Me sinto desarmado. Estou perdido para sempre na borracheira contínua dos dias. Vem me abraça, me envolve em teus braços, porque senão me perco, me parto, me quebro em mil pedaços. Me abraça. só quero dormir entre teus braços e sonhar sonhos bonitos, sonhar que estamos em um trem indo até o sol, e quando acordar que tu esteja do meu lado. Porque nós dois estaremos envolvidos pelo véu do amor, aquele véu transparente do amor, aquela capa transparente de flores e com cheiro de chuva que nos deixa invisíveis e protegidos. Arranca de uma vez essa sensação de estar patinando em um piso frágil de gelo que pouco a pouco se quebra embaixo dos meus pés. Estamos longe do mundo, longe da noite, longe de nossos próprios corpos. Já nem temos necessidade de falar. Entre nós há outra língua. A linguagem das mãos, a linguagem do silêncio dos rinocerontes. Nesse momento me esqueço de tudo. Não me importa mais nada. Esqueço do meu nome, esqueço do meu sexo, esqueço da minha origem, esqueço da minha metafísica. Esqueço de tudo porque aqui contigo, nessa noite de inverno, nessa rua da Cidade Baixa, eu tenho tudo. Aqui te direi que meu nome são teus beijos, minha origem são tuas mãos, minha metafísica são teus olhos e meu sexo são teu cheiro e teu suor.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
domingo, 21 de maio de 2017
Eu não vou mais escrever sobre você
Eu não vou mais ficar bêbado e escrever sobre você. Essa é a última vez que escrevo sobre você. Tá certo que das outras vezes eu deletei os posts antes mesmo de terminar, mas você deveria saber, deveria ter adivinhado. deveria ter sentido minhas palavras confusas viajando sobre os fios de luz que estragam a paisagem e misturando-se a luz do teu apartamento. Deveria ter sentido minhas palavras escorrendo junto com a água do teu chuveiro e lavando os teus cabelos. Contaminei toda a água de porto alegre com minhas tóxicas palavras de amor. Os peixes estão morrendo, meu amor está consumindo todo o oxigênio que existe nos rios e nos lagos. O mau cheiro já viajou pelo ar até tua rua, mas você simplesmente fechou a janela e ligou o ventilador. Nem mesmo percebeu que os pescadores não fazem mais feira aos domingos no mercado. Eu peço desculpas pelo incômodo, mas a melhor forma que encontrei para me comunicar foi a putrefação.
Eu não vou mais escrever sobre você. Sim, é verdade, você nunca me pediu tal coisa. Tua memória continua excelente. Mas você não olhou nos meus olhos, não cheirou minhas roupas, não entrelaçou nossos dedos? Tudo o que escrevo sobre você é um desagradável pleonasmos das suplicas de meu corpo. Sempre pensei que meu amor assim tão espalhado pelo mundo te faria ir embora ainda antes. De qualquer forma você foi, Eu sempre achei que sofreria antecipadamente pelo vazio que ficaria quando você fosse embora. Você foi. Não sei se foi realmente pelo que conversamos ou você apenas encontrou um motivo estúpido para permanecermos inocentes. Às vezes gostaria de não ter te dedicado amor nenhum. Outras vezes penso que foi melhor que eu tenha te dado meu amor por completo de uma só vez, e você que o guarde. Ou deixe-o mofar, ou dê para os mendigos da venâncio comer. Faça com ele o que quiser, desde que o leve para longe de mim. Continue indo embora de mãos dadas com meu amor. Não pise na grama e cuidado com a água que você resolver beber pelo caminho. Fora isso, pode ir sem se preocupar. Eu, como sempre, decidi não escrever mais sobre você.
sexta-feira, 19 de maio de 2017
amor
o amor não tem nada para ensinar;
não pergunte nada ao amor;
o amor não está aqui nem está em outro lugar;
não procure o amor no fundo de nada;
o amor só sobrevive na superfície;
sobretudo não o procure;
mas não espere que ele lhe encontre;
não morra de amor;
o amor não deveria machucar;
o amor não precisa de homenagens ou de respeito;
o amor não é uma entidade;
ele não tem autonomia para cair sobre quem bem entender;
porque o amor não é uma coisa em si;
ele é frágil e menor;
é preciso saber ouvir.
ouça.
agora mesmo.
ele está falando.
você escutou?
escutou?
eu sei que você também consegue escutar.
