sábado, 1 de abril de 2017

Desde que a gente terminou

Desde que a gente terminou: alguém girou a torneira do banheiro para lavar o próprio rosto; alguém se preparou para morrer; alguém nasceu e encheu de amor alguma família; alguém descobriu alguma nova fórmula para curar alguma doença; alguém ficou sem ter ninguém para abraçar numa noite solitária; alguém ficou alegre apenas por ouvir sua música preferida tocar no rádio do carro; algum casal assistiu a um velho filme em um cinema decadente; alguém caminhou pelo centro de Porto Alegre e sem querer esbarrou no sapato de outra pessoa; alguém riu com um meme da ines brasil e marcou as amigas para rirem também; alguém ficou preso no trânsito e perdeu um compromisso importante; alguém acendeu um cigarro na boca de um fogão a gás; alguém entendeu que em metafísica ser e fundamento não são a mesma coisa; alguma criança levou fanta uva para o piquenique da escola; alguém se deu conta que todos os meses do ano terminam com a letra "o", menos abril. Muita coisa aconteceu desde que a gente terminou. A única coisa que não aconteceu foi eu conseguir parar de pensar em você. Nem por um único minuto. 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Phármakon

Desde que o li pela primeira vez, a Farmácia de Platão, de Derrida, é um dos meus textos preferidos na Filosofia. O filósofo defende lá que a tradição filosófica, desde Platão, sempre privilegiou a fala, a voz viva, e criticou a escrita como um fantasma, uma forma de expressão sem vida e alienada. A palavra escrita não pode transmitir com a mesma precisão do que a palavra falada, e por isso ela foi relacionada com o phármakon por Platão.
Phármakon, como mostra Derrida, significa remédio e veneno ao mesmo tempo. Esse sentido ambíguo do termo grego é o que me interessa. Aquilo que nos cura também nos mata. Aquilo que nos mata, em suas devidas doses, pode nos salvar. E o que por muito tempo nos salvou, é aquilo que acaba nos matando.

Você sempre será o meu phármakon, meu remédio e meu veneno, minha salvação e minha morte, a minha droga preferida. 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Sobre dar um tempo

Eu te devo isso. E hoje, pensando no tempo que estamos dando e no tempo que ficamos juntos, o medo bateu. E bateu muito forte. Lembrei do nascimento de um amor. Poucos amores nascem, crescem e florescem. Normalmente parece que as pessoas nascem prontas, embrulhadas para presentes. Mas com você foi diferente. Fomos quebrando os espinhos aos poucos. Começou naquela aventura confusa e maravilhosa pelas ruas da CB. Era pra ser só um tacaço, lembra? Foi logo ali que eu aprendi a te respeitar. Depois, Porto Alegre, apezinhos na Venâncio, a relação se fortaleceu entre as madrugadas, bares e Netflix. Por isso, hoje, o medo veio muito forte. Eu não sei o que teria sido de mim sem você naquele momento. Não importam os motivos: foi intenso e caótico para nós dois. Eu sei, mas era você que estava comigo naquele apartamento, rindo das minhas piadas, me botando pra cima numa fase da minha vida em que o mundo inteiro me dizia que eu não era nada. Era você que estava lá comigo, e isso era só o que importava. Porque os verdadeiros casos de amor não surgem do nada, embrulhados para presentes. As pessoas são como flores: tem que saber como tocar e segurar. Se não, é sempre sangue e saudade. É bom ter alguém para dividir as coisas. Ou somar. Às vezes muita coisa falta. Às vezes muita coisa sobra e eu não sei onde guardar. 

namorados

eu te dou a minha palavra, meu amor: 
rinoceronte, cidade baixa, metafísica, ser, riso
dasein, grêmio, saudade, cerveja, desconstrução 
qual você quer?
eu quero "ser", amor,
é a mais bonita,
essa é a que eu mais gosto, minha palavra preferida 
mas tudo bem
essa também eu te dou
- como o último pedaço da coisa gostosa que estivermos comendo -
eu te dou minha palavra
eu te dou todas as minhas palavras,
meu amor. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

o fim do mundo

todo fim de namoro é um tipo de fim do mundo. é como se o sol começasse a morrer. o final de um namoro faz o tempo avançar quatro ou cinco bilhões de anos; o sol começa a apagar. um gigante entediado aperta o interruptor do universo e desliga a nossa luz para que possamos dormir. Assim é o fim do mundo. Assim é um fim de namoro. Um gigante vai levantar o planeta inteiro e embalar o nosso sono na palma da mão. vai desejar boa noite, dar um beijo e caminhar por cima das estrelas até nenhuma mais brilhar. Todo final de namoro é dia de o mundo acabar. Cada briga, cada desentendimento, cada discussão, é o sol chegando mais perto para se despedir. Talvez o mundo acabe em uma sexta-feira, logo tão próximo do sábado que a gente tinha combinado de comemorar teu aniversário. Fazer quê? Imprevistos acontecem. Mas não dá pra remarcar, remarcar nosso final de mundo? Talvez o mundo possa acabar mais tarde. Sábado o mundo ainda pode estar aí para a gente. a gente sai para caminhar pela cb e olha para as estrelas que não foram ainda esmagadas. Tá difícil conseguir dormir e trabalhar essa semana sabendo que o meu sol e minha estrelas estão sendo levadas embora. vou subir no telhado e estender um cobertor para ficar de olho nos movimentos das estrelas. E caso você mude de ideias e não tenha outros planos, vou guardar um lugar para você ver aqui do meu lado que isso tudo não é o fim do mundo, do nosso mundo.
o querer dela não tem objeto.
o que ela quer mesmo é sempre apenas querer
então não tem jeito de ela ficar satisfeita 
porque quando acontece aquilo que ela diz que quer
não dá mais pra querer o que ela queria
dai começa toda uma teorização para justificar 
por que aquilo que ela dizia que queria 
não era mais bom e verdadeiro. 
mas era sim e ainda é 
é bom e verdadeiro, eu sei que é
ela que não percebe.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A menina mais bonia que eu já vi.

Quando a menina mais bonita que eu já vi fica triste
eu tenho vontade de perguntar para ela:
a menina mais bonita que eu já vi,
tem os olhos, a boca e o sorriso mais bonitos que eu já vi;
como ela pode ficar triste,
se ela é a menina mais bonita que eu já vi?

Feliz aniversário, menina mais bonita que eu já vi.