segunda-feira, 23 de setembro de 2019

longe

não há o que se fazer quando longe não é um lugar. não há como chamar um uber, pegar um táxi, comprar uma passagem. nada pode ser feito quando o longe é por dentro, um não ser, uma coisa qualquer que nunca chega. por mais que se siga em frente a vida toda, longe é uma brecha que não se fecha. às vezes é um escuro que assusta, outras é uma claridade que cega. 

longe é quando as coisas vão morrendo, diante dos nossos olhos, sem que possamos salvá-las. longe é quando as coisas partem, quando se vão lentamente, sem como, sem quê. longe é quando não perdermos, mas as coisas que perdem a nós. 

nessa mônada que somos, cada um sabe o que arrasta por dentro. longe, às vezes, é bem onde a gente tá. 

gato

o gato que me olha
é um gato que tem olhos
e que me percebe
como eu o perceberia

é assim que eu olho
para o gato que me olha

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

sapatos (ari)

ali, por debaixo da mesa do restaurante, fiquei olhando os sapatos soltos do pé como se estivessem no chão da sala de casa. a roupa que ela vestia. a camisa lisa de manga longa, tão a cara dela, tão bem ajeitadinha. a bolsa, imitando o coro de crocodilo, com o fecho dourado, como se ela tivesse ficado em dúvida, na noite anterior, se ela combinava bem com a roupa. mas os sapatos, especialmente eles. pequenos, sem salto, baixos, escuros. ali, um do lado do outro, fora dos pés. isso me fez pensar como tudo aquilo que eu via era ela viva, e em como eu me sentia também vivo próximo daqueles sapatos tirados daquela forma e de como sempre vê-los ali, atirados, e nunca guardados dentro de algum armário.