terça-feira, 10 de outubro de 2017

a nossa história poderia ser 
uma música bonita de Belchior
nós de mãos dadas lendo os cartazes 
de um cinema na olaria 
ou escondidos num café 
no bairro agitado de uma cidade grande qualquer
o seu nome ainda não passou 
nos créditos finais 
desse filme triste 

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Dizem que o amor pode nascer à primeira vista, mas será que podemos também determinar com a mesma precisão o momento que morre um amor? Podemos saber em qual segundo decisivo aquele sentimento, antes tão fundamental e indispensável, se transformou em cinza? Brutalmente, um período de minha vida parece ter chegado ao fim, e eu não tenho nada para substitui-lo, apenas uma angustiante ausência. Sempre tive inveja da segurança dos outros, a certeza de suas vidas fixas e seus planos elaborados. O que a vida vai significar de agora adiante? Nossos corpos, com o tempo, se tornaram estranhos. Muros serão construídos entre a gente e a separação, finalmente, será institucionalizada. É inevitável que seja assim. 

Hoje os minutos passaram anestesiados. Sofrer um grande golpe e perder a capacidade de sentir algo, isso significa que o golpe foi realmente forte. Significa que fomos vencidos e que não vale mais a pena lutar. Qualquer outra pessoa eu teria mandado para o inferno, mas você não, e foi isso que tornou as coisas mais difíceis. O que ainda faz doer um pouco, talvez, seja saber que não podemos continuar nem como amigos, e ainda assim haver tanta coisa nos prendendo um ao outro. Talvez eu sinta saudades, às vezes. Talvez nada leve o que compartilhamos. Durante muito tempo amei os dias que passamos juntos. Parecia uma combinação tão improvável e surreal de coisas: cafés na Lima, maconha no quarto, filmes no netflix, algemas na cama. Quando se está apaixonado não é a duração do tempo que importa, mas a intensidade com que ele é experimentado. Queria, com todo coração, que nada estragasse isso. Mas já não tenho certeza disto. Eu só não quero mais continuar me magoando com você. Eu não poderia suportar ver todo o sentimento que tive por você se transformando em ódio.  

O mais provável é que nossa história de amor se torne um bloco de gelo que aos poucos se derreta até não sobrar mais nada. A forma tímida que você segurou o hambúrguer na primeira vez que saímos, o olhar no teu rosto quando pedi para te beijar pela primeira vez, uma lembrança tua descendo do ônibus na rodoviária de Erechim com a cara de sono, seu casaquinho xadrez, a forma que você gargalhava quando eu contava uma piada idiota, seu jeito de se olhar no espelho antes de sair... Tudo isso, hoje eu sei, aos poucos, irá desaparecer. É impossível que seja diferente. 

Passei a noite pensando no motivo de nossa última briga. Por que me senti tomado de assalto por uma sensação de traição se nem mais estamos juntos? Embora não houvesse um contrato, um status no facebook, entre nós havia um tipo de contrato do coração, uma ligação mais profunda que qualquer conveniência social,  e foi por isso que tua deslealdade me machucou. Eu não espero que você entenda. A Sabrina que um dia amei, ela talvez fosse capaz de entender. Mas a pessoa que você se mostrou desde que terminamos, essa pessoa eu não tenho nenhuma expectativa que compreenda o que se passou. A questão  também é que esse acontecimento não foi a causa de nosso afastamento definitivo, foi apenas mais um sintoma. Um sintoma de que somos incompatíveis. Fomos incompatíveis como namorados, incompatíveis como ficantes e seríamos incompatíveis como amigos. De certa forma, ninguém pode ser responsabilizado por isso. Eu não me zango com a Gata Dasein porque ela não sabe cantar, pois sua constituição nunca lhe deu a chance de fazer outra coisa senão miar. Da mesma forma, não se pode culpar alguém por ser como é. Ninguém escolhe ser compatível ou não com outra pessoa. Apenas acontece. 

Hoje, caminhando pelo campus e pensando na gente, eu compreendi, pela primeira vez, que o mundo é o mesmo com ou sem você. Os prédios e os corredores nos quais durante muito tempo eu projetei nosso futuro -- me imaginava professor efetivado mostrando para você meu lugar de trabalho -- insistiam em continuar exatamente iguais. As mesmas árvores alinham o caminho até a parada do ônibus, o mesmo tipo de estudante espera na parada, até as mesmas conversas formam o cenário. A noite do inverno de Erechim tem o mesmo vento frio. Essa recusa de mudança apenas me lembrou que o mundo é uma coisa independente que vai continuar funcionando mesmo agora que eu sei que nunca mais vou te olhar nos olhos antes de um beijo. 

Minha identidade foi durante tanto tempo, até depois que terminamos, construída em torno de uma expectativa futura de um "nós", que talvez apenas hoje, desde que segurei tua mão pela primeira vez, voltei a ser um "eu".

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O silêncio dos rinocerontes

Me sinto desarmado. Estou perdido para sempre na borracheira contínua dos dias. Vem me abraça, me envolve em teus braços, porque senão me perco, me parto, me quebro em mil pedaços. Me abraça. só quero dormir entre teus braços e sonhar sonhos bonitos, sonhar que estamos em um trem indo até o sol, e quando acordar que tu esteja do meu lado. Porque nós dois estaremos envolvidos pelo véu do amor, aquele véu transparente do amor, aquela capa transparente de flores e com cheiro de chuva que nos deixa invisíveis e protegidos. Arranca de uma vez essa sensação de estar patinando em um piso frágil de gelo que pouco a pouco se quebra embaixo dos meus pés. Estamos longe do mundo, longe da noite, longe de nossos próprios corpos. Já nem temos necessidade de falar. Entre nós há outra língua. A linguagem das mãos, a linguagem do silêncio dos rinocerontes. Nesse momento me esqueço de tudo. Não me importa mais nada. Esqueço do meu nome, esqueço do meu sexo, esqueço da minha origem, esqueço da minha metafísica. Esqueço de tudo porque aqui contigo, nessa noite de inverno, nessa rua da Cidade Baixa, eu tenho tudo. Aqui te direi que meu nome são teus beijos, minha origem são tuas mãos, minha metafísica são teus olhos e meu sexo são teu cheiro e teu suor. 

domingo, 21 de maio de 2017

Eu não vou mais escrever sobre você

Eu não vou mais ficar bêbado e escrever sobre você. Essa é a última vez que escrevo sobre você. Tá certo que das outras vezes eu deletei os posts antes mesmo de terminar, mas você deveria saber, deveria ter adivinhado. deveria ter sentido minhas palavras confusas viajando sobre os fios de luz que estragam a paisagem e misturando-se a luz do teu apartamento. Deveria ter sentido minhas palavras escorrendo junto com a água do teu chuveiro e lavando os teus cabelos. Contaminei toda a água de porto alegre com minhas tóxicas palavras de amor. Os peixes estão morrendo, meu amor está consumindo todo o oxigênio que existe nos rios e nos lagos. O mau cheiro já viajou pelo ar até tua rua, mas você simplesmente fechou a janela e ligou o ventilador. Nem mesmo percebeu que os pescadores não fazem mais feira aos domingos no mercado. Eu peço desculpas pelo incômodo, mas a melhor forma que encontrei para me comunicar foi a putrefação. 

Eu não vou mais escrever sobre você. Sim, é verdade, você nunca me pediu tal coisa. Tua memória continua excelente. Mas você não olhou nos meus olhos, não cheirou minhas roupas, não entrelaçou nossos dedos? Tudo o que escrevo sobre você é um desagradável pleonasmos das suplicas de meu corpo. Sempre pensei que meu amor assim tão espalhado pelo mundo te faria ir embora ainda antes. De qualquer forma você foi, Eu sempre achei que sofreria antecipadamente pelo vazio que ficaria quando você fosse embora. Você foi. Não sei se foi realmente pelo que conversamos ou você apenas encontrou um motivo estúpido para permanecermos inocentes. Às vezes gostaria de não ter te dedicado amor nenhum. Outras vezes penso que foi melhor que eu tenha te dado meu amor por completo de uma só vez, e você que o guarde. Ou deixe-o mofar, ou dê para os mendigos da venâncio comer. Faça com ele o que quiser, desde que o leve para longe de mim. Continue indo embora de mãos dadas com meu amor. Não pise na grama e cuidado com a água que você resolver beber pelo caminho. Fora isso, pode ir sem se preocupar. Eu, como sempre, decidi não escrever mais sobre você. 

sexta-feira, 19 de maio de 2017

amor

o amor não tem nada para ensinar;
não pergunte nada ao amor;
o amor não está aqui nem está em outro lugar;
não procure o amor no fundo de nada;
o amor só sobrevive na superfície;
sobretudo não o procure;
mas não espere que ele lhe encontre;
não morra de amor;
o amor não deveria machucar;
o amor não precisa de homenagens ou de respeito;
o amor não é uma entidade;
ele não tem autonomia para cair sobre quem bem entender;
porque o amor não é uma coisa em si;
ele é frágil e menor;
é preciso saber ouvir.
ouça.
agora mesmo.
ele está falando.
você escutou?
escutou?
eu sei que você também consegue escutar.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre seguir em frente

Ontem eu dormi pela primeira vez desde que a gente terminou sem a ajuda de comprimidos.

sábado, 1 de abril de 2017

Desde que a gente terminou

Desde que a gente terminou: alguém girou a torneira do banheiro para lavar o próprio rosto; alguém se preparou para morrer; alguém nasceu e encheu de amor alguma família; alguém descobriu alguma nova fórmula para curar alguma doença; alguém ficou sem ter ninguém para abraçar numa noite solitária; alguém ficou alegre apenas por ouvir sua música preferida tocar no rádio do carro; algum casal assistiu a um velho filme em um cinema decadente; alguém caminhou pelo centro de Porto Alegre e sem querer esbarrou no sapato de outra pessoa; alguém riu com um meme da ines brasil e marcou as amigas para rirem também; alguém ficou preso no trânsito e perdeu um compromisso importante; alguém acendeu um cigarro na boca de um fogão a gás; alguém entendeu que em metafísica ser e fundamento não são a mesma coisa; alguma criança levou fanta uva para o piquenique da escola; alguém se deu conta que todos os meses do ano terminam com a letra "o", menos abril. Muita coisa aconteceu desde que a gente terminou. A única coisa que não aconteceu foi eu conseguir parar de pensar em você. Nem por um único minuto.