não pergunte nada ao amor;
o amor não está aqui nem está em outro lugar;
não procure o amor no fundo de nada;
o amor só sobrevive na superfície;
sobretudo não o procure;
mas não espere que ele lhe encontre;
não morra de amor;
o amor não deveria machucar;
o amor não precisa de homenagens ou de respeito;
o amor não é uma entidade;
ele não tem autonomia para cair sobre quem bem entender;
porque o amor não é uma coisa em si;
ele é frágil e menor;
é preciso saber ouvir.
ouça.
agora mesmo.
ele está falando.
você escutou?
escutou?
eu sei que você também consegue escutar.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Sobre seguir em frente
Ontem eu dormi pela primeira vez desde que a gente terminou sem a ajuda de comprimidos.
sábado, 1 de abril de 2017
Desde que a gente terminou
Desde que a gente terminou: alguém girou a torneira do banheiro para lavar o próprio rosto; alguém se preparou para morrer; alguém nasceu e encheu de amor alguma família; alguém descobriu alguma nova fórmula para curar alguma doença; alguém ficou sem ter ninguém para abraçar numa noite solitária; alguém ficou alegre apenas por ouvir sua música preferida tocar no rádio do carro; algum casal assistiu a um velho filme em um cinema decadente; alguém caminhou pelo centro de Porto Alegre e sem querer esbarrou no sapato de outra pessoa; alguém riu com um meme da ines brasil e marcou as amigas para rirem também; alguém ficou preso no trânsito e perdeu um compromisso importante; alguém acendeu um cigarro na boca de um fogão a gás; alguém entendeu que em metafísica ser e fundamento não são a mesma coisa; alguma criança levou fanta uva para o piquenique da escola; alguém se deu conta que todos os meses do ano terminam com a letra "o", menos abril. Muita coisa aconteceu desde que a gente terminou. A única coisa que não aconteceu foi eu conseguir parar de pensar em você. Nem por um único minuto.
sexta-feira, 31 de março de 2017
Phármakon
Desde que o li pela primeira vez, a Farmácia de Platão, de Derrida, é um dos meus textos preferidos na Filosofia. O filósofo defende lá que a tradição filosófica, desde Platão, sempre privilegiou a fala, a voz viva, e criticou a escrita como um fantasma, uma forma de expressão sem vida e alienada. A palavra escrita não pode transmitir com a mesma precisão do que a palavra falada, e por isso ela foi relacionada com o phármakon por Platão.
Phármakon, como mostra Derrida, significa remédio e veneno ao mesmo tempo. Esse sentido ambíguo do termo grego é o que me interessa. Aquilo que nos cura também nos mata. Aquilo que nos mata, em suas devidas doses, pode nos salvar. E o que por muito tempo nos salvou, é aquilo que acaba nos matando.
Você sempre será o meu phármakon, meu remédio e meu veneno, minha salvação e minha morte, a minha droga preferida.
quarta-feira, 29 de março de 2017
Sobre dar um tempo
Eu te devo isso. E hoje, pensando no tempo que estamos dando e no tempo que ficamos juntos, o medo bateu. E bateu muito forte. Lembrei do nascimento de um amor. Poucos amores nascem, crescem e florescem. Normalmente parece que as pessoas nascem prontas, embrulhadas para presentes. Mas com você foi diferente. Fomos quebrando os espinhos aos poucos. Começou naquela aventura confusa e maravilhosa pelas ruas da CB. Era pra ser só um tacaço, lembra? Foi logo ali que eu aprendi a te respeitar. Depois, Porto Alegre, apezinhos na Venâncio, a relação se fortaleceu entre as madrugadas, bares e Netflix. Por isso, hoje, o medo veio muito forte. Eu não sei o que teria sido de mim sem você naquele momento. Não importam os motivos: foi intenso e caótico para nós dois. Eu sei, mas era você que estava comigo naquele apartamento, rindo das minhas piadas, me botando pra cima numa fase da minha vida em que o mundo inteiro me dizia que eu não era nada. Era você que estava lá comigo, e isso era só o que importava. Porque os verdadeiros casos de amor não surgem do nada, embrulhados para presentes. As pessoas são como flores: tem que saber como tocar e segurar. Se não, é sempre sangue e saudade. É bom ter
alguém para dividir as coisas. Ou somar. Às vezes muita coisa falta. Às vezes
muita coisa sobra e eu não sei onde guardar.
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