segunda-feira, 17 de setembro de 2018

não estranhe a solidão. não há ninguém mais se divertindo pelas ruas. lotando os bares ou saindo das festas aos gritos. as vozes não entram mais pela janela do apartamento. não se assuste com a imagem no espelho. essa é você mesma. a maquiagem não esconde mais as marcas. traços fortes, espalhados pelo teu rosto. feiuras escondidas por trás da máscara. é assim que tu é. o perfume não disfarça mais teu cheiro podre. este cheiro é teu. a roupa não oculta mais o teu mau gosto. o silêncio, no lugar da música alta, revela as bobagens que tu sempre disse. agora todos ouvem. agora todos te conhecem. não te espante. a droga não disfarça mais o teu tédio. a bebida não tira mais o amargo da boca. esse é teu gosto. essa é você. agora todos sabem o teu verdadeiro nome. 

para tentar fugir, tu conversa. todas as quartas ou quintas-feiras, sentada em um sofá confortável, com uma desconhecida. para tratar dos teus problemas, tu diz. com o tempo contado, ela te escuta, fazendo anotações em um caderno de capa amassada. tantas horas, tantos dias. uma vida toda correndo atrás de aplausos. agora tu espera por esses encontros semanais. achando que vai ser tudo tão simples. desintoxicação. sucesso garantido. memória apagada. começar do zero. simples assim. sem precisar  encarar o rosto no espelho. suportar o cheiro podre. sentir na saliva o teu próprio gosto ruim. uma nova vida. agora, tu faz de conta. finge que eu nunca existi. apaga minhas fotos, rasga meus textos. esquece minhas mãos. todas as noites, você vomita ajoelhada sobre o piso gelado. com dois dedos na garganta. para limpar a sujeira que vive dentro de ti. rejeita o que antes já foi tua droga. me amaldiçoa como mais um dos teus erros. e agora, você tenta fugir da imagem que reflete no espelho. jura que esse cheiro não é teu. 

mas, me escute. pelo menos uma vez, não fuga. não te assuste com o espelho, com o silêncio, com o cheiro. é você. sem disfarces. sem os trapos coloridos. sem os teus truques de sempre. é o teu reflexo no espelho. foi isso o que tu sempre foi. olhe bem. tente ver, por alguns segundos. sem medo. está olhando? esta é você. nua. feito uma minhoca. 


segunda-feira, 3 de setembro de 2018

talvez ninguém perceba, mas debaixo dessa pele, algo em mim apodrece. não se pode ver, mas, por trás da casca, as coisas tomam outra cor. estão em outro estado. eu escureço. é negro. ainda é pequeno, mas cresce cada dia mais, em volta da ferida. e isso explica o riso forçado, quando nada tem graça; o beijo, quando a vontade é de cuspe; o desejo de estar no lado oposto da rua, com a cabeça baixa, quando o encontro com um conhecido me surpreende. é uma mancha negra, que cresce cada dia, que explica o "tudo vai dar certo" quando eu sei que o prazo está vencendo e que o fim é inevitável. são pequenos vermes, microscópicos, multiplicando-se em meus miolos, famintos e silenciosos. e que me fazem aceitar, quando gostaria de quebrar os móveis, os vidros das janelas, rasgar as roupas, derrubar os quadros, os espelhos, os vasos. que explicam o silêncio, quando eu gostaria de gritar. é essa mancha negra, minúscula, escondida em minha cabeça. só por ainda ser pequena, que me faz suportar o ambiente, a repetição dos dias, a indiferença, a burrice, a lerdeza. enquanto ainda for pequena, consigo manter essa aparência firme e saudável. enquanto a mancha não se espalhar totalmente, como um câncer, ainda consigo um sorriso ao invés de uma ofensa. o beijo ao invés do cuspe. o silêncio ao invés do grito. o sim ao invés do não. porém, a cada minuto apodreço mais. aos poucos. estou mudando a cada dia. talvez ninguém veja. 

não sangre sobre o tapete.

não morra, idiota, não morra.