o riso forçado, quando nada tem graça; o beijo, quando a vontade é de cuspe; o desejo de estar no lado oposto da rua, com a cabeça baixa, quando o encontro com um conhecido me surpreende. é uma mancha negra, que cresce cada dia, que explica o "tudo vai dar certo" quando eu sei que o prazo está vencendo e que o fim é inevitável. são pequenos vermes, microscópicos, multiplicando-se em meus miolos, famintos e silenciosos. e que me fazem aceitar, quando gostaria de quebrar os móveis, os vidros das janelas, rasgar as roupas, derrubar os quadros, os espelhos, os vasos. que explicam o silêncio, quando eu gostaria de gritar. é essa mancha negra, minúscula, escondida em minha cabeça. só por ainda ser pequena, que me faz suportar o ambiente, a repetição dos dias, a indiferença, a burrice, a lerdeza. enquanto ainda for pequena, consigo manter essa aparência firme e saudável. enquanto a mancha não se espalhar totalmente, como um câncer, ainda consigo um sorriso ao invés de uma ofensa. o beijo ao invés do cuspe. o silêncio ao invés do grito. o sim ao invés do não. porém, a cada minuto apodreço mais. aos poucos. estou mudando a cada dia. talvez ninguém veja.
não sangre sobre o tapete.
não morra, idiota, não morra.
não morra, idiota, não morra.
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
de onde vem essa tua vontade de abismo?
o que aconteceu que a chuva secou e você não?
o que se deu para que tua vida nunca tenha sol?
o que aconteceu para a morte não ser mais suficiente?
o que foi que se deu?
to cansado de ser o adeus
e você o nunca mais.
eu esperei tanto -
tempo que nem por mim esperaria
um sinal dos céus,
um telefone tocando,
pela porta de trás, da casa vazia
não te reconheceria,
noites sozinho, noites sozinha
lembra? de tudo antes de ser?
tínhamos outros nomes.
o que foi que se deu?
o que aconteceu que a chuva secou e você não?
o que se deu para que tua vida nunca tenha sol?
o que aconteceu para a morte não ser mais suficiente?
o que foi que se deu?
to cansado de ser o adeus
e você o nunca mais.
eu esperei tanto -
tempo que nem por mim esperaria
um sinal dos céus,
um telefone tocando,
pela porta de trás, da casa vazia
não te reconheceria,
noites sozinho, noites sozinha
lembra? de tudo antes de ser?
tínhamos outros nomes.
o que foi que se deu?
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