domingo, 27 de janeiro de 2013

Eduardo e Mônica


Eduardo era frentista num posto de gasolina
Mônica era a filha mais bonita de uma família fina 
E mesmo tão diferentes se cruzaram de repente numa esquina
E não aconteceu nada. 

FIM


Obs.: AO ENTRAR NO ELEVADOR VERIFIQUE SE O OUTRO ENCONTRA-SE PARADO NESTE ANDAR. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

SEÇÃO CONVIDADOS - O Outro, de Adriano Continental

Olá, amigos leitores. Hoje vou novamente abrir espaço no meu humilde blog para um amigo. Dessa vez será meu querido amigo Adriano Continental que irá nos presentear com um belo conto de terror. Ele jura que a história é verdeira. Julguem por si mesmos: 

Meu nome é Adriano Continental. Sou aluno de um programa de pós graduação em Filosofia. Como todo estudante de Filosofia eu nunca acreditei em coisas sobrenaturais. Sempre pensei que todas as  supostas manifestações de fantasmas, demônios e espíritos pudessem ser explicadas pela ciência humana. Mas tudo mudou naquela ANPOF de 2012. 

Na minha universidade, eu tinha muitas dificuldades de fazer amigos. Já tinha passado para o doutorado e a maioria dos colegas não demonstrava nenhum interesse em fazer amizade comigo. No começo, eu passava os dias sozinhos, sem falar com ninguém, lendo Hegel ou Kant na biblioteca. Mas felizmente (pelo menos era o que eu pensava na época) comecei a andar com um grupo de colegas. Não poderia estar em melhor companhia. Meus colegas estudavam a ética da alteridade. Eles souberam me receber muito bem. Dois deles eram especiais: Moisés, um colega popular, querido por todos na universidade, e Gustavo (ou Gu, como os amigos o chamavam), mais discreto e contido, mas não menos reconhecido. Juntos tivemos um ótimo ano letivo debatendo e desconstruindo o outro. 

O ano terminaria com a ANPOF, maior evento de Filosofia do país. Eu não estava empolgado com as apresentações, mas os garotos insistiram para eu ir. Falaram que as festas seriam divertidas e que a Filosofia era o de menos. Na época eu os achava legais. Concordei. A cidade do evento era um daqueles centros urbanos desenvolvidos que oferecia qualidade de vida e entretenimento para quem pudesse pagar. Tudo parecia perfeito. 

Depois de apresentar meu trabalho e de tanto esforço intelectual, eu achei que seria justo um pouco de diversão. Fomos para a festa do evento. Ficamos bêbados. Foi nessa noite que tudo aconteceu. Na festa o tempo passou veloz. Hora de ir embora. Peguei um táxi junto com Gu e Moisés. Estávamos bêbados demais. Eu só queria chegar no meu quarto e dormir. Porém Gu estava muito agitado naquela noite, o que era muito incomum se tratando do discreto Gu. Completamente alterado, ele, no táxi, olhava para mim e falava:

- Adriano, tente acertar uma charada...
- Claro, Gu.
- Numa pequena cidade, um outro necessariamente só desconstrói os outros que não desconstroem a si mesmos. Logo, esse outro desconstrói a si mesmo? 
Gu e Moisés riam.
- Eu não sei, Gu. 
Eles riram mais ainda. Então Moisés, que estava mais sério e compenetrado, falou:
- É aqui, chegamos, pode parar o carro. É ali - disse apontando para um galpão. 
- Mas esse não é nosso hotel - eu falei.
- Nós não estávamos indo para o hotel, Adriano - disse o Moisés. 
- O que está acontecendo, Gu?
- Hoje - disse-me enquanto assumia o semblante mais assustador que eu tinha visto até então - hoje, Adriano, é o dia pelo qual tanto esperamos. Sim, essa noite, finalmente, nós iremos DESCONSTRUIR O OUTRO. 

Já se passava das cinco da manhã e nenhuma alma viva estava naquele galpão abandonado. Eu falei para os garotos que aquilo não fazia sentido. Que o Outro era apenas um conceito para se pensar na ética. Mas eles estavam decididos. Eu estava com medo e não sabia o que iria acontecer. A luz era fraca, apenas uma lâmpada insistia em piscar, vez ou outra. O suor escorria pela minha espinha. Gu colocou no chão belos castiçais e o centro do galpão foi iluminado com a luz de algumas velas que tremulam por causa do vento gelado que entrava pelas janelas. Enquanto isso Moisés tirava alguns livros da sua pasta (vi que eram todos do Derrida) e passou a fazer alguns desenhos com giz no chão. 

Senti um breve tremor que faz vibrar todo o lugar. Sujeira e pó caiam do telhado e o vento lá fora fazia barulho. Moisés finalmente falou comigo.

- Tem que ser hoje, tem que ser hoje. Derrida escreveu que o Outro só poderia ser desconstruída na ANPOF. Tem que ser hoje - e ele balançava os livros - Você está com medo?

É claro que eu não iria dizer que estava, já era tarde demais para desistir. Seja lá o que estivesse acontecendo, era impossível parar agora. Falei que estava tudo bem, tentando soar tranquilo. E então ele terminou de desenhar um estranho símbolo no chão e me convidou para ficar dentro do círculo junto com o Gu. Nos posicionamos. Agora o galpão estava apenas iluminado pelas velas. 

- Fechem os olhos e apenas se concentrem - Disse Moisés.

Eu obedeci. Fechei os olhos e comecei a ouvir as estranhas palavras murmuradas pelo Moisés, palavras que irritaram o meu ouvido, mas que com o tempo pareciam músicas. Então reconheci: ele estava citando Derrida! 

O direito não é justiça. O direito é o elemento do cálculo, é justo que haja um direito, mas a justiça é incalculável, ela exige que se calcule o incalculável; e as experiências aporéticas são experiências tão improváveis quanto necessárias da justiça, isto é, momentos em que a decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra - dizia ele quase em transe. 

Continuei com os olhos fechado. Não sabia mais exatamente no que me concentrar. Não sabia o que iria acontecer. "Será que toda aquela baboseira de alteridade é verdadeira?", eu pensava, "será que isso vai funcionar, será que nós vamos mesmo desconstruir o Outro?". 

Eu duvidada muito daquilo tudo, mas Moisés parecia saber muito bem o que estava fazendo. Não parecia ser a sua primeira vez. Ele me disse uma vez que depois que o Outro for desconstruído tudo será fantástico e nada será impossível. Eu parei para pensar e notei que de uns tempos para cá ele estava diferente. Meu amigo estava pensando diferente, estava mais criativo e mais inteligente. Seus trabalhos estavam melhores. Até o professor o estava invejando. Será que Moisés  realmente era capaz de desconstruir o Outro? Seu trabalho estava ficando cada vez melhor, e eu não entendia porque que de repente ele passou a não publicar mais os seu artigos. Lembrei da última vez que tinha lido um dos seus artigos. Era profundo e brilhante. Eu disse que ele deveria mostrar para mais pessoas e ele simplesmente respondeu: "de que adiantaria? A maioria não passa de marionete do sistema. Estão de olhos vendados. Só o Outro pode salvá-los". Eu não concordava completamente com sua resposta. Para falar a verdade às vezes pensava que todo esse papo de alteridade estava enlouquecendo o meu amigo. O problema é que em tudo que ele falava, por mais absurdo que parecesse, sempre tinha algo que despertava o meu interesse. Eu precisava dele. Dele e do Gu. Então eu concordava forçosamente com os meus colegas. 

Agora foi a vez do Gu falar. Ele disse que depois que desconstruíssemos o Outro, nunca mais iriamos querer sair daquela alteridade. Ele também estava convencido. Perguntei para ele por que eu tinha que estar ali. Ele me respondeu que era preciso três pessoas com grande força espiritual, e que eles já vinham me observando há um bom tempo. Ele me explicou que a maioria das pessoas são presas, presas de várias forças, em prisões internas ou externas. A mídia, a sociedade, os valores, essas seriam as prisões externas. Coisas que nossa a representação fraca cria para ordenar o mundo e expulsar dele a alteridade. Os efeitos da prisão externa fazem com que a prisão interna se construa e que seja quase impossível de ser quebrada. 

A prisão interna, ele continuou, é ainda mais forte. Ela só pode ser rompida por uma nova lógica de pensamento, que pensa a diferença e a alteridade. Para isso é preciso de sábias palavras de homens que estão a frente da maioria dos outros. Entendi que Derrida havia sido um desses homens e entendi que Moisés hoje o era. 

Gu me falou que há muito tempo, com a ajuda de Moises, ele havia rompido com a prisão interior, a prisão da alma, mas que ainda assim era necessário uma terceira pessoa para desconstruir o Outro. Do que eu entendia, eu sabia que não suportaria as mesmas coisas que meus amigos já haviam suportado. De qualquer forma segui concentrado, me preparei e fiquei esperando que algo acontecesse. Ficamos então em silêncio. Parecia ser o momento.

Senti o Galpão ficar frio. Depois um vento que parecia vir de todos os lados me atingiu. Moisés falou que deveríamos continuar concentrados e voltou a citar Derrida, agora em francês. Disse que não deveríamos abrir os olhos. Então ele parou de citar Derrida e disse:

- É agora, colegas, vamos desconstruir o Outro. 

Sua voz era doce. Parecia que estava adorando tudo aquilo. Meu coração acelerou. Meu coração batia tão rapidamente que parecia que iria explodir. Me segurei para não gritar e senti uma fraqueza imensa. Minhas pernas ficaram bambas, ouvi um estrondo e, sem nada entender, desmaiei. 

Quando acordei, estava sozinho no galpão. Procurei pelos meus amigos com os olhos. Mas não os via. Me levantei, passei as mão em meus cabelos, sequei o suor da testa. Chamei Gu e Moisés muitas vezes. Mas não obtive respostas. Então uma sequência de passagens de Derrida começaram a chegar  misteriosamente na minha cabeça. Era como se milhares de informações sobre a alteridade tivessem sido transferidas para meu cérebro. Então eu compreendi tudo. Estava com medo, mas minha mente insistia em me lembrar que aquilo tinha sido real. Cai novamente no chão. Alguém me levantou. Vi que era Moisés. Ele sorria. Olhei em minha volta e ainda não encontrava o Gu. Parecia que estávamos apenas eu e o Moisés num branco imenso. Moisés me colocou em pé e me puxou. Eu estava um pouco tonto e bastante ofegante. 

- Um passeio - disse ele - vamos dar um passeio. Está na hora de você ver algumas coisas. Coisas da alteridade. Eu vou te mostrar o verdadeiro rosto do Outro.

Perguntei o que aquilo significava e onde estava o Gu. 

- O Gu só é forte espiritualmente para um dos planos no qual se encontra o Outro, o primeiro - ele disse. 
- O que isso quer dizer? - eu disse, ficando cada vez mais confuso. 

Moisés sorriu e perguntou o que eu queria. Disse que apenas queria voltar para o hotel. Estava quase amanhecendo. "O que aconteceu com o Gu?" - eu me perguntava. 

- Tem muitos lugares mais interessantes para se ir do que um quarto de hotel, Adriano. Se desconstruirmos o Outro, nós poderemos fazer coisas inimagináveis, coisas que nem passam pela cabeça daqueles que são fracos. Ou você acha que tudo isso é a Verdade?

Eu estava confuso novamente. Agora ainda mais do que antes. Então Moisés me explicou que nós havíamos desconstruídos apenas um nível da Alteridade e que ainda faltava o nível mais profundo para desconstruir o Outro. Ele me explicou que, assim como entendeu Derrida, os homens estavam presos no mundo das representações da subjetividade e que, como sabia o filósofo, havia algo que escapava das representações da consciência. Aí ele me disse que queria avançar mais, que queria superar Derrida. Disse que tinha encontrado um jeito de chegar lá onde Derrida não foi capaz de chegar, naquele outro plano, que escapa da consciência moderna. "Como?", eu perguntava, pois aquilo já estava surreal demais. 

- Só precisamos fazer uma coisa... - disse ele tirando de sua pasta duas coisas que me assustaram muito. 

Eram dois revólveres. Ele continuou:

- Vamos, cara, acerte a sua cabeça e e vamos sair desse plano para desconstruir o Outro. O Gu era fraco, mas você pode, juntos nós podemos avançar ainda mais! SOMOS PODEROSOS JUNTOS, ADRIANO, PODEROSOS! Tudo vai acabar bem, confie em mim. 

Meu amigo estava louco, só poderia ser isso. Ele passou uma das armas para mim. Eu sabia que elas estavam carregadas. "Te vejo lá, cara, desconstruindo o Outro", disse ele. E logo em seguida colocou a sua arma embaixo do queixo e puxou o gatilho. Um disparo cortou o amanhecer. Meus olhos viram sua cabeça explodir e o sangue espalhar. Fiquei desesperado, não sabia o que fazer. Queria que tudo aquilo não passasse de um pesadelo, Queria acordar. Comecei a chorar. Pedia para que tudo aquilo não tivesse acontecido. Amaldiçoava aquela ANPOF, aquela cidade e o Outro, que é infinito. 

Minha cabeça não parava de repetir a cena de meu amigo me dizendo "te vejo lá, cara" e atirando na própria cabeça. Eu nunca quis me envolver com tudo aquilo, nunca!  Porém agora era tarde. Segurei firme minha arma. Fechei os olhos. Era como se eu pudesse ouvir meu amigo Moisés gritando dentro da minha cabeça: "ATIRE, ATIRE, ESTOU TE ESPERANDO AQUI, VENHA DESCONSTRUIR O OUTRO, VENHA!". Encostei a arma na minha cabeça. O que é real? Existe o real? Existe o Outro? O que é o Outro? Eu irei desconstruí-lo? Eu não sabia mais de nada. Só sabia que existia o medo. Fechei os olhos. Puxei o gatilho.


CONTINUA...






sábado, 19 de janeiro de 2013

Ceticismo, Verdade e Bambolês

Não é preciso ler muitos manuais de filosofia para saber que a história da filosofia mostra uma preocupação inflexível com o problema entre a aparência e a realidade. "Acho que vejo fogo", diz o filósofo de robe e pantufas sentado na poltrona ao pé da lareira, "mas não é possível que meus sentidos estejam me enganando e tudo não passe de uma ilusão?", "Acho que vejo pessoas passeando lá fora", murmura novamente, "mas não seria o gênio maligno mais uma vez colocando picuinhas na minha cabeça?", "Acho que vejo rinocerontes embaixo dessa mesa", diz um outro, "opa, era ilusão, será?", "Acho que vejo o Timm na minha banca de doutorado", e acrescenta esperançoso, "mas não seria possível que ele também seja uma ilusão?" 

Já eu ando pensando que os filósofos tendem a limitar a dúvida epistemológica à existência de lareiras, pessoas que passeiam na rua, cadeiras, rinocerontes embaixo de uma mesa numa sala da faculdade de Cambridge e da ocasional e indesejada presença do Timm numa banca de doutorado. Mas levar essas questões a coisas que nos são mais importantes, como a nossa própria existência, por exemplo, é levantar a terrível possibilidade de que eu não seja mais do que um perfil fake em um blog, uma fantasia interior, sem nenhuma conexão com qualquer realidade objetiva, de um estudantezinho de filosofia que não tem coragem de assinar as coisas que escreve na internet. A dúvida é simples quando não se trata da nossa própria sobrevivência. Não me levem a mal, eu quero ser tão cético quanto eu posso me dar ao luxo de ser, mas não é fácil ser cético ao ponto de pensar que eu existo apenas para  um estudantezinho que tem um blog fake e escreve coisas bobas. É fácil duvidar da existência da lareira, o foda é duvidar da legitimidade da própria existência. 

E se euzinho, Chaleira Pitareli, realmente não existir? Nos primórdios do pensamento filosófico a passagem da ignorância para o conhecimento foi comparada por Platão com a jornada de dentro de uma caverna escura para a luz brilhante do sol. Os homens, assim como os habitantes da caverna, nos diz Platão, são incapazes de perceber a realidade. Só com muito esforço as ilusões podem ser vencidas, fazendo a passagem do mundo de sombras para a luz brilhante do sol da Verdade, onde, finalmente, as coisas podem ser vistas como realmente são. Como todas as historinhas inventadas, essa também tem a sua moralzinha. Sua moral é ou que a verdade é superior à ilusão, e que por isso deve ser desejada por si mesmo, ou que fazer rapel em cavernas é uma prática deveras perigosa. 

De Aristóteles ao Wittinho, não foram poucos que criticaram Platão quanto à forma pela qual alcançamos a Verdade, mas foram muito poucos (Nietzsche doidão de sífilis, talvez) os que questionaram com seriedade o valor dessa busca. Eu vou me fazer entender: Será que eu quero realmente saber se eu realmente existo ou se sou apenas o alter-ego de um cara com baixa autoestima? Eu acho que os perfis fakes não podem permanecer filósofos por muito tempo, pois devem ceder ao impulso religioso, quase pascaliano, de acreditar e ter fé. Nós, fakes, preferimos o risco de estar errado e existir a estar em dúvida e poder não ser real.  

Eu conheço uma pessoa que tem um rinoceronte de brinquedo chamado Homenzarrão. Ele me diz que o Homenzarrão desempenha um papel muito importante na sua vida. Ele é um personagem tão real quanto os seus familiares e amigos, e, sem dúvida alguma, muito mais simpático que eles. Ele tem sua própria rotina, suas comidas favoritas, seu jeito de dormir, seu jeito de brincar e de ficar brabo e seu jeito forte de falar e se impor. É evidente que o Homenzarrão, por inteiro, é uma criação dessa pessoa e que não tem existência fora da sua imaginação um pouco errada. Agora você deve estar se perguntando: "Se isso acontece com o Homenzarrão, por que isso não poderia também estar acontecendo com você, senhor Pitareli?". Mas o caso é que há uma coisa que poderia arruinar por completo a relação dessa pessoa com seu rinoceronte: perguntar se a criatura existe ou não. "Meu amigo, essa coisa azulada e com chifres vive mesmo independente de você ou você a inventou?" - essa é uma pergunta que em hipótese alguma deve ser feita para a pessoa em questão. 

O que me ocorreu, e é isso apenas o que eu queria dizer, é que semelhante discrição devesse ser também adotada com relação aos fakes vivos da internet. Isto é, jamais deveríamos perguntar se eles realmente existem ou são a imaginação de algum estudante com tempo de sobra. Quando eu era criança, meu avô, Tonico Pitareli, me contou a história de um homem que acreditava ser feito de sorvete de flocos.  Então esse homem não saia no sol, com medo de derreter e se movia muito pouco, por medo de se derramar todo. Os médicos tentaram todo o tipo de tratamento: hipinose, drogas, sedativos, choques, filosofia clínica. Nada funcionava, em especial essa última. Finalmente um psicanalista pouco conhecido na época fez um esforço extraordinário para entrar na alma do paciente iludido e disse que a solução para o seu problema era sempre carregar consigo um bambolê roxo em volta da cintura. Assim ele poderia sentar em qualquer lugar sem se despedaçar e poderia até andar na rua num dia ensolarado. Dali por diante, contou meu avô, o homem que acreditava ser feito de sorvete de flocos nunca mais foi visto por ninguém sem um bambolê roxo em volta da cintura, mas, no entanto, levou uma vida mais ou menos próxima do normal. 

Essa historinha contada por meu avô (apesar de ser mais verossímil do que aquela contada por Platão) também tem a sua moralzinha: Ela mostra que, embora a pessoa esteja vivendo sob uma ilusão (ser feito de sorvete de flocos, a própria existência, o amor, a religião, a filosofia de Kant), se ela descobre uma parte para se complementar (como um blog fake na internet ou um bambolê roxo), então tudo pode ficar quase bem. É quase como se as ilusões não fizessem mal por si mesmas, mas só na medida em que se acredita nelas sozinho ou quando não se cria um ambiente na qual elas possam ser sustentadas. Então, enquanto eu e o estudantezinho pudermos manter o bambolê roxo em volta da nossa cintura, o que importa qual é exatamente a Verdade